[Coautor: Weiny César Freitas Pinto[1]]
Atualmente, é comum abrir as redes sociais e se deparar com vídeos, imagens e postagens cuja veracidade não conseguimos determinar. De imagens geradas por inteligência artificial (IA), como a do falecido papa Francisco usando um luxuoso casaco branco no estilo puffer jacket a deepfakes (vídeos de pessoas que nunca disseram certas palavras, fotos de eventos que nunca aconteceram etc.), como a do presidente ucraniano Zelensky se rendendo à nação russa, a IA não para de surpreender com sua habilidade de criar conteúdos cada vez mais convincentes. Assim, a fronteira entre o real e o fabricado se torna turva e a confiança nas informações digitais, cada vez mais instável. Estamos imersos em um ambiente onde o falso não apenas imita o real, ele o substitui. Isso gera uma crise de referência: o que ainda pode ser considerado verdadeiro? Para compreender essa crise, vale recorrer ao filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007), que antecipou nosso cenário em seu livro Simulacros e simulação (1981). Sua análise nos ajuda a entender como a IA, ao produzir conteúdo com aparência de verdade, aprofunda esse cenário de incerteza e nos lança em um mundo cada vez mais distante da verdade.
Se há meses as imagens geradas por IA eram facilmente desmascaradas devido a erros grotescos, como humanos com seis ou mais dedos em cada mão, fundos distorcidos, textos incoerentes, objetos que não respeitavam as leis da física e diversas outras aberrações, hoje está se tornando cada vez mais difícil encontrar falhas que deixem claro que o que estamos visualizando é uma imagem gerada por IA e não uma foto tirada por uma pessoa com seu smartphone. Estamos caminhando para uma realidade em que não sabemos mais distinguir o que é real e o que é conteúdo fabricado por IA. Nesse sentido, segundo Baudrillard (1981), vivemos em uma sociedade em que os signos – fotos, notícias, vídeos e textos – já deixaram de se referir a algum tipo de realidade concreta. O que há agora é um simulacro, uma cópia sem original, uma representação que não representa nada do real, mas passa a ser tomada como a própria realidade, mesmo que seja completamente artificial ou inventada.
O modo como as imagens deixam de representar o real até se tornarem simulacros pode ser explicado pelas quatro fases da imagem, propostas por Baudrillard (1981). Na primeira fase, a imagem é o reflexo de uma realidade profunda, como uma fotografia tirada pelo seu smartphone de um evento real e sem edições. Na segunda, ela mascara e deforma essa realidade, como quando usamos filtros do Instagram, retoques e edições. Na terceira fase, a imagem disfarça a ausência de uma realidade, como nos casos dos deepfakes ou das fake news: parece que há algo real por trás, mas é pura encenação e edição. Por fim, na quarta fase, a imagem não tem mais qualquer relação com a realidade: ela é um simulacro puro, uma realidade fabricada que não precisa de qualquer referência ao mundo real para existir ou ser consumida como verdade. Um exemplo da quarta fase da imagem é a influenciadora Lil Miquela. Ela não é uma pessoa real, se trata de uma IA com forma humanoide que interage com seu público através das redes sociais e possui milhões de seguidores; seu “corpo” e sua “vida” são completamente digitais, mas ainda assim ela é tratada como uma figura real com influência no mundo.
Vivemos hoje imersos na quarta fase. As imagens produzidas por IA não mais se originam de fatos. Elas não pretendem representar a realidade, mas apenas parecer convincentes o suficiente para provocar reações reais. A IA generativa viabiliza essa nova fase do simulacro ao permitir a criação de conteúdos que são indistinguíveis da realidade e que são consumidos como reais, mesmo quando se sabe que são fabricados. As ferramentas de geração de imagem, vídeo e voz tornam cada pessoa potencialmente autora de sua própria realidade. Qualquer um pode criar uma imagem de si mesmo em outro país, um vídeo falso em um evento que nunca aconteceu e assim por diante, qualquer “verdade” se torna reproduzível, personalizável e vendável. As deepfakes, por exemplo, não representam simplesmente uma mentira sobre o real, mas um novo real em si. Um vídeo falso de um presidente declarando guerra pode não ter nenhum vínculo com acontecimentos reais, mas seu impacto político e social é absolutamente concreto. A IA, portanto, não apenas reproduz simulacros: ela os acelera, os torna sofisticados e os distribui em uma escala global.
Esse novo estágio tecnológico nos conduz diretamente à hiper-realidade. A hiper-realidade, conceito central em Baudrillard (1981), é o estado em que os simulacros são tão convincentes e onipresentes que passam a ser tomados como mais reais que o próprio real. Ela é a realidade das cópias sem origem, das imagens que não espelham nada além de si mesmas. Nela, não conseguimos mais distinguir entre o que é real e o que é simulação, porque a própria ideia de realidade é dissolvida. A hiper-realidade é o resultado de uma sociedade que consome signos que já não têm mais nenhuma referência do real. Exemplos disso estão por toda parte, perfis de influenciadores digitais que não existem fisicamente e acumulam milhões de seguidores e contratos publicitários; produtos que são anunciados em cenários criados digitalmente por personagens fabricados por IA; jogos, filmes e conteúdos imersivos que criam mundos tão detalhados e envolventes que, para muitos, são mais significativos do que a própria vida cotidiana. A cultura digital alimenta a hiper-realidade ao substituir experiências autênticas por vivências mediadas, estilizadas e filtradas. O que se consome já não é mais real e nem cópia dele, é a imagem da imagem, o reflexo de uma realidade que nunca existiu.
Nesse contexto, ao concordar com Baudrillard, percebemos que a IA não é apenas uma questão de confusão entre o real e o falso, mas representa uma mudança profunda na forma como vivemos o mundo. Quando os simulacros tomam o lugar do real, a verdade se desfaz. Já não lidamos com distorções de fatos e sim com criações sem origem, aceitas como reais por estarem em circulação. A realidade verdadeira é ofuscada por várias versões fabricadas, mais emocionais, mais controladas, mais sedutoras, que se sobrepõem em múltiplas camadas ao real, até que ele se torne irreconhecível. Não vivemos mais o real concreto, mas o que nos é apresentado, uma maquete digital convincente, na qual seguimos nos movendo sem perceber que já não há nada por trás. Como afirma Baudrillard (1981, p. 9): “O real nunca mais terá capacidade de se produzir”.
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
Referências
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Tradutora Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D’água, 1981.
[1] Professor do curso de Filosofia e dos cursos de pós-graduação em Filosofia e Psicologia da UFMS. E-mail: weiny.freitas@ufms.br
O artigo é o quinto da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia.
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