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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 26 de julho de 2018

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
26/07/2018 em Florações

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Cinco poemas de Waly Salomão

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Vapor barato

Oh, sim

eu estou tão cansado

mas não pra dizer

que não acredito mais em você

com minhas calças vermelhas

meu casaco de general

cheio de anéis

vou

        descendo

                       por todas as ruas

e vou tomar aquele velho navio

eu não preciso de muito dinheiro

graças a Deus

e não me importa

Oh minha honey baby

baby honey baby

Oh, sim

eu estou tão cansado

mas não pra dizer

que estou indo embora

talvez eu volte

um dia eu volto

quem sabe?

mas eu quero esquecê-la

eu preciso

Oh minha grande

Oh minha pequena

Oh minha grande obsessão

Oh minha honey baby

honey baby

                                              Musicado por Jards Macalé

̻ ̻ ̻

 

[2]

Minha alegria

minha alegria permanece eternidade soterrada

e só sobe para a superfície

através dos tubos alquímicos

e não da causalidade natural.

ela é filha bastarda do desvio e da desgraça,

minha alegria:

um diamante gerado pela combustão,

como rescaldo final de incêndio.

                                           1995

̻ ̻ ̻

 

[3]

Orapronobis

(Tira-teima da cidadezinha de Tiradentes)

Café coado.

Cafungo minha dose diária de MURILO e DRUMMOND.

Lápis de ponta fina.

Lá detrás daquela serra

Estamparam um desenho de TARSILA na paisagem.

Menino que pega ovo no ninho de seriema.

Pessoas sentadas nos bancos de calcário

Dão a vida por um dedo de prosa.

Cada vereador deposita na mesa da câmara

A grosa de pássaros-pretos que conseguiu matar

Árdua labuta pra hoje em dia

Pois quase já não há

Pássaros-pretos no lugar.

De tarde gritaria das maritacas

Encobre o piano arpejando o Noturno de CHOPIN.

Bêbado escornado no banco da praça.

Orlando Curió cisma um rabo de sereia do mar debuxado

                                                             no lombo do seu cavalo.

A meia-lua

E a estrela preta

De oito pontas

Do teto da igreja

Do Rosário dos Pretos.

Que luz desponta

Da meia-lua

E que centelha

Da estrela preta de oito pontas

Do teto

Da igreja do Rosário dos Pretos?

Pra quem aponta

A luz da meia-lua

E pra quem cintila

Preta de oito pontas

A estrela desenhada no teto

Da igreja do Rosário dos Pretos?

̻ ̻ ̻

 

[4]

Arte anti-hipnótica

Espia a flor da aurora que já vem raiando!

Mal a barra do dia rompia

saía pra rua

a caçar trabalho.

Lavrador desempregado

Morador de casebre de pau a pique

3 cômodos

em Araçatuba

cumpre pena de prisão domiciliar

por furtos de luz

do programa de energia rural

para a população de baixa renda.

4 lâmpadas

sendo que duas queimadas

e uma geladeira imprestável.

Sem dinheiro para pagar a conta

teve o marcador de quilowatts arrancado.

Um compadre compadecido armou o “gato”.

70 anos incompletos.

Não compareceu ao fórum

pois só possuía chinelo

despossuía sapato e roupa decente.

 

Aqui firma e dá fé um Bertold Brecht de arrabalde:

o sumo do real extraído da notícia de jornal:

                                                                                a arte ilusória

                                                                                            idílica

                                                                                            hipnótica

                                                                                            do fait divers.

̻ ̻ ̻

 

[5]

Tácito

Seguia o ano seu curso

quando doze cidades célebres da Ásia Menor

ficaram de todo arrasadas por um terremoto noturno,

tanto mais letal quanto mais chã a esperança.

Nem mesmo de bom proveito serviu o refúgio

dos campos,

a que em tais casos se costuma recorrer:

porque as bocarras da terra engoliam seus miseráveis habitantes.

Narra-se que as montanhas imensas se esparramaram

em vastas planícies;

que as planícies vastas se converteram

em montanhas imensas;

que altas labaredas de fogo sapecavam a periferia

e o centro dos escombros

entre o espesso betume e a lava e o súlfur que arde.

Nem o de cem olhos, Argos nenhum,

Discerneria crepúsculo, noite, aurora, manhã, tarde.

Perfil

Waly Dias Salomão nasceu em Jequié (BA) no dia 3 de setembro de 1943 e morreu no Rio de Janeiro em 5 de maio de 2003, aos 59 anos. Graduou-se em Direito na Universidade Federal da Bahia, onde também estudou Teatro. De 1974 a 1975, fez curso de Inglês na Universidade Columbia, de Nova York. Ocupou cargo público na área de cultura. Esteve associado a vários movimentos culturais nas décadas de 1960 e 1970, entre os quais a Tropicália. Muitos de seus poemas foram musicados por Jards Macalé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, João Bosco etc. No cinema, interpretou o poeta Gregório de Matos, em filme homônimo de Ana Carolina, produzido em 2002. Escreveu os seguintes livros: Me segura qu’eu vou dar um troço (1972), Gigolô de bibelôs (1983), Poemas de armarinho de miudezas (1993), Hélio Oiticica: Qual é o parangolé? (1996), Algaravias: Câmara de ecos (1996), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000), Pescados vivos (2004, póstumo). É considerado um autor original pelo modo como incorpora a tradição na sua poesia. Por ser dinâmica, a sua escrita explora recursos gráficos com inventividade, ao mesmo tempo em que explora um léxico variado, construindo uma sintaxe com característica própria. Os seus poemas, com forte apelo subjetivo, são elaborados segundo a vontade e o desejo, os quais provocam, conforme lembra Francisco Alvim, “a paródia que não é imitativa”. É também considerado um autor de difícil classificação. A sua poesia está marcada pelo trocadilho, pelas ironias, pelas hipérboles e por metáforas desconcertantes.

 

Confira abaixo vídeo com Jards Macalé interpretando a canção Vapor Barato.

 

Tag's: música popular brasileira, poesia, poesia brasileira, Waly Salomão

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