[1]
Noiva do inverno
I
Vem.
A espera é eterna,
te espera. Vem.
Água, os passos dos olhos.
Nuvens
nunca passam. Empoçam.
Vem…
Chamam os olhos de cera
e o sol das noites na face
e as árvores torcidas
e o odor dos entardeceres
e as pétalas de tudo
tombadas nas pálpebras.
Mas, vem.
O mar já não atrapalha
teus pés.
II
A presença é pensamento de palha.
Depois, o vento.
Cingem-se girassóis
aqui
onde é longe e cinzas.
Um ar arterial
sopra olhar.
Por dentro foi tempestade.
Poça de sangue.
Um ar de vendaval
bateu na porta
sombras úmidas.
O coração emperrou.
III
Num cenário
diário
a cena única: Viver…?
Vem
entre gerânio de gelo…
Teu véu, o Tâmisa.
O sorriso dissolvendo
a negra sombra da neve.
e o
gesto
a erguer o rosto dos girassóis mortos.
Vem… Vem………….
Noiva do inverno.
O coração é o Cupido
e as
escadarias.
Caderno (1999)
***
[2]
Cena
Uma crosta de claro.
Sol baixo na poça. A rasa
cor do crepúsculo dura –
invólucro de tudo.
Na brasa da água acesa,
a mosca – som e asas –
por manter-se viva vibra
na luta do ser com a brisa.
Mãos, olhos, boca no silêncio
que crepita a existência pouca…
decrépitos instrumentos da urgência.
Ela encerra o nada.
Zunido azul fincado na água.
Desenhos de sol (2002)
***
[3]
Metonímia
Os dentes ao espelho,
icebergs cujo dentro é dor.
Pontas do branco contra
a sombra que avança
desde a garganta.
Mãos, rugas de água,
papel de carne embrulhada
como rascunho do gesto
rabiscado.
Músculos. Veias. Nervos.
Formas de dedos
entre grades gotejantes…
notícias da busca.
O chuveiro, pilar de chuva
cuja forma do corpo
– estatuária –
presa ainda na coluna.
Águas de Claudel (2011)
***
[4]
Estrada
Um elefante caminha
imenso de sono.
Seus olhos caídos,
marfim antigo.
A tromba bamba,
um lírio vencido.
Os pés – falsos cedros –
a potência do desequilíbrio.
Elefante sem idade,
frágil sombra
aos vidros da cidade…
Os passos pisam
instantes nômades;
o homem, no vidro refletido,
a forma do mistério,
no encalço do dia,
do claro cemitério.
Plaquetes (2012)
***
[5]
Instinto de preservação
Imponderável, o luto.
Dura o ano
um só minuto.
Surdos às súplicas,
os ouvidos,
antes veludo.
As casas, pouco a pouco,
desculpam-se:
“Dizer é nulo”.
Não é do humano
seguir junto
ao que se aprofunda
sem fundo.
O verbo ser (2024)
Edmar Guimarães nasceu em Goiânia. É formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Salgado de Oliveira (Universo). Tem várias premiações, entre as quais, Prêmio Novos Valores da Fundação Jaime Câmara; Bolsa de Publicação Cora Coralina; Prêmio Colemar Natal e Silva e da Coleção Vertentes (Cegraf–UFG); Menção Honrosa no Concurso Jorge de Lima da Academia Carioca de Letras. Participou de antologias nacionais e internacionais. Tem poemas publicados na França e em Portugal. Atuou, temporariamente, como professor, no Colégio Delta, analisando obras literárias. Foi funcionário público por mais de 30 anos. Escreveu os seguintes livros: Caderno (2000), Desenho de sol (2002), Cápsulas dos dias (2009), Águas de Claudel (2011), Plaquetes (2012) e O verbo ser (2024) Atualmente, dedica-se exclusivamente à poesia.





