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Imagem: cena do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick
Imagem: cena do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick
Imagem: cena do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

Tadeu Alencar Arrais em Matutações Professor e pesquisador | Publicado em 26 de janeiro de 2020

Tadeu Alencar Arrais
Professor e pesquisador
26/01/2020 em Matutações

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A distopia da carne

E o que ele queria, ainda mais que ser amado,

era pôr abaixo aquele muro de virtude,

nem que fosse apenas por uma vez na vida.

O ato sexual bem realizado era sublevação.

Desejar era pensamento-crime.

George Orwell, 1984, p.86.

 

 

O século XX foi campo fértil para as narrativas distópicas. Nós, de Evgueny Zamiatin, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, estão entre as mais populares. Muitos são os motivos que justificam o sucesso desses livros. Século que assistiu a dois conflitos mundiais. Século da Guerra Fria e da fragmentação das nações. Século que demonstrou a crueldade de figuras como Hitler, Stalin, Pinochet e Kim Jong-un. Século obcecado pelas mais variadas formas de controle social. As narrativas distópicas têm em comum, porque espelham o totalitarismo, a obsessão pelo controle dos corpos e das mentes.

Não há festas, além das programadas pelas instituições repressivas, nas narrativas distópicas. Não há lugar, portanto, para a energia libertadora do carnaval. A festa da carne, assim como sua gramática e sua estética, é subversiva. Corpos suados, anunciando o fim do verão, insinuam-se, fantasiados ou nus, para todos. Exalam calor, ejaculam felicidade. O componente erótico é parte de sua natureza constitutiva e, portanto, democrática. O carnaval, seja na rua ou na Sapucaí, frequentemente, é ácido com os censores e condescendente com os excluídos.

Damares Alves, ministra com poderes quase paranormais, entende pouco da gramática e da estética carnavalesca. A imprensa noticiou que o Governo prepara campanha publicitária para pregar abstinência sexual (Época, 14/01/2019). O momento, na ótica da ministra, não poderia ser mais apropriado. Fingindo acreditar na impureza do sexo,  anuncia o prazer como pecado, transforma a fornicação, também alívio temporário dos fiéis, em vício capital. No ato reprodutivo, apenas papai(azul)-mamãe(rosa). Nada de confetes e muito menos serpentinas. Nenhum tempero que possa deixar a carne impura. A ambição é domar a química dos corpos, impedindo o encontro da testosterona com o estrogênio, ou mesmo, para desespero dos pudorentos de plantão, testosterona com testosterona ou estrogênio com estrogênio.  Aprisionar a física dos corpos, controlando nervos, contrações, dilatações e, por fim, erupções.

A tentativa de disciplinar os corpos, presente em Nós, em Admirável Mundo Novo e em 1984, é recorrente nos discursos da ministra. Déspotas mais cultos,  inteligentes e carismáticos tentaram, em vão, criminalizar o sexo. O sexo, disruptivo, foi considerado uma ameaça para a estabilidade social, justamente porque estimula laços de cumplicidade, unificando, mesmo que momentaneamente, corpos e mentes. Secundário, mesmo para fins reprodutivos, uma vez que o Processo Bokanovsky reproduz pessoas em castas previamente determinadas, o sexo torna-se mecânico, controlado, em Huxley. O perigo da mistura de classes não existe, uma vez que a eugenia é preservada, ensinada nos Centros de Incubação e Condicionamento. Comunidade, Identidade, Estabilidade – eis o lema do Estado Mundial que determina o destino dos homens.

Em Zamiatin, os homens são números e os sentimentos, equações. O direito ao ato sexual é regulado pela chamada Lex Sexualis: “Qualquer número tem o direito sobre qualquer outro número como produto sexual”. O livro Nós inaugura, apesar de não utilizar o termo, o Big Brother. A arquitetura, predominantemente de vidro, permite que cada um veja o outro, exceto, desde que autorizado, no ato sexual. A privacidade não é um projeto admitido pelo Benfeitor. Na mais conhecida das distopias de Orwell, 1984, o sexo não apenas é controlado pelo Grande Irmão, mas também é manipulado. A Liga Juvenil Antisexo advoga o celibato, e a lealdade ao Partido transforma o que restava do sexo em desconfiança. Tornar indecente o instinto sexual é propósito do Partido.

No carnaval, festa pública, não há lugar determinado para Pierrôs, Colombinas e Arlequins. Pausa da opressão,  o carnaval oferece um pouco de utopia para os foliões. Milhares de Damares sairão às ruas dispostas, mesmo que por um curto período, a deixar que o muro da virtude seja, vagarosamente, erodido pela ação intempestiva do prazer, da alegria e, para os que tiverem um pouco de sorte, do sexo. No carnaval, até quarta-feira, estamos autorizados a expor nossa carne da forma que acharmos mais conveniente. Voltaremos, depois disso, para a nossa realidade distópica.

Tag's: 1984, Admirável Mundo Novo, Aldoux Huxley, Carnaval, censura, distopia, Evgueny Zamiatin, George Orwell, Nós, sexo

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