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Imagem: McSorley's Bar (John Sloan, 1912)
Imagem: McSorley's Bar (John Sloan, 1912)
Imagem: McSorley's Bar (John Sloan, 1912)

Luís Araujo Pereira em Espirais Professor e escritor | Publicado em 23 de fevereiro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
23/02/2025 em Espirais

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O cara da boina

No fundo do café, a jukebox rolava uma velha canção. Ocupando a última banqueta próxima ao aparelho, o cara de boina vigiava a entrada.

Ele esperava.

Sob o disfarce de um homem comum, era um bandido cruel de uma quadrilha de contrabandistas de joias. Naquele momento, estava num café em Montparnasse, à espera de seu contato, uma mulher que desconhecia. Dentro de alguns minutos, segundo anunciava o seu relógio, ela chegaria e lhe entregaria o envelope. Como supunha, seria uma operação bem simples, como o ato de acender o cigarro num Zippo ou espantar uma mosca enjoada.

Ele não tinha curiosidade sobre a mulher nem tentava adivinhar o seu nome e o país do qual era procedente. De acordo com o plano, ela se aproximaria, pediria uma bebida e, em seguida, de modo discreto, lhe entregaria o documento – e tomaria o seu rumo, bye, bye.

Ele viu quando ela entrou. No lugar onde estava, em posição vigilante, ficou cego por um instante e, depois de consertar os olhos, disse, assim que ela se aproximou, uma frase vagabunda:

“Você tem todo o jeito de ser a perdição de um homem.”

Agindo como subcelebridade, ela apenas sorriu e moveu o pescoço. Em seguida, ele falou, para se sentir ainda mais confiante, para assegurar o assombro que sentira:

“Este bar é o melhor da cidade porque posso beber neste momento um uísque ao lado de uma princesa” – e fez um gesto indecifrável, um tanto vulgar. A mulher ampliou o sorriso, indicando que gostava de galanteios, pois era uma moça sensível e não tinha os nervos à flor da pele.  

Depois de se acomodar, abriu a bolsa e lhe passou o envelope, do modo como os mafiosos sempre fazem: dentro de um jornal. Com estilo, sem demonstrar urgência, molhou os lábios no copo, olhou para um lado, depois para o outro e, de forma natural, puxou a cabeça de seu acompanhante, aproximando-se do seu ouvido – e sussurrou, os lábios carnosos, enquanto o homem ia apagando aos poucos a sua expressão de júbilo, tornando-a nebulosa.

Um pouco aturdido, viu quando a mulher endireitou o corpo num movimento gracioso, desceu da banqueta e atravessou o corredor de dez metros que a separava da saída, o decote em V terminando no ponto onde começavam dunas redondas e atraentes, em que Príapo gostaria certamente de estar.

Quando ela desapareceu de vez, o cara de boina pensou na informação que tinha acabado de receber. Como  fora da lei, sabia que por aquela porta, a qualquer momento, entrariam um ou dois atiradores, os quais seriam alvos fáceis para quem estava sentado em posição oposta e tinha ampla visão da entrada, com uma saída de emergência ao lado. E, sobrevivente de tiroteios, a sua arma estava pronta para vomitar balas. Por isso, ajustou-a dentro do bolso e ficou alisando-a levemente, como se o aço tivesse a maciez de um gatinho.

A jukebox começou a tocar outra música, dessa vez uma canção de Piaf. O homem guardou o envelope, acendeu um cigarro, depositou-o no cinzeiro e, pela primeira vez, pensando no inesperado, concluiu que a sua vida, até onde a tinha conduzido nos seus dias de violência, tinha um repugnante gosto de sangue.

Tag's: conto, literatura, literatura goiana, literatura policial, Luís Araujo Pereira

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