[Coautor: Weiny César Freitas Pinto[1]]
Em um texto de 1999, intitulado “A religião e a violência simbólica”, o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005) investiga a violência contida e engendrada pela religião. Sua investigação consiste em uma interpretação pessoal da íntima relação entre religião e violência. A partir de cinco pontos argumentativos, apresentaremos a interpretação ricoeuriana: quatro pontos serão dedicados a expor o porquê de tradições religiosas serem violentamente intolerantes umas com as outras e o quinto e último ponto se concentrará em expor brevemente o objetivo da religião.
1. Características principais da religião e da violência
Para Ricoeur, a religião contém três características principais: “a anterioridade de uma palavra constituinte, a mediação da escrita e a história de uma interpretação” (Ricoeur, 2009, p. 232). Ou seja, a primeira característica da religião é uma palavra discursiva que funda a crença, como por exemplo um chamado vocacional – supostamente divino – destinado a alguém; sua segunda característica é a instrumentalização dessa palavra mediante a escrita, por exemplo, o registro escrito de uma tradição oral milenar; sua terceira característica é a interpretação dessa palavra escrita ao longo da história de uma tradição. Já a violência, segundo a concepção do filósofo, consiste basicamente no “sofrimento infligido pelo homem ao homem” (Ricoeur, 1988, p. 48). Para explicarmos o motivo de a religião praticar violência, é preciso primeiro apresentar a experiência metafísica que interpela o ser humano.
2. A experiência metafísica do ser humano
Para entendermos a experiência metafísica que o ser humano experimenta, é preciso adentrar brevemente na teoria antropológica ricoeuriana. A antropologia filosófica de Ricoeur apresenta uma desproporção constitutiva do ser humano. Essa desproporção é denominada “dialética fundadora” (Ricoeur, 2020, p. 204). Essa dialética consiste na diferença entre a recepção finita de adesão (delimitação receptiva) e o reconhecimento da excessividade do fundamental (superabundância do fundamental). Em termos mais simples: o ser humano é constituído de finitude e capacidade. Esse “excesso do fundamental” implica a ameaça, que pode levar à violência. A desproporção constitutiva do ser humano é a dialética fundadora entre a adesão limitada e o excesso do fundamental, isto é, a experiência metafísica inefável que atravessa a existência humana. Alguns filósofos a denominaram com outros termos, mas certamente visavam à mesma experiência. Kant a entendeu como transcendente. Schleiermacher a chamou de absoluto. Rudolf Otto a apontou como o numinoso. Mas, então, como essa desproporção constituinte do ser humano contribui para o entendimento da violência da religião? Eis o que veremos adiante.
3. A violência como resposta do religioso
Diante da “experiência metafísica do fundamental” (Ricoeur, 2020, p. 204), as diferentes e opostas comunidades religiosas aparecem como rivais na luta pela apropriação do Ser, esse Outro absoluto, denominado geralmente de Deus – o supremo objeto religioso. Isso significa que as comunidades religiosas universais, com suas tradições específicas, são rivais na recepção da experiência transcendente, pois se tornam exclusivamente possessivas de tal experiência. É nesse sentido que, diante da ameaça contrária, a violência é a resposta externa das comunidades religiosas para a proteção interna de sua crença possessiva da transcendência. Em outras palavras, a religião realiza a violência para proteger sua crença exclusiva em Deus.
4. Convicção religiosa e intolerância violenta
Portanto, por que a convicção religiosa insiste em ser violentamente intolerante? A convicção religiosa insiste em ser violentamente intolerante porque o excesso de visões religiosas e arreligiosas, contrárias e diferentes, é ameaçador para a segurança da crença e da posse do supremo objeto religioso – Deus –, objeto de desejo e de medo, tornado propriedade da comunidade religiosa ou do indivíduo crente. Nesse sentido, a violência seria a resposta protetiva da religião diante da oposição ameaçadora que a excede na experiência do fundamental (Ricoeur, 2020, p. 206).
5. O objetivo da religião
Mas, com Ricoeur, não podemos concluir que o objetivo da religião é a violência. Nosso quinto e último ponto argumentativo trata da finalidade da religião. Para o filósofo, a religião destina-se ao homem capaz, o ser humano possível (Ricoeur, 2020, p. 27). Capaz de falar (linguagem), narrar (narrativa), agir (ação), responsabilizar-se (ética).
Em um diálogo com o teólogo católico Hans Küng, em 1996, que recebeu o título “As religiões, a violência e a paz. Para uma ética planetária”[2], Ricoeur apresenta o seguinte questionamento: “Como purificar essa convicção da força de uma Palavra que nos precede, da tendência a impô-la pela violência?” (UC, 1996, p. 3). Em outras palavras, como não ser intolerante diante de outras confissões preservando sua própria convicção? Küng responde: “Creio que se eu estou certo de mim, se não tenho medo da verdade, se estou de fato enraizado na minha própria fé, então estarei igualmente pronto para estar aberto às outras e a estimá-las. Com efeito, muitas vezes, aqueles que são mais agressivos em matéria religiosa são aqueles que não estão muito seguros de sua fé” (UC, 1996, p. 3). Ou seja, a convicção pessoal ou coletiva não deve temer e ameaçar outras confissões, ao contrário, deve estar aberta a estimá-las e a reconhecer nelas o que falta na sua própria confissão. Esse pequeno diálogo apresenta o potencial ético de reconhecimento mútuo entre religiões diferentes.
