[Coautor: Antônio Carlos do Nascimento Osório[1]]
Entre etiquetas, códigos, práticas sociais, sujeições.
Após cada grande desfile, ainda me pergunto quão singulares são certas tendências que nunca vejo nas ruas, em casa ou nas festas – existem ali, parecem desfilar sozinhas, intocáveis ao nosso cotidiano. No shopping, vitrines abarrotadas de descontos anunciam trocas de coleção; seguimos comprando, alimentando a economia do saldão, até que aquele conjunto amado retorne no próximo giro do vaivém das modas. Saímos das passarelas, mas falamos de moda: o homem pós-moderno, cuja principal tendência é a produtividade. Sua performance incessante, aplaudida por uma sociedade que expõe “sucesso” na vitrine, impõe o imperativo de produzir; quem não produz está fora de moda. Nesse ritmo floresce o excesso de positividade: estímulos, informações e metas de autossuperação se penduram nele como códigos de barras, pesados mesmo para o look fitness, sem lhe dar tempo de respirar, de perguntar quem é ou por que “veste a camisa” que esperam dele. Sem perceber, adoece.
1. O CAMINHO…
Michel Foucault (1926-1984) demonstrou que, quando punir corpos deixou de ser lucrativo, nasceu a sociedade disciplinar: hospícios, prisões, quartéis e, sobretudo, escolas passaram a moldar corpos dóceis e mentes domesticadas (Foucault, 2014), garantindo produtividade e neutralizando o conflito político. Penalizar ideias nos corpos já não rendia economicamente: mais punições significavam menos braços nas máquinas, por isso disciplinar passou a ser a estratégia preferida do Estado.
Dessa linha de montagem emerge o trabalhador exemplar, que lembra Sísifo, o infeliz gerente de si da mitologia grega. Condenado a rolar eternamente sua rocha montanha acima para vê-la despencar, ele encarna o labor repetitivo e sem sentido. Camus vê aí uma metáfora da condição humana: a liberdade brota no instante em que se aceita o absurdo e, consciente, continua (Camus, 2022).
Hoje repetimos esse roteiro com verniz corporativo. “Resiliência” – termo físico que só significa retorno ao estado original – foi sequestrada pela indústria da motivação, que vende superação permanente. Byung-Chul Han chama esse panorama de sociedade de desempenho: o antigo disciplinado tornou-se empreendedor de si; sem ordens externas, ele mesmo se vigia, cobra e pune. Somos Sísifos digitais, empurrando pedras de e-mails, metas, planilhas e deadlines. Alguns ostentam crachás das “100 melhores empresas para trabalhar”, outros abraçam o MEI e se proclamam CEOs de si, mas todos permanecem presos à lógica que exige produtividade infinita. A rocha não desapareceu, apenas ganhou wi-fi. Enquanto isso, coaches colecionam seguidores, prometendo carregar pedras maiores em menos tempo e celebrando o burnout como medalha de honra. Basta uma falha para que o indivíduo seja descartado, revelando que não há heróis, apenas engrenagens lustrosas.
Vivemos numa engrenagem que se autocelebra em TED Talks e feeds reluzentes, mas anseia silenciosamente por um breve fôlego. Mesmo assim, a cada segunda-feira tornamos a subir, certos de que desta vez alcançaremos o cume, ignorando que o contrato prevê outro reinício.
2. A PEDRA…
Há um instante de lucidez em que se cogita “pedir a conta”, mas, na segunda-feira, um Zeus interno assegura que “damos conta” e o ciclo recomeça. Já não importa chegar ao topo; importa manter-se em cena com a positividade compulsória de quem não pode falhar. Quando a pedra despenca, arrastando paciência e sanidade, voltamos à base da montanha e reafirmamos que tudo é escolha nossa: filhos da sociedade do desempenho, convencidos – como Sísifo – de que desistir não cabe no currículo. Nesse palco, identidade vale tanto quanto roupa.
O sujeito contemporâneo, exigido a exibir “propósito” num mundo que dissolve certezas, apresenta-se não apenas como indivíduo, mas como diagnóstico que o torne legível; os rótulos psicopatológicos viram certificados de pertença. Escudo e jaula ao mesmo tempo: assumir o burnout protege do julgamento e prende na síndrome. O habitante da sociedade de desempenho é agressor e vítima de si (Han, 2015); enquanto a disciplina fabricava delinquentes, o excesso de positividade produz depressivos e fracassados. Bauman chama essa era de modernidade líquida: velhas promessas de estabilidade evaporaram, e cada um se agarra a marcas e perfis intercambiáveis. Transformamo-nos em projetos infinitos de perfeição; fracassar é veto, descanso, falha de sistema.
E a pedra? Não foi imposta pelos deuses; deriva de escolhas que massageiam nosso ego. Cada qual seleciona, consciente ou não, o peso que carrega. Somos agentes – não apenas produtos – de nossa trajetória; terceirizar a culpa pela exaustão soa como desejar que a subida vire descida. Vestir a camisa de uma firma que não lhe serve e adoecer tentando ajustá-la ultrapassa manuais diagnósticos.
Seria leviano culpabilizar os fatores presentes, atuais, visíveis ou latentes.
Um caminho reducionista.
A questão pode não estar no caminho, mas no peso da pedra.
REFERÊNCIAS
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2022
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
[1] Professor Titular dos Programas de Pós-Graduação em Educação e em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Coordenador do Grupo de Estudos e Investigações Acadêmicas nos Referenciais Foucaultianos (GEIARF/CNPq), implantado no ano de 2000. E-mail: antonio.osorio@ufms.br
O artigo é o sétimo da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia.
- Religiões evangélicas, controle social e educação no cárcere , de Karolayne Hanario Rodrigues e Pedro H. C. Silva.
- Meandros da antropologia brasileira, de Glícia Aparecida Gomes Souza e Priscila Lini.
- Sobre Paul Ricoeur e música ,de Caio Cezar Braga Bressan e Wiliam Teixeira.
- “O Planeta dos Macacos”: uma reflexão foucaultiana sobre poder e sociedade , de Gabriel Filipe Rosa Alves e Jeferson Camargo Taborda.
- A extinção da verdade: inteligência artificial e a morte do real , de Kauê Barbosa de Oliveira Lopes e Weiny César Freitas Pinto.
- Notas sobre a psicanálise: quais são o potencial e os possíveis impactos de uma análise no sujeito?, de Khadija de Oliveira Moreira e Caroline S. dos Santos Guedes.




