[Coautor: Rafael Lopes Batista[1]]
Ao estudar filosofia, é impossível não nos depararmos com a palavra dialética. Essa palavra é recorrente em toda a tradição filosófica dos últimos dois milênios. Mas, afinal, o que é dialética? Ainda que diversos filósofos, ao longo da história, tenham pretendido defini-la, esse é um problema em disputa até hoje. Sob essa perspectiva, neste ensaio, pretendemos analisar, ainda que por alto, algumas concepções de dialética presentes na história da Filosofia. Em seguida, propomos, inspirados em Heráclito, pensar a dialética não como um método discursivo ou princípio lógico do espírito, mas como a própria dinâmica em que os contrários coexistem em tensão: um fluxo que não se estabiliza nem se resolve. Longe de recorrer a um princípio ontológico, essa concepção é imanente à vida, à história e ao pensamento.
Pois bem, quando consultamos dicionários especializados, temos a etimologia da palavra, então obtemos daí a seguinte pista: formada por termos que remetem à ideia de atravessar e falar, a dialética designa, desde sua origem, a “arte da discussão” (Ferreira, 2001, p. 234) – significando, assim, algo como “relativo ao diálogo ou à conversação”. Mas entender dialética como “arte da discussão” não parece nos aproximar do que ela efetivamente é. Desse modo, convém percorrer alguns de seus momentos históricos mais significativos – mesmo que de forma parcial e exploratória.
Ao entrar em contato com textos clássicos, como os diálogos de Platão, podemos entendê-la como um método de investigação filosófica. Apesar de não produzir respostas definitivas, a própria justaposição de ideias contribui para fazer emergir um novo conhecimento – este, por sua vez, mais verdadeiro. Nesse sentido, a dialética platônica não almeja uma conclusão acabada, pelo contrário, inicia um processo em que as certezas se desfazem para dar lugar a compreensões mais profundas. Trata-se, portanto, fundamentalmente, de um movimento de investigação, em que o pensamento se aproxima da verdade por meio do questionamento.
No entanto, por mais rica que seja essa concepção, percebemos que ela por si só é insuficiente. Isso porque tal concepção nos mostra como a dialética se manifesta como prática filosófica, uma metodologia, porém, ainda assim incompleta, pois não expressa toda a sua complexidade. Ao longo da história, diversas doutrinas filosóficas ampliaram essa concepção. Hegel, por exemplo, compreende a dialética como a própria estrutura da realidade, em que o devir se manifesta por meio de contradições internas do espírito e da história. Marx, por sua vez, propõe uma virada materialista: são as próprias condições concretas – sociais, econômicas e históricas – que geram tensões e impulsionam a transformação do mundo.
Mas será que a dialética se limita a abordagens encaixadas em sistemas mais amplos de pensamento? Propomos que não. Na verdade, podemos entender cada uma delas como diferentes aspectos ou momentos da manifestação da dialética na realidade, indo do campo antropológico ao sociopolítico e cosmológico, mas ainda incapazes de abranger sua totalidade.
Diante disso, voltemos à intuição primordial de Heráclito, que percebia o real como um incessante jogo de tensões e transformações. “O caminho para cima e para baixo é um e o mesmo” (Heráclito, 1973, fragmento 60,adaptado), afirmou, nos mostrando que os contrários não se anulam, mas se compõem e se atravessam reciprocamente. Heráclito abraça o devir como um fluxo incontrolável e eterno, no qual a contradição não se resolve – ela permanece, constitui a realidade. Retomar Heráclito, nesse sentido, é reencontrar uma percepção fundamental: a realidade é movimento, conflito, tensão constante, quer dizer, a própria vida é tensão constante. A concepção heraclitiana de mundo não repousa sobre uma origem fixa ou sobre uma ordem final, mas sobre o fluxo ininterrupto do devir. Conforme ele afirma: “[…] o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia” (Heráclito, 1973, fragmento 8). Ou seja, é no embate entre os contrários que as coisas se constituem. O real, para Heráclito, está na luta dos opostos, e essa luta não é um erro a ser superado, mas o próprio princípio do ser: “A guerra é de todas as coisas pai […]” (Heráclito, 1973, fragmento 53, adaptado).
Desse modo, a dialética, a partir do pensamento heraclitiano, não está subordinada a uma estrutura que busca superar a contradição nem depende de uma instância material exterior à linguagem. Ela é anterior à separação entre sujeito e objeto. Outra interessante afirmação de Heráclito é: “Transmudando repousa […]” (Heráclito, 1973, fragmento 84). Essa curta frase pode nos conduzir a romper com a lógica da linearidade, nos dizendo que a mudança – pensada como oposição ao repouso – é o próprio repouso. Assim, os contrários não se excluem, mas se implicam mutuamente e coexistem. Em vez de buscar reconciliação, Heráclito nos propõe habitar a tensão, reconhecer na instabilidade a própria forma do mundo. Tal concepção da dialética nos afasta de qualquer princípio ontológico fixo: não há essência estável, fim último nem fundamento imóvel. “Aos que entram nos mesmos rios outras águas afluem […]” (Heráclito, 1973, fragmento 12), isto é, para Heráclito, o que chamamos de ser, na verdade, é o próprio fluxo, sempre em transformação.
A dialética, portanto, não é apenas uma ferramenta do pensamento, mas uma maneira de estar no mundo, de reconhecer que a realidade é feita de desequilíbrios que nunca cessam, de tensões irresolvíveis. Com isso, podemos afirmar que Heráclito nos inspira a compreender a dialética como o próprio modo como a realidade acontece: um movimento sem origem nem destino, em que as contradições não buscam superação, mas coexistem como expressão da própria vida. Distante de qualquer metafísica ou teleologia, sua visão nos convida a pensar a partir do conflito, da impermanência, da multiplicidade e, talvez, a aceitar que pensar é, antes de tudo, estar em fluxo.
[Revisão de Caroline Guedes e Maria Clara de Freitas Barcelos. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
Referências
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o dicionário da língua portuguesa. 4. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
HERÁCLITO. Fragmentos. In: Os pré-socráticos. (Coleção Os Pensadores). Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
[1] Professor de Filosofia na Rede Estadual de Educação de Goiás. E-mail: rafael.lopesbatista@hotmail.com
O artigo é o nono da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros artigos publicados:
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