Quatro anos depois da entrevista com Küng, em uma conversa com monges cristãos, durante uma visita à comunidade ecumênica de Taizé, interior da França, Ricoeur fala do homem capaz, o ser humano possível, que ecoa suas reflexões antropológicas anteriores e revela, enfim, o objetivo da religião: “[…] aquilo que de alguma forma tenho necessidade de verificar, é que por muito radical que seja o mal, não é tão profundo como a bondade. E se a religião, as religiões, têm algum sentido, é o de libertar o fundo de bondade dos homens, de ir procurá-lo aí onde ele está completamente escondido” (Ricoeur, 2005, grifo nosso).
Portanto, a religião destina-se – ou deveria destinar-se – a libertar a capacidade oculta de bondade que existe no ser humano. Não é à toa que figuras exemplares como Mahatma Gandhi (1869-1948), em favor do direito de independência do povo indiano, e Martin Luther King Jr. (1929-1968), em favor dos direitos civis dos negros estadunidenses, fizeram de sua fé um ato libertador contra a violência da opressão nacionalista e da injustiça racial. Nesse sentido, quando a religião alcança seu propósito, ela atinge seu término. Esse é seu fim.
[Exposição apresentada no painel Ricoeur e a Religião, da Jornada Ricoeur UFMS, realizada no dia 25 de junho de 2024, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, cidade de Campo Grande]
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
Referências
RICOEUR, Paul. A crítica e a convicção. Tradução: António Hall. Lisboa: Edições 70, 2009.
RICOEUR, Paul. Libertar o fundo de bondade. Taizé, 21 de maio de 2005. Disponível em: https://www.taize.fr/pt_article1719.html. Acesso em: 26 abr. 2024.
RICOEUR, Paul. O mal: um desafio à Filosofia e à Teologia. Tradução: Maria da Piedade de Almeida. São Paulo: Papirus, 1988.
SALLES, S. de S.; RICOEUR, P. Religião e Violência Simbólica de Paul Ricoeur. Synesis, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 197–209, 2020. Disponível em: https://seer.ucp.br/seer/index.php/synesis/article/view/2045. Acesso em: 7 jun. 2024.
UC. Universidade de Coimbra. IEF – Instituto de Estudos Filosóficos. Textos traduzidos de Paul Ricoeur. Diálogo entre Hans Küng e Paul Ricoeur em torno do Manifesto para uma ética planetária de Hans Küng, p. 1-12, 1996. Disponível em: https://www.uc.pt/fluc/uidief/textos_traduzidos_paul_ricoeur. Acesso em 11 ago. 2024.
[1] Professor do Curso de Filosofia e dos Cursos de Pós-graduação em Filosofia e Psicologia da UFMS. E-mail: weiny.freitas@ufms.br
[2] Essa entrevista também pode ser acessada no Youtube. Entrevista de Paul Ricoeur a Hans Küng. Disponível em: https://youtu.be/s2IyuAZZOHQ?si=EOwZdjEssbXZM9sY. Acesso em: 11 ago. 2024.
O artigo é o 12° da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros artigos publicados:
- Religiões evangélicas, controle social e educação no cárcere , de Karolayne Hanario Rodrigues e Pedro H. C. Silva.
- Meandros da antropologia brasileira, de Glícia Aparecida Gomes Souza e Priscila Lini.
- Sobre Paul Ricoeur e música , de Caio Cezar Braga Bressan e Wiliam Teixeira.
- “O Planeta dos Macacos”: uma reflexão foucaultiana sobre poder e sociedade , de Gabriel Filipe Rosa Alves e Jeferson Camargo Taborda.
- A extinção da verdade: inteligência artificial e a morte do real , de Kauê Barbosa de Oliveira Lopes e Weiny César Freitas Pinto.
- Notas sobre a psicanálise: quais são o potencial e os possíveis impactos de uma análise no sujeito?, de Khadija de Oliveira Moreira e Caroline S. dos Santos Guedes.
- Sísifo escolheu a pedra, de Orivaldo Gonçalves de Mendonça Junior e Antônio Carlos do Nascimento Osório.
- O medo da história, de Igor Vitorino da Silva e Ricardo Oliveira da Silva.
- Dialética como tensão irresolúvel: reafirmando Heráclito, de Rafael Vieira Régis Damasceno e Rafael Lopes Batista.
- Um disfarce para a violência?, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Flávio Amorim da Rocha.
- Irmãos e rivais: o “duplo” do herói, segundo Otto Rank , de Ana Tércia Rosa Alves e Natasha Garcia Coelho.




