Apenas o funeral de Victor Hugo havia causado tamanha comoção. Quando Émile Zola (1840-1902) morreu, uma multidão tomou as ruas de Paris para acompanhar o cortejo que levava o caixão do escritor até o cemitério, gritando “Germinal! Germinal!” (título de uma das mais célebres obras do autor). Mas o que havia feito Zola para provocar essa reação tão emocionada do público?
Primeiro autor francês a trazer para as páginas de seus livros a linguagem crua e rude das ruas, daqueles tipos que normalmente só mereciam um papel marginal na literatura – os operários, os camponeses, as lavadeiras, os vagabundos, as prostitutas, toda aquela massa de gente pobre que se espremia nos cortiços da capital francesa ou sobrevivia em condições miseráveis na província –, Zola foi um daqueles raros espíritos iluminados que combinam gênio literário, retidão de caráter e compromisso com a verdade e a justiça.
Um homem que nunca abriu mão de suas convicções, mesmo quando a sua carreira e até a sua integridade física estiveram em risco. Como no episódio do rumoroso affaire Dreyfus, em que foi uma das poucas vozes a defender em público a inocência do oficial de origem judaica Alfred Dreyfus, acusado injustamente – como se provou depois – de trabalhar como espião para a Alemanha.
Nas histórias das letras na França, só a obra de Balzac ultrapassa em ambição e grandiosidade a escrita por Zola. Na sua Comédia humana, formada por mais de 80 romances, Balzac expõe um amplo painel da sociedade francesa na primeira metade do século XIX, após a queda de Napoleão, no qual circulam mais de 3 mil personagens. Inspirado no mestre, Zola concebeu um projeto semelhante: em 20 romances, faz uma radiografia da França sob o Segundo Império (instaurado depois do golpe de Napoleão III em 1851), acompanhando a trajetória de uma mesma família, os Rougon-Macquart. Nesse universo fictício, desfilam mais de 1,2 mil personagens que, à maneira da Comédia Humana de Balzac, vão e voltam nos volumes que compõem a saga dessa família proletária.
Fiel ao espírito da sua época, Zola procura dar um fundo “científico” à epopeia dos Rougon-Macquart. Seus propósitos são claramente expostos no prefácio do primeiro livro da saga, chamado La Fortune des Rougon (A Fortuna dos Rougon), quando anuncia que a obra dará início a um estudo científico da trajetória de uma família sobre a qual pesa a maldição da “fatalidade hereditária”, manifestada de duas formas: pela loucura e pela propensão ao alcoolismo. Assim, todas as suas mais célebres personagens, como a lavadeira Gervaise, de L’Assomoir (A Taverna), a prostituta Nana do romance homônimo, o operário de minas Étienne de Germinal e Jacques, o maquinista de La Bête Humaine (A Besta Humana), são vítimas, de uma forma ou de outra, desses males.
Ao leitor contemporâneo, pode incomodar esse determinismo biológico presente nos romances do escritor – “a hereditariedade tem suas leis, como a gravidade”, escreve ele –, mas é importante frisar que Zola não apresenta essas “deformações” como um mal em si. Elas estão antes associadas ao meio em que suas personagens vivem, no qual a miséria, a promiscuidade, o afrouxamento dos laços sociais e dos valores morais fornecem muito mais oportunidades para o cultivo dos vícios do que das virtudes.
Naturalismo
Zola é classificado como expoente da vertente naturalista, movimento cuja palavra de ordem era aplicar à arte o rigor da ciência positiva, reproduzindo a realidade de forma objetiva. Daí a explicação para a preocupação de Zola em ser o mais fidedigno possível na composição de seus ambientes. Alguns exemplos dignos de nota: para escrever Germinal, ele visitou as minas de carvão da província de Anzin e chegou até a se aventurar nas profundezas dos túneis cavados pelos mineiros; percorreu várias linhas de trens, anotando todos os detalhes de seu funcionamento e conversando com trabalhadores, para compor A Besta Humana, e sua própria experiência como morador dos bairros pobres de Paris, nos primeiros anos em que viveu na capital, lhe forneceu o material para vários de seus romances, de A Taverna a Nana.
Contudo, essa preocupação em ser realista, em Zola, não se traduz em uma linguagem objetiva, distante, fria. A prosa do autor, para citar Maupassant, é “colorida e forte, plena de uma incontestável energia e de uma indiscutível beleza”.
Várias passagens de seus romances são memoráveis. No capítulo inicial de Le Ventre de Paris, um foragido da cadeia, morto de fome, e sem um tostão, encontra um breve refúgio no Havre, o mercado de abastecimento da capital francesa. É impossível, durante a leitura, não sentir a mesma agonia do fugitivo, atormentado pelo cheiro das frutas, dos peixes, dos legumes, mas sem poder furtar sequer uma laranja sob o risco de ser capturado. No final de La Bête Humaine, é a descrição impressionante de um trem desgovernado que nos arrebata, simbolizando os descaminhos dos protagonistas dessa história de amor e perversão. Em Germinal, o trecho que narra a morte por soterramento de vários operários, decorrente de uma explosão na mina, é o dramático desfecho da fracassada greve dos mineiros. E a agonia de um cachorro nas páginas finais de La Joie de Vivre (A Alegria de Viver, o mais tristemente irônico título das obras do autor) antecipa o destino não menos trágico de Pauline, uma órfã cuja riqueza vai sendo dilapidada pelos seus tutores até ela se ver reduzida a uma deplorável condição de miséria e sujeição.
Eis Émile Zola, “um monumento da consciência humana”, nas palavras de Anatole France.




