[Coautora: Priscila Lini[1]]
A antropologia, na tradição acadêmica, consolidou-se como ciência da alteridade: um campo de conhecimento voltado à compreensão do outro em sua complexidade simbólica, histórica, política, social e sobretudo cultural. Foi a última ciência a se consolidar no campo científico, sendo antes conhecida como “ciência do homem” ou “ciência da cultura”, dentro de um pensamento ocidental marcado pelo etnocentrismo.
Ainda que busque se desconstruir, a disciplina carrega os estigmas de sua origem colonial, evidentes na produção dos chamados pais fundadores – a tríade formada por Edward Tylor, Lewis Morgan e James Frazer –, cujas obras constituem o axioma da ciência antropológica. Esses autores interpretaram as culturas não ocidentais com base em paradigmas evolucionistas lineares, posicionando-as em estágios de selvageria, barbárie ou civilização com fundamento em leis gerais, progresso e acúmulo de evidências materiais, nos quais o europeu era a medida universal do humano.
No contexto estadunidense e, em geral, no brasileiro, a antropologia passou por transformações. Até meados do século XX, predominava uma abordagem exógena, muitas vezes vinculada a missões científicas e influenciada por ações coloniais. Foi somente a partir dos anos 1960 que a antropologia ganhou consolidação institucional própria no Brasil, inaugurando um novo ciclo de debates éticos, metodológicos e epistemológicos.
Este ensaio propõe uma análise de textos e teorias que, evidentemente, contribuíram para a construção crítica dos primeiros momentos da antropologia brasileira.
Theodor Koch-Grünberg, em suas expedições à Amazônia, produziu um extenso acervo de imagens, registros e objetos etnográficos. Seu trabalho expressa uma antropologia colecionadora, voltada à fixação daquilo que ele considerava uma cultura supostamente em desaparecimento. Embora seus artefatos sejam relevantes para a memória visual dos povos indígenas, sua abordagem refletia uma postura eurocêntrica e objetificante, na qual o indígena era tratado como objeto de estudo que precisa ser salvo através de lentes.
Algumas décadas depois, Kurt Nimuendajú fez uma inflexão metodológica ao buscar compreender os sistemas simbólicos indígenas em suas próprias lógicas internas e tradução cultural. Contudo, o seu trabalho ainda é atravessado pelos limites de uma linguagem científica que buscava categorias analíticas ocidentais e tendências “salvacionistas”.
A obra de Claude Lévi-Strauss, antropólogo que veio ao Brasil com a missão de fundar o departamento de humanidades da Universidade de São Paulo (USP), na década de 1930, propõe, por meio de uma análise de mitos e sistemas de parentesco, identificar estruturas mentais universais que são comuns em todas as culturas. Ele valorizava o indígena como produtor de lógicas complexas, mas, devido à tendência à abstração do estruturalismo, tal corrente antropológica recebeu algumas críticas pelo risco de reduzir as práticas culturais em busca de leis gerais.
Egon Schaden, aluno de Lévi-Strauss, valorizou a preservação das narrativas míticas indígenas. Porém, há certa dose de anacronismo em seu trabalho, que por vezes trata os indígenas como pertencentes a uma cultura estática, negligenciando seus processos históricos de adaptação e resistência em face da modernidade.
Mariza Corrêa faz uma análise crítica ao voltar-se para os mecanismos de produção do saber antropológico. Seu trabalho denuncia assimetrias de poder que permeiam a prática científica e problematiza a passagem das pessoas para objetos de contemplação, convertidos em mercadorias simbólicas no “tráfico acadêmico do excêntrico”. Sua análise também destaca a influência da escola culturalista norte-americana na formação da antropologia brasileira e propõe uma produção mais autônoma, ética, que questione e repense o lugar do pesquisador no campo.
Embora, como mencionado inicialmente, a antropologia brasileira tenha sido influenciada por teorias estrangeiras – especialmente pela escola culturalista norte-americana e pelo estruturalismo francês –, foi a partir da década de 1930, com a institucionalização da disciplina e a valorização do trabalho de campo, que as ideias de autores como Franz Boas e seus discípulos Ruth Benedict, Margareth Mead, Edward Sapir, dentre outros, contribuíram para uma abordagem mais relativista e contextualizada das culturas no Brasil.
No entanto, a dependência teórica de modelos importados limitou, por um período, a plena autonomia intelectual da produção antropológica nacional. Diante disso, tornou-se essencial produzir uma antropologia mais enraizada nas realidades locais, que dialoga criticamente com as tradições teóricas internacionais, mas que valorize as experiências, os sujeitos e os saberes próprios do contexto brasileiro.
As obras analisadas revelam diferentes momentos da antropologia brasileira, e o percurso que se desenha entre esses autores não é linear, mas dialético. É nessa dinâmica que a antropologia como ciência encontra sua vitalidade. A alteridade não é apenas um objeto de estudo, mas um espelho que reflete – e desafia – as formas como conhecemos, narramos e nos situamos no mundo.
A contribuição mais valiosa da antropologia brasileira talvez não esteja em suas descrições do outro, mas na sua capacidade de nos obrigar a repensar o próprio ato de conhecer. Nesse sentido, mais do que uma ciência da diferença ou da contextura, a antropologia pode ser compreendida como uma prática de escuta ativa, de descentralização do olhar e de coconstrução de saberes – sempre em dinamicidade, sempre em negociação –, sendo um meandro e percorrendo caminhos sinuosos entre culturas, histórias, modos de vida, revelando a complexidade do ser humano em sua diversidade mais profunda.
Referências
CORRÊA, Mariza. Traficantes do excêntrico: os antropólogos no Brasil dos anos 30 aos anos 60. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 3, n. 6, p. 79–98, 1988.
FRAN, Erwin. Objetos, imagens e sons: a etnografia de Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Objects, pictures and sounds: the ethnography of Theodor Koch-Grünberg(1872-1924).
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Ubu Editora, 2017. 432 p. (Coleção Argonautas).
NIMUENDAJÚ UNCKEL, Kurt.Nimongaraí – o batismo ritual de Nimuendajú. Tradução do alemão por Aryon D. Rodrigues. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, v. 2, n. 1, jul. 2010.
SCHADEN, Egon. Fragmentos da mitologia Kayua. Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. 1, p. 106–123, 1947.
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
[1] Docente permanente do curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), na linha Arqueologia – Patrimônio e Cultura Material (UFMS). E-mail de contato: priscila.lini@ufms.br
O artigo é o segundo da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira o primeiro texto publicado desta edição:
- Religiões evangélicas, controle social e educação no cárcere , de Karolayne Hanario Rodrigues e Pedro H. C. Silva.




