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Foto: Rodrigo Valente/Divulgação
Foto: Rodrigo Valente/Divulgação
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 31 de dezembro de 2023

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
31/12/2023 em Florações

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Cinco poemas de Ana Martins Marques

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Lugar para pensar

Gosto de pensar no escuro

fumando

olhando os polvos no aquário

do restaurante chinês

ou com a cabeça encostada no vidro do ônibus.


Gosto de pensar com as mãos na água

de óculos escuros

na escada rolante

vendo a cidade fugir

pelo espelho retrovisor.


Gosto de tentar adivinhar

o pensamento das pessoas

gosto de pensar que o pensamento

é um inquilino incendiário.


Uma coisa que nunca entendi é por que

em geral se acredita que o poema

não é lugar para pensar.

A vida submarina (2009)

• • •


[2]

Uma caminhada noturna

Os animais existem durante a noite

ou durante o dia

eles têm modos próprios de existir

há um modo cão de existir no dia

um modo águia ou cavalo ou búfalo

e um pássaro está tão à vontade

na noite quanto na floresta

mas nós podemos trocar

a noite pelo dia

e andar sem destino sob as luzes da rua

e a lua alta

e todos os soníferos todos os venenos

todos os banhos quentes e as massagens

e os cremes e os chás não nos darão

uma noite de arminho ou de serpente

há insônias planejadas e noites que se estendem

como uma luva longa

penso em tudo o que existe

e no pouco que sabemos sobre tudo

mas penso sobretudo

em seu sexo

e seu sexo resplandece

sobre o pensamento de tudo

amo em você principalmente o gesto útil

as mãos cheias de sal

seu jeito de dirigir um automóvel austero

sua casa que não é um amontoado de tijolos

sua casa em que as coisas encontram

incandescentes

seus lugares

a mesa e as cadeiras e as cortinas

enquanto os espelhos pensam

a si mesmos

mas eu

desperto tarde demais e afogada na cama

como entre lençóis de água

e quando estou com você é como se estivesse

em uma escada alta

penso que o seu corpo imita a praia luminosa

da sua infância

e penso que nunca poderei conhecer você

quando criança

e queria beber em seus lábios

a sua sede de então

penso

com os prédios à direita

e o mar à esquerda

que um dia o amor terminará

e penso que isso não é triste

para o mar

penso que o mar não escolhe

entre a nau e o naufrágio

como para a primavera é indiferente

o mel ou as abelhas

como as mulheres que foram amadas

em duas línguas

os pássaros enlouquecem em pleno voo

o desejo é imenso e no entanto

penso

também não durará

O livro das semelhanças (2015)

• • •


[3]

Alba

É dia

e daí?

Relógios e amantes

acordam em desacordo.

Por que levantar agora?

A noite não foi cheia de afazeres,

como um dia de escritório?

Não é também labor

uma noite de amor?

Como o corpo desses livros

que lemos no leito

o seu não guardou as marcas

do meu manuseio lento?

Mais vale adiar o dia.

O alarme do celular:

que triste cotovia.

Risque esta palavra (2021)

• • •


[4]

Parte alguma

Não te enganes: viajar é aborrecido.

Num ponto, ao menos, todos os lugares

se parecem: neles já se passou

algo terrível.

As viagens cansam

e são tristes.

Viajando apenas constatamos

a repetição tediosa do que existe.

Pois para onde quer que compremos passagem

levamos a nós mesmos na bagagem.

Viajar é conduzir o corpo

– esse comboio imundo –

a um estéril atrito com o mundo

e depois passar o dia inteiro

usando a língua como quem usa dinheiro.

Nem a página em branco dos desertos

nem as savanas e sua promessa de aventura

substituem uma hora de leitura.

Mesmo as longas praias e as montanhas

mesmo os sítios inflacionados de história

mesmo as pirâmides os oráculos a arte

e o lugar preciso para se ver

do melhor ângulo

o sol se pôr como se põe em toda parte

serão depois riscados da memória.

Mais vale afinal ficar em casa

se é que se tem uma

e enviar-te este postal

de parte alguma.

Risque esta palavra (2021)

• • •


[5]

Silêncio

Língua das coisas


Mas também: língua de se falar

com as coisas

e com as próprias palavras


O nome das coisas

quando não falamos delas


Único modo que têm os mortos

de cantar


O que há entre uma xícara e outra xícara

entre uma pedra e uma rosa

entre Vênus e uma cadeira


O modo como soa

uma palavra

riscada


Toda fala nasce com a cicatriz do silêncio,

que foi quebrado


Não há palavra que não seja marcada pelo silêncio

como camisas que secaram

presas ao varal


Por outro lado, frequentemente o silêncio

vem manchado por uma palavra

como um espelho sujo


A forma mais próxima do silêncio é o círculo:

forma geométrica da espera


O rastro que deixou

o animal que não passou


É este o meu nome

quando não me chamas

Risque esta palavra (2021)

Ana Martins Marques nasceu em 1977, em Belo Horizonte (MG). Com graduação em Letras, escreveu uma dissertação de mestrado sobre João Gilberto Noll e concluiu seu doutorado em literatura comparada na UFMG. Publicou os seguintes livros: A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011, Prêmio Biblioteca Nacional em 2012), O livro das semelhanças  (2015, Prêmio Oceanos em 2016), Duas janelas, com Marcos Ciscar (2016), Como se fosse a casa (uma correspondência), com Eduardo Jorge (2017), O livro dos jardins (2019) e Risque esta palavra (2021). Maria Esther Maciel, professora  da UFMG e crítica literária, em depoimento a Carlos Macedo, considera a autora “uma poeta admirável, com uma dicção inconfundível, que alia elegância, frescor, simplicidade e cuidado com a linguagem para capturar o que se esconde (e se revela) nas dobras da vida cotidiana. Além disso, reinventa, por vias imprevistas, o legado de poetas de diferentes gerações e nacionalidades. Cada poema que escreve é uma surpresa para quem o lê” (O Estado de Minas, 25.06.2021).

 

Tag's: Ana Martins Marques, literatura, literatura brasileira, poesia, poesia brasileira

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