• Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter

ERMIRA

  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
  • Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
Imagem: Retrato de Laurence Sterne (Joshua Reynolds, 1760)
Imagem: Retrato de Laurence Sterne (Joshua Reynolds, 1760)
Imagem: Retrato de Laurence Sterne (Joshua Reynolds, 1760)

Rosângela Chaves em Miradas Jornalista e professora | Publicado em 10 de março de 2023

Rosângela Chaves
Jornalista e professora
10/03/2023 em Miradas

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp
← Voltar

Laurence Sterne, o escritor das linhas tortas

Dois séculos antes de James Joyce subverter os padrões da narrativa tradicional, um pároco irlandês chamado Laurence Sterne (1713-1768)  já desconcertava o público europeu com as suas inovações e experimentações. No seu romance mais famoso, A vida e a opinião do cavalheiro Tristam Shandy, Sterne lançou mão de novas técnicas de impressão para, ao longo do texto, usar travessões de diferentes dimensões conforme o realce que pretendia conferir a uma frase ou para marcar uma pausa; inserir uma página em branco para que o leitor desenhasse o retrato de uma personagem da história ou ainda outras duas páginas com fundo inteiramente preto; colocar o prefácio surpreendentemente no meio do romance; empregar sinais gráficos diversos para fazer alusões maliciosas; apresentar um capítulo composto de duas páginas limpas, entre outras extravagâncias.

Em Uma viagem sentimental através da França e da Itália, outro célebre livro do autor, embora de forma menos radical, ele também transgride os cânones literários de sua época e se exercita naquilo que era um verdadeiro mestre: a arte da digressão.

Como bem observou o crítico José Paulo Paes, Sterne parecia ter horror “à linha reta”. Suas histórias raramente têm começo, meio e fim – aliás, mal saem do começo, porque o autor se delicia em frustrar as expectativas dos leitores, saltando de uma situação para outra completamente diversa sem concluir nada. Assim, em Tristam Shandy, ele promete narrar a vida da personagem-título, no entanto, ao cabo de 600 páginas do romance, só conhecemos os primeiros anos da trajetória do herói. Em Uma viagem sentimental através da França e da Itália,  essa malandragem já está estampada no título. A “tal” viagem anunciada se limita à França, pois o relato é interrompido abruptamente no meio de uma frase, e a parte que se passaria em território italiano simplesmente não é contada.

Mas o enredo é o que  menos interessa em um livro de Sterne. Ele só é o ponto de partida para que o autor discorra sobre as grandes questões de seu tempo, como o fez Voltaire na sua famosa novela, Cândido, ou o otimismo. Uma viagem sentimental…, por exemplo, é muito mais um romance de ideias do que o relato de um viajante. Empregando como narrador uma figura secundária de Tristam Shandy, o pastor Yorick, Sterne dedica-se ao debate de temas como a liberdade de pensamento, a natureza humana, a tolerância religiosa etc.

Yorick, diga-se de passagem, é o mesmo nome do falecido bufão real cujo crânio Hamlet segura no emblemático monólogo da personagem na tragédia de Shakespeare.

Essas divagações, no entanto, não imprimem à obra de Sterne um caráter por demais erudito ou até mesmo pedante. Pelo contrário. Sua prosa está muito mais próxima de Cervantes e Rabelais – dois expoentes do romance picaresco – do que de pensadores ingleses, como Locke ou Hobbes. As suas personagens estão sempre envoltas em alguma situação cômica e, no decorrer das narrativas, insinuações picantes, de expresso conteúdo erótico, são frequentes.

Aliás, esse último aspecto da sua obra provocava uma reação contraditória no público: ao mesmo tempo em que surgiam protestos contra Sterne em toda a Inglaterra, condenando o fato de um vigário interiorano ter a ousadia de se exprimir de forma tão despudorada e herética, uma multidão de leitores, por outro lado, consumia vorazmente os seus romances, cujos capítulos eram publicados separadamente, à maneira dos folhetins.

Sempre irreverente, Sterne tinha como um dos alvos favoritos os filósofos, fazendo troça das várias teorias em voga. Uma de suas vítimas foi Locke e a sua tese da associação das ideias detalhada no Ensaio do entendimento humano.

A própria técnica da digressão amplamente empregada por Sterne em Tristam Shandy e em Uma viagem sentimental à França e à Itália é um esforço de colocar em prática, pela via da paródia, é claro, a formulação lockiana segundo a qual a mente humana opera associando ideias aparentemente desconexas. Críticos mais recentes viram nessa estratégia uma antecipação do fluxo de consciência na criação literária.

Apesar das dificuldades que enfrentou como religioso – as desavenças com um tio que ocupava um alto cargo na igreja anglicana atrapalharam sua carreira eclesiástica – e do conteúdo audacioso e polêmico de sua obra, Sterne teve a sorte de experimentar a glória literária ainda em vida. Os seus romances, além do sucesso junto ao público, foram elogiados efusivamente por personalidades da época, como Voltaire e David Hume, cujo livro Uma investigação sobre os princípios da moral influenciou fortemente Sterne na composição de Uma viagem sentimental…, na sua crítica ao racionalismo.

A posteridade também o celebrou: Sterne era um dos escritores preferidos de Machado de Assis, outro que se esmera com maestria na arte da digressão  em Memórias póstumas de Brás Cubas. A sua influência é nítida ainda na obra  do francês Xavier de Maistre, cujo Viagem ao redor do meu quarto também constava entre as leituras prediletas de Machado.

Entre os autores mais modernos, Virginia Woolf foi uma leitora entusiasta do artista, de quem aponta como marca distintiva o forte traço de oralidade da sua literatura. “As frases bruscas, desconexas, são tão rápidas e aparentemente tão fora de controle como as frases que saem dos lábios de um brilhante conversador. A própria pontuação é a da fala, não da escrita, e traz consigo o som e as associações da voz que fala”, escreve a respeito de Sterne em um dos seus ensaios literários.

Subversiva, provocativa  e libertina, a prosa de linhas tortas de Sterne foi e continua sendo um desafio e um deleite para os leitores.

Tag's: iluminismo, Laurence Sterne, literatura, literatura inglesa

  • Rato na gaiola

    por Luís Araujo Pereira em Espirais

  • Do outro lado do rio

    por Rosângela Chaves em Dedo de prosa

  • A sensibilidade autobiográfica de Jheferson Rosa

    por Paulo Manoel Ramos Pereira em Veredas

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

Deixe um comentário (cancelar resposta)

O seu endereço de e-mail não será publicado. Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

ERMIRA
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter