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Foto: cena de Palavras ao Vento (Douglas Sirk, 1956)
Foto: cena de Palavras ao Vento (Douglas Sirk, 1956)
Foto: cena de Palavras ao Vento (Douglas Sirk, 1956)

Roberto Mello em Matutações Psicanalista e jornalista | Publicado em 16 de junho de 2024

Roberto Mello
Psicanalista e jornalista
16/06/2024 em Matutações

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Fica, meu amor

Ela me perguntou – tudo bem? Tudo bem, respondi. E sob o impacto de quem sai do cinema, do Cine Cultura de quantas memórias, onde assisti a Palavras ao vento, com Rock Hudson, Lauren Bacall, Dorothy Malone, Robert Stack. Minha adolescência. Podem dizer que é melodrama, agora nessa vibe de contrapor amor romântico e agamia. Me parece mais uma tragédia, não importa que seja a de um rico playboy prepotente dono do petróleo – e impotente e bêbado e no fundo gay –, é a tragédia nossa de cada dia submetidos que estamos à traição da vida. Pois a vida é que é a traição, segundo Manuel Bandeira.

Posso falar com poucos desse filme. Com raros colegas do júri de seleção de filmes concorrentes ao Festival Internacional de Cinema e Video Ambiental, o glorioso Fica. Saí do cinema, andando pelas ruas vazias de um sábado no Centro de Goiânia. Quase tudo fechado. Ermos e gerais, Bernardo Élis. Andei até o Goiabão, comprei e assei pão de queijo. Um gole de conhaque.  Comprei camisetas no Centro e a senhora: desculpe perguntar, mas qual é a sua idade? 81. 81? E anda sozinho? Respondi graças a Deus, mas acho essa pergunta insolente, claro que só pensei, vai com Deus, vocês também, meu Deus, que descompasso entre mim e mim mesmo e a imagem que outros têm de mim, que ironia, meu caro Kierkegaard, meu caríssimo Severino do Cemitério que sabe muito bem que os benefícios passam, os transtornos ficam, não passa pano e ri pra caramba. Sou parado toda hora por estranhos e nem tão estranhos assim no meio da rua me perguntando qual é o segredo, digo logo para abreviar genética na falta de coisa melhor salve a raça negra mesmo que raça não haja e engato miscigenação, miscigenação, parem com essa ideia de pureza supremacista branca, ó, Senhor! Tudo vira-lata. É só um pouquinho de antropologia para elucidar a coisa. Vira-lata, mas não mico de circo.

Voltando ao Cine Cultura. Me lembro do confinamento nesse espaço mágico do cinema, das intensas viagens de ver e julgar filmes para o Fica durante um mês, o dia todo, só parando pra almoçar e assim mesmo de vez em quando. Às vezes, 800 filmes num só mês. Chegava em casa exausto. O doce cansaço do trabalho criativo. Inesquecível. Tive a honra de ser convidado durante vários anos, até que não me chamaram mais – não me queixo, vez para outros. Aprendi muito, fui bem pago pelo trabalho extenso e intenso, conheci pessoas encantadoras, brasileiros e estrangeiros, apreciei a luz da cidade de Goiás, propícia para o cinema, embora sentisse certo desconforto da parte de seus habitantes – claro, hospitaleiros – mas incomodados com tanta gente tirando seu sossego, perdido desde que a cidade se tornou patrimônio histórico e cultural da humanidade. Arrumar hospedagem e comida pra tantos estranhos, um transtorno.

Sempre que pude, me pronunciei a favor da manutenção do festival, um diferencial importante para a cultura goiana. Para mim, a chance de falar com artistas de outros países, de conversar com Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, a quem propus a filmagem de um roteiro baseado no artigo-reportagem que escrevi em 1980 e publicado no Jornal do Brasil sob o título de Os barões da psicanálise. Poderia dar um thriller psicológico e político. Página infeliz da nossa história, tempos de chumbo quando a ditadura militar invadia o divã. Tempos de Amilcar Lobo, o tenente-médico torturador que pretendia ser analista. Só um Nelson Rodrigues para dar conta do recado desse trágico personagem. A escolha de Cacá se justificava por seu viés político e por conhecer o Rio de Janeiro. Jabor, por conhecer um pouco de psicanálise. Hoje, quem se habilitaria?

 Carioca, nunca cheguei tão perto do poder em minha cidade quanto em Goiás, onde um governador me chamou pelo nome para agradecer nosso trabalho – claro que por mero protocolo e estendido a muita gente. Só em Goiás certas coisa acontecem comigo. Por exemplo, dois netos. E uma nova companheira. A Fazenda Freudiana de Goiânia. A revista de psicanálise Engenho, e suas duas únicas edições fora do mercado. Ter ouvido a voz vigorosa de Cora Coralina dizendo seus versos dentro de sua casa. Poeta que leu Freud e – quem sabe – talvez tenha confirmado o objeto pequeno a de Lacan pelo seu vintém de cobre. Eu, um cara analógico, escrevendo para Ermira, revista digital. Até virei youtuber. Mas devo ter despertado a ira fria de muita gente por certas posições assumidas.  Por exemplo, quando num texto defendi que o cinema goiano já contava com certa maioridade a ponto de poder dispensar o tratamento paternalista do governo e da crítica especializada, o que muito lhe diminuía. Foi numa carta que escrevi um tanto jocosamente para autoridades da Secretaria de Cultura. Quem mandou. Palavras ao vento. Ao vento bravo.

Palavras ao vento, dirigido por Douglas Sirk que fez uma série de filmes com Rock Hudson, seu ator preferido, mostra nas entrelinhas, no delírio alcoólico e febril do playboy vivido por Robert Stack, uma clara alusão à homossexualidade reprimida entre os personagens de Stack e Hudson, mais do que melhores amigos. Rock Hudson era o herói da garotada nos anos 50. Belo, forte e viril, encarnava o ideal de masculinidade, o ser homem na época. Imagine o susto quando descobrimos que ele era gay. Hollywood mais uma vez nos enganara com seu código de censura e hipocrisia, além da violência de impor um cala-boca ao próprio Rock Hudson. Os tempos mudaram. Permanece a questão do título do filme em inglês – Written on the wind. O que acontece com o que foi escrito no vento?

Um antigo provérbio latino reza: Verba volant, scripta manent. Palavras voam, escritos permanecem. Lacan teve o topete de contestar: palavras ficam, e até se fixam nos sintomas do falante, sedutoras, hipnóticas, fetichizadoras, enquanto os escritos voam ainda que não se saiba onde vão parar, chegando ou não uma carta ao seu destino. Já não se escrevem cartas. Tornaram-se relíquias. Para Lacan,  elas sempre chegam ao seu destino. Dele discordava Derrida. Que importa. Os destinatários são outros. Sinal dos tempos. Ferreira Gullar achava que a poesia nasce quando a morena vai embora. Vai, morena. Vai viver a tua liberdade, ainda que ela confine com a solidão e a loucura. É o teu tempo. Quem fica é o meu amor.

Tag's: cinema, Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental da Cidade de Goiás, Fica, Palavras ao vento, Rock Hudson

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