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Foto: Youtube
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 21 de agosto de 2022

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
21/08/2022 em Florações

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Cinco poemas de Angélica Freitas

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

família vende tudo

família vende tudo

um avô com muito uso

um limoeiro

um cachorro cego de um olho

família vende tudo

por bem pouco dinheiro

um sofá de três lugares

três molduras circulares

família vende tudo

um pai engravatado

depois desempregado

e uma mãe cada vez mais gorda

do seu lado

família vende tudo

um número de telefone

tantas vezes cortado

um carrinho de supermercado

família vende tudo

uma empregada batista

uma prima surrealista

uma ascendência italiana & golpista

família vende tudo

trinta carcaças de peru (do natal)

e a fitinha que amarraram no pé do júnior

no hospital

família vende tudo

as crianças se formaram

o pai faliu

deve grana para o banco do brasil

vai ser uma grande desova

a casa era do avô

mas o avô tá com o pé na cova

família vende tudo

então já viu

no fim dá quinhentos contos

pra cada um

o júnior vai reformar a piscina

o pai vai abrir um negócio escuso

e pagar a vila alpina

pro seu pai com muito uso

família vende tudo

preços abaixo do mercado

Rilke shake (2007)

• • •


[2]

casino

você prefere o cru

ao creme:

boca ostra língua

lago lua lugar

paisagem com pinheiros

ao fundo. você sempre

preferiu o cru

ao ecrã, insônia a

barbeiro de sevilha.

paisagem de pinheiros

com abismo

por trás.


você precisa

habitar as elipses

precisa dissecar

o sapo da poesia

– não abole o poço.

salta saltador

o grande salto.

a maresia come

as rodas do carro.

você prefere o cru

nem precisava ter dito.

Rilk shake (2007)

• • •


[3]

na banheira com gertrude stein

gertrude stein tem um bundão chega pra lá gertrude

stein e quando ela chega pra lá faz um barulhão como

se alguém passasse um pano molhado na vidraça

enorme de um edifício público


gertrude stein daqui pra cá é você o paninho de lavar

atrás da orelha é todo seu daqui pra cá sou eu o patinho

de borracha é meu e assim ficamos satisfeitas


mas gertrude stein é cabotina acha graça em soltar pum

debaixo d’água eu hein gertrude stein? não é possível

que alguém goste tanto de fazer bolha


e aí como a banheira é dela ela puxa a rolha e me rouba

a toalha

e sai correndo pelada a bunda enorme descendo a

escada e ganhando as ruas de st.-germain-des-prés

Rilke shake (2007)

• • •


[4]

mulher de vermelho

o que será que ela quer

essa mulher de vermelho

alguma coisa ela quer

pra ter posto esse vestido

não pode ser apenas

uma escolha casual

podia ser um amarelo

verde ou talvez azul

mas ela escolheu vermelho

ela sabe o que ela quer

e ela escolheu vestido

e ela é uma mulher

então com base nesses fatos

eu já posso afirmar

que conheço o seu desejo

caro watson, elementar:

o que ela quer sou euzinho

sou euzinho o que ela quer

só pode ser euzinho

o que mais podia ser

Um útero é do tamanho de um punho (2012)

• • •


[5]

mentiras

o camarão queria aprender a sambar

no fundo do mar


mentira


ele só queria escapar

das redes de pesca


ora, nem pensava

numa coisa dessas

sambar


talvez por isso

acabou frito

petisco no palito


mentira


•


fundomar era um menino

que nasceu na praia


mentira


o nome dele era omar

mas ele nasceu na praia mesmo


é que havia uma enorme

refinaria de petróleo

bloqueando o acesso à água

então não era bem um balneário


mas os cidadãos não se importavam

por causa dos grandes benefícios econômicos

trazidos à cidade


mentira


•


olívia era faixa preta de karatê

aos oito anos de idade


arrã


o.k., mas ela precisava se defender

de umas garotas malvadas

que roubavam o seu lanche

e a sua paz de espírito


olivinha realmente queria

ser faixa preta de karatê

e dar uma lição nessas colegas


“como foi a escola hoje, olívia?”

“ah, tudo bem, mãe”, ela dizia


mas era mentira


•


grubs era um pacote de salgadinho

composto de gorduras hidrogenadas

e milho transgênico

muito nutritivo


tsc tsc


a propaganda mostrava um milharal

e uma família feliz na colheita

mas isso não correspondia à realidade


o milho era arrancado

por uma colheitadeira industrial

mas pelo menos o seu operador

ganhava um belo salário


mentira


grubs era um salgadinho

composto de gordura e milho transgênico

entupido de sal

e só


•


andreia tinha dez anos

uma boneca de porcelana chinesa

e vivia em manhattan


bem, na real eu não conheço nenhuma andreia

que tenha dez anos, uma boneca de porcelana chinesa

e viva em nova york


isso não quer dizer que não exista

uma andreia dona de boneca chinesa em nova york

mas ela pode ter quarenta anos, sei lá

e morar no brooklyn


mas essa andreia

lá do começo

com certeza

é de mentira

Canções de atormentar (2020)

Perfil

Angélica Freitas nasceu em Pelotas (RS) em 8 de abril de 1973. Formada em jornalismo em Porto Alegre, na UFRGS, trabalhou como repórter no Estado de S. Paulo e na revista Informática Hoje. É tradutora e coeditora da revista de poesia Modo de usar & Co. Seus poemas foram publicados  na Espanha, no México, nos Estados Unidos e na França. Em 2013, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom. Escreveu os seguintes livros de poemas: Rilke shake (2007), Um útero é do tamanho de um punho (2012) e Canções de atormentar (2020). Vive em São Paulo, depois de temporadas na Holanda, na Bolívia e na Argentina.

Tag's: Angélica Freitas, literatura, poesia, poesia brasileira

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