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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 20 de abril de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
20/04/2025 em Florações

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Cinco poemas de Roberto Bolaño

[Curadoria de Luís Araujo Pereira; tradução de Josely Vianna Baptista]

[1]

Calles de Barcelona

Se turba el pinche Roberto      Cierra los ojos

(Tórnanse bermejas sus mejillas)

Lee libros en la Granja Parisina de la calle Tallers

Camina por las callecitas del puerto bajo la

llovizna      (Una película muy hortera

que interpretaría Robert De Niro)      ¿Pero

por qué enrojece?      (Pinche