Eu não sei muito bem o que ele pretendia dizer; aliás, tudo o que ele contou antes era obscuro e, à medida que falava, tornava-se tão ignoto quanto os extraterrestres e o terceiro segredo de Fátima. A sua voz, como a dos cantores de milongas, expunha alguma tristeza, um jeito perturbado fazia-o às vezes retorcer o corpo.
“Até aqui, tenho trilhado um caminho que não leva à salvação, não importa qual seja, se ao menos fosse a da alma, essa minha, tão suja de sangue.”
Nesse ponto, interrompeu a arenga e deu uma tragada longa no cigarro. Enquanto expelia a fumaça prazerosamente, continuou – agora com a rouquidão dos fumantes extasiados:
“Apesar de haver tantos magarefes, cada um mais desastrado do que o outro, o serviço de morte exige um conhecimento que não é só o das armas – mas é principalmente o de planejamento y otras cositas más, uma delas, bastante considerável, a palidez e o tremor dos indecisos.”
Foi mais ou menos isso o que ele disse, num fim de tarde banhado de sol, à sombra de uma varanda voltada para o quintal, em cujo fundo enverdeciam copas enormes de árvores domesticadas para darem sombra, flores e frutos.
Antes que eu dissesse alguma coisa que fizesse sentido à sua revelação tão abrupta quanto surpreendente, ele encerrou a sua loquacidade com uma frase assertiva, retirada certamente de uma crença heroica dos sequazes:
“Quando o cabra é bom, o pistoleiro nunca deixa rastros para um policial farejar.”
No dia em que o encontrei na varanda, ainda não conhecia a sua fama de fazedor de viúvas em tantas paragens no continente. Nessa primeira impressão, pareceu-me apenas um homem cansado dos dias e das noites, que procurava um estímulo para enfrentar as tormentas da vida e uma chave para abrir as portas de situações mais confortáveis.
Se tanto, devo tê-lo encontrado duas vezes na varanda, ao mesmo pouco tempo em que aguardava o aconselhamento espiritual do Guru. Nas raras vezes em que convivemos nesses curtos encontros, jogamos conversa fora sobre filmes banais, salvo nessa tarde em que o ofício da pistolagem intrometeu-se com o seu fedor de enxofre.
Na hora em que o Guru abriu a porta e viu-nos os dois lá fora em suas respectivas cadeiras, festejou:
“Ora, ora, sejam bem-vindos, mestres!” – e apresentou-me o facínora, como se eu não o conhecesse, visto que não sabia que já tínhamos conversado estranhezas. Eu apertei a mão daquele homem que em seguida foi conduzido, com toda mesura, para a sala de consultas.
Foi no nosso último encontro que ele me disse o seu nome, despedindo-se com uma inflexão peregrina na voz:
“Eu me chamo El Carnicero e sigo amanhã para outros rincões, longe daqui.”
Após essa revelação, nunca mais o vi, nem tive notícias dele. Adiós, extraño!
Numa ocasião em que tive a chance de perguntar ao Guru quem era o homem a quem tinha sido apresentado, ele se embaraçou e disse-me depois, já no seu natural, sem afobação, que o cara taciturno que eu conhecera em seu centro esotérico era só mais um, entre tantos, que procurava uma cura para a sua alma doente.
“Ele vem aqui atrás de redenção, pelos crimes que o corroem.”
Muito mais do que eu, o Guru sabia que o perdão é uma afronta à vítima ultrajada. Nesta nossa rala vida, nós não merecemos ser perdoados pelas atrocidades que cometemos. Na nossa tragédia curta e quase sempre pouco digna, a alma de um indivíduo que assassinou por dinheiro, por ideologia ou por razões mesquinhas nunca deve vislumbrar as flores que ardem a sua beleza no portal do Paraíso, caso esse lugar exista mesmo fora da imaginação.




