[Coautor: William Teixeira[1]]
Ler Paul Ricoeur à luz da música é percorrer, com ouvidos atentos, um caminho onde o pensamento hermenêutico se entrelaça à prática interpretativa. O gesto de músicos – instrumentistas e cantores – ao lidar com partituras de outras épocas, composições de outros sujeitos, ecoa as inquietações que Ricoeur formula ao longo de sua obra: o que é interpretar? O que nos autoriza a atribuir sentido a um texto que não escrevemos? E como essa atribuição se sustenta?
Se tais questões encontram formulações consolidadas na história e na filosofia, no âmbito da música elas permanecem desafiadoras, pois a interpretação não é apenas um exercício intelectual – ela se realiza em ato, em som, em corpo. O texto musical não se esgota em sua notação: sua existência depende de quem o performa, de quem o escuta, de quando e onde isso acontece. Aqui, lembrar Umberto Eco é oportuno: “dizer que um texto potencialmente não tem fim não significa que todo ato de interpretação possa ter um final feliz” (Eco, 2018, p. 28).
Ao longo do século XIX, a música ingressou na universidade sob a insígnia da ciência – Musikwissenschaft, a “ciência da música”. Esse modelo, herdado das tradições positivistas, moldou o ensino universitário de música, reservando à universidade o saber crítico e delegando aos conservatórios o saber prático. No Brasil, de modo peculiar, a universidade passou a concentrar ambas as dimensões – mas a tensão entre prática e teoria permanece.
É nesse contexto que o pensamento de Paul Ricoeur adquire especial relevância para músicos interessados não apenas em tocar, mas em compreender o que é tocar. Sua hermenêutica oferece um referencial para pensar a performance não como mera execução, mas como ato interpretativo pleno, em que o sujeito se articula com a obra e com o mundo.
Tomemos como exemplo a obra Tempo e narrativa. O título original em francês, Temps et récit, permite uma leitura mais próxima de “Tempo e narração”, sublinhando o ato de narrar – ou, poderíamos dizer, de performar a narrativa. Ao distinguir entre o tempo contado e o tempo do contar, Ricoeur abre espaço para pensar a música como acontecimento, como temporalidade vivida no instante da execução. A performance musical, nesse horizonte, deixa de ser reprodutora e torna-se criadora de sentido.
Ricoeur também fala diretamente da música em sua Teoria da interpretação, obra marcada pela pluralidade epistemológica. Nele, o filósofo transita entre a filosofia analítica, a fenomenologia e o pensamento francês contemporâneo, reunindo diferentes tradições em um mesmo diálogo. Ao tratar da metáfora e do símbolo, recorre à música como exemplo: como a poesia, ela revela uma coextensão entre dimensão simbólica e disposição afetiva. A música, nesse sentido, não apenas diz algo – ela nos afeta, nos move, nos transforma.
Nas entrevistas que integram A crítica e a convicção, Ricoeur retoma sua relação com a arte contemporânea, revelando um gosto marcadamente modernista. Aprecia Schoenberg, Berg, Webern – nomes associados à escola de Viena e ao dodecafonismo expressionista. Em outro diálogo, intitulado “Arte, linguagem e hermenêutica estética”, menciona Olivier Messiaen e suas reflexões sobre o tempo musical inspiradas em Henri Bergson, aproximando novamente música e filosofia pela via da experiência temporal.
Essa sensibilidade ao som se desdobra também em O voluntário e o involuntário, em que o autor compara o “apetite por música” à fome – necessidades inscritas no corpo, experiências que antecedem a razão. Para Ricoeur, a escuta musical e o fazer musical pertencem à ordem da existência. O medo do músico, por exemplo, não é apenas psicológico: ele se manifesta no corpo, ressoa na carne, torna-se parte da performance.
Se Ricoeur se apoiou na música para formular sua teoria da interpretação, o caminho inverso também começa a ser trilhado. Na musicologia contemporânea, encontramos tentativas de ler a música a partir das teorias do filósofo. Destacamos duas contribuições: o artigo de Márta Grabócz, publicado na Indiana Theory Review em 1999, e a tese de John Gavalchin (2000), defendida na Universidade de Nova York.
Grabócz propõe um paralelo entre a tríplice mimese ricoeuriana e as formas de construção narrativa na música do século XX. Já Gavalchin formula um modelo conceitual para pensar a temporalidade musical com base na fenomenologia de Ricoeur. Em ambos os casos, a música deixa de ser mero objeto sonoro e se revela como campo de experiência, memória, identidade.
Considerar Paul Ricoeur nas pesquisas em música é, portanto, um gesto de escuta: escuta do outro, do texto, do tempo, do corpo. É reconhecer que, mesmo sem dizer uma palavra, a música significa algo – e que esse significado se faz ao ser interpretado.
(Exposição apresentada no Painel Ricœur e a Arte: música e literatura, da Jornada Ricoeur UFMS, realizada no dia 25 de junho de 2024, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, cidade de Campo Grande)
Referências
ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. Trad. Monica Stahel. 4. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018.
GAVALCHIN, John. Temporality in music: a conceptual model based on the phenomenology of Paul Ricoeur. (Thesis). School of Education, New York University. 2000.
GRABÓCZ, Márta. Paul Ricoeur’s theories of narrative and their relevance for musical narrative. Indiana Theory Review, v. 20, n. 2, p. 19-39, 1999.
RICOEUR, Paul. A crítica e a convicção. Trad. António Hall. Lisboa: Edições 70, 2009.
RICOEUR, Paul. Arte, linguagem e hermenêutica estética. (s.d.). Dísponivel em: http:// www.uc.pt/fluc/uidief/textos_ricoeur/arte_linguagem_ hermeneutica_estetica. Acesso em: 25 jul 2024. (Na versão original, Arts, language et herméneutique esthétique, entrevista realizada por Jean-Marie Brohm e Magali Uhl, publicada na revista Philagora, 1996).
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa 2: a intriga e a narrativa histórica. Trad. Claudia Berliner. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2020.
RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação: O discurso e o excesso de significação. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2019.
RICOEUR, Paul. Philosophie de la volonté. 1. Le volontaire et l’involontaire. Paris: Aubier, 1988.
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
[1] Professor adjunto no curso de Música da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) desde 2016. É bacharel em Música com habilitação em violoncelo pela Unesp (2012) e completou seus estudos de pós-graduação sob a orientação do compositor Silvio Ferraz, sendo bolsista Fapesp. Obteve os títulos de mestre em Música pela Unicamp (2014) e doutor em Música pela USP (2017). E-mail: william.teixeira@ufms.br
O artigo é o terceiro da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira o primeiro texto publicado desta edição:
- Religiões evangélicas, controle social e educação no cárcere , de Karolayne Hanario Rodrigues e Pedro H. C. Silva.
- Meandros da antropologia brasileira, de Glícia Aparecida Gomes Souza e Priscila Lini.




