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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 19 de maio de 2024

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
19/05/2024 em Florações

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Cinco poemas de Eucanaã Ferraz

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Sul

Deixo que o táxi me leve. Mais que o lugar,

deixo que o som me leve,


bom de ouvir e dizer: Leblon.

A primeira sílaba se eleva, anel breve,


e desaparece

logo que a outra em onda lenta e dilatada se desabotoa.


A resina translúcida e viscosa

do que nelas é água e sal fica na boca.

Rua do mundo (2004)

• • •


[2]

Index

Um cavalo morto não pode ler poemas.

Um leão morto não pode ler poemas.

Uma árvore morta não pode ler poemas.

O afogado não pode ler poemas.


Morto com 19 anos de idade no dia 19 de abril,

Domingo de Ramos, Gary English, atropelado por um Land Rover

do exército britânico sob o ataque de coquetéis molotov,

não pode ler poemas.


Todos que morreram com 19 anos não podem ler poemas.


Então o avião explodiu no céu da Ucrânia Oriental

e um dos cadáveres atravessou o telhado da casa de Irina Tipunova.

Os mortos no campo de girassóis não podem ler poemas.


Como explicar a poesia a uma baleia morta?

Como explicar a poesia?


O silêncio multiplica-se, incompreensível, no vento.

Mas o selo, inconfundível, não deixa dúvida.

É o silêncio. Como vem de longe, tem fome.


Dois amigos bebiam na cidade de Irbit, nos montes Urais.

O anfitrião insistiu que a verdadeira literatura era a prosa,

enquanto o convidado, um antigo professor, afirmava que era a poesia.

A discussão literária tornou-se rapidamente num conflito

e o amante da poesia matou o oponente a facadas,

disseram os investigadores.


Os desaparecidos, até que ressurjam, mesmo que séculos depois,

até que sejam sepultados estarão impedidos de ler quaisquer poemas.


Os mortos em Ruanda, na China, na Bósnia, no Congo,

no Líbano, no Paquistão, nenhum deles nunca mais

lerá um só poema, é preciso que se diga.


Meu pai não pode ler este poema.

Escuta (2015)

• • •


[3]

A céu aberto

Mesmo os aviões que seguem apressados

para a guerra parecem lentos e nuvens alheias

tremulam flâmulas leões relógios que se rasgam

e se refazem abstratos vagarosos países de papel

moeda plástico cartões de identidade sem rosto

só engano.


Tudo azul perfeitamente azul como se

(era preciso um céu que já não fosse este)

fio finíssimo um destino que nunca se rompesse

trouxesse a paz que imaginamos ontem mas

sobre a terra pisam apressados canhões caravanas

espetáculos mortos em bando batem à porta

dos bancos onde os embaixadores tremulam degolados.

Retratos com erro (2019)

• • •


[4]

Madrigal

Me lembram lobos os seus cabelos

dentro das noites entre meus dedos

por entre as minhas lobos em bando

as suas pernas me lembram lobos

seus olhos negros por onde passam

cantando nuas dentro do escuro

luas em bando caindo inteiras

por onde eu passe caindo inteiras

luas em bando dentro do escuro

cantando nuas por onde passam

seus olhos negros me lembram lobos

as suas pernas lobos em bando

por entre as minhas entre meus dedos

nas noites dentro dos meus cabelos

os seus cabelos me lembram lobos.

Raio (2023)

• • •


[5]

Gesto

Abro as mãos. Nem prudência nem covardia. Livres do medo

já não se guardam defendidas do golpe súbito. Não procuram

o fogo onde apanharam somente ingratidão. Não esperam

um ladrão que as seduzisse quando tornadas calcárias e frias.

Deixo que tudo vá ao chão. É belo ou nem é belo que tudo

se parta. Pense na água que se quebra para sempre quando

derrama de um copo. Abro bem as mãos para que nada.

Trabalho espelhos vícios se despregam das palmas: mãos que

já não saberiam pedir ou chamar ou trair. Cuido para que tudo

se descole. Não fique um fio nem o pó. Os dedos se agitam

distraídos – já não são meus. Pense nos dias que afundam nos

calendários na roupa de ontem que se larga no cesto e arrasta

com ela a pele das catástrofes. As mãos que vês aqui são o que

são: desprendidas de sonhar qualquer destino funcionam agora

cegas e selvagens à beira do início.

Raio (2023)

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro no dia 18 de maio de 1961. É professor e pesquisador de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da UFRJ, atuando na graduação e na pós-graduação. Como poeta, publicou os seguintes livros: Livro primeiro (1990), Martelo (1997), Desassombro (prêmio Alphonsus de Guimaraens, 2002), Rua do mundo (2004), Cinemateca (Prêmio Jabuti, 2004), Sentimental (Prêmio Portugal Telecom de Poesia, 2008), Escuta (2015), Trenitalia (2016), Poesia – 1990-2016 (2016), Eucanaã Ferraz (antologia, 2017), Retratos com erro (2019),  Janelas (plaquete com gravura de Raul Mourão, 2022) e Raio (2023). Escreve também livros voltados para o público infantojuvenil, ensaios e organiza antologias de autores importantes da literatura brasileira e portuguesa. Na linguagem audiovisual, divide coautoria no DVD Consideração do poema (2012) e, também em DVD, dirige e roteiriza Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade: Uma leitura (2014).

Tag's: Eucanaã Ferraz, literatura, literatura brasileira, poesia, poesia brasileira

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