[Coautora: Caroline S. dos Santos Guedes[1]]
A psicanálise é um corpo teórico, uma disciplina científica e também uma técnica que se interessa tanto pelo desenvolvimento e funcionamento psicológico normal quanto patológico. Seu objeto de estudo são os processos mentais inconscientes, compreendendo que eles exercem um grande impacto e significado em nossas vidas e ações. Nesse sentido, trata-se de uma teoria que se baseia no princípio do determinismo psíquico e na ideia de uma continuidade da vida mental, ou seja, nada acontece por acaso: é precedido por outros eventos e é dotado de significado mesmo que inconscientemente (Brenner, 1987).
Apesar de comumente dizermos “a psicanálise”, seria mais assertivo afirmar que se trata de “psicanálises”. Cada teórico, com base em seu entendimento sobre os fenômenos psíquicos, sua história de vida e seus casos clínicos, formulou uma compreensão do inconsciente e de outros fenômenos, construindo conceitos novos ou reconstruindo os que antes foram estabelecidos por Sigmund Freud. Portanto, trata-se de um corpo teórico que se constrói na experiência analítica, apontando para o Real – como registro do inconsciente –, fazendo o uso da linguagem para trabalhar com esse objeto inapreensível objetivamente, que também se articula como linguagem: o inconsciente (Leitão, Mendes, 2018).
Em consequência disso, para descrever a importância e apresentar possíveis impactos de uma análise no sujeito, o presente ensaio se apoia na teoria psicanalítica freudiana e lacaniana. O objetivo é fornecer uma perspectiva sobre o sujeito que é atravessado pela análise, na medida em que se atravessa nela, encontrando a possibilidade de compreender seu modo de lidar com o outro, com as adversidades da vida – como a frustração e a gratificação –, com o desejo e com o objeto perdido: aquele que é causa do desejo, sinal da falta, e que mobiliza a tentativa de reeditar uma experiência em que tal objeto tenha existido, ainda que apenas de forma fantasmática (Darriba, 2005).
Perante o exposto, se compreendermos a psicanálise como um método que nos ensina a viver o sofrimento inerente à experiência humana com um pouco mais de dignidade ou, ainda, como um método que nos leva ao encontro com o inexorável fato de que somos seres faltantes que se relacionam com essa falta, mesmo que denegando, negando ou recalcando, como definir uma análise? É possível dizer que se trata de um evento no tempo-espaço que possibilita ao sujeito entrar em contato com formações substitutivas do inconsciente próprias de sua história. Essas formações seriam evocadas pela regra fundamental da psicanálise conhecida como associação livre, que consiste em dizer livremente tudo o que se pensa, suspendendo – ou tentando suspender – qualquer juízo ou censura (Jorge, 2005).
Também é possível compreender uma análise como um “espaço” que possibilita o reconhecimento de gozos que nos movimentam, apontando para repetições que nos impossibilitam de alcançar um crescimento satisfatório porque se trata de atuações de elementos reprimidos, uma recordação por meio da atuação. Nesse sentido, a análise não constitui um instrumento para regular o homem na sociedade contemporânea, mas um instrumento que nos possibilita acesso ao que há de mais humano em nós e, consequentemente, apresenta formas de como lidar com a nossa própria humanidade que ora é acessível e ora se encontra nos subterfúgios do ser.
É em uma análise que situações anteriores inacabadas e não atendidas se atualizam na relação entre analisando e analista, assim como em outras situações cotidianas – o que é denominado na teoria psicanalítica como transferência (Laplanche; Pontalis, 1991). De acordo com Freud (1912), a transferência não seria um produto da análise, mas um fenômeno natural que acontece decorrente da junção das experiências infantis e da “disposição inata” do sujeito. Nessa perspectiva, qual seria o papel da análise? Segundo Freud (1912), seria de trabalhar essa transferência, que em muitos momentos surge como uma resistência ao tratamento após percorrermos o caminho de um complexo, de um investimento psíquico que se desviou da consciência, e oportunizar a sua volta para a realidade do paciente.
Seria nessa dialética que o inconsciente estruturado como linguagem é acessado e pontos desconectados da narrativa pessoal são reencontrados, revividos, reconectados ou não. Vale enfatizar isto: a possibilidade do não saber, do não dizer, do indizível. A análise também possibilita o (des)encontro com o real, com aquilo que é inominável.
Dessa forma, a análise é uma experiência que possibilita ao sujeito viver a experiência do indizível e tocar no fato de que algumas coisas são intocáveis, mas que constantemente nos atravessam e nos direcionam. Fazer uma análise, ou melhor dizendo, viver uma análise implica reconhecer a própria história e a narrativa que se conseguiu processar para si.
Após a superação da técnica de hipnose, Freud relata (1914) que a técnica psicanalítica já não se trata de recordar e vivenciar uma catarse das emoções experienciadas nos eventos vividos e que foram de alguma forma recalcados, mas de permitir que o analisando fale e trabalhe com os conteúdos que emergem em sua fala através da interpretação e, por consequência, expor as resistências aos pacientes e torná-las conscientes.
Nessa altura, não se trata de curar, de psicopatologizar enquadrando o indivíduo em alguma estrutura clínica ou justificar ações presentes. Trata-se de dar lugar ao sujeito para encarar a própria história, os fantasmas que nos assombram, as gratificações que excederam, as faltas que foram insuportáveis e o desejo. Viver uma análise é a oportunidade de instrumentalizar o próprio corpo, navegar no sentido pelo próprio sentido, no não sentido e no que não se sabia que sentia. Diante disso, como responder qual é o potencial e os possíveis impactos de uma análise no sujeito? Os potenciais são possíveis de verificar pela própria prática e os impactos podemos dizer que dependem do que cada sujeito consegue alcançar, se responsabilizar e operar a partir do que foi acessado.
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
Referências
BRENNER, Charles. Noções básicas de psicanálise: introdução à psicologia psicanalítica. 4. ed. Rio de Janeiro: Imago; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1987.
DARRIBA, Vinicius. A falta conceituada por Lacan: da coisa ao objeto a. Ágora, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 63–76, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1516-14982005000100005. Acesso em: 5 junho 2025.
FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (“O caso Schreber”): artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise: De Freud a Lacan. Volume 1. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LAPLANCHE E PONTALIS. [1970]. Vocabulário da Psicanálise. Martins Fontes, São Paulo, 2014.
LEITÃO, Iagor Brum; MENDES, Flávio Martins de Souza. De que se trata ser freudiano pela psicanálise lacaniana? Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise em Freud e em Lacan. Estilos da Clínica, São Paulo, Brasil, v. 23, n. 2, p. 381–405, 2018. DOI: 10.11606/issn.1981-1624.v23i2p381-405. Disponível em:https://www.revistas.usp.br/estic/article/view/131901. Acesso em: 2 maio. 2025.
[1] Psicóloga. Mestranda em Psicologia pela UFMS. E-mail: carolineguedes.psic@gmail.com
O artigo é o sexto da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia.
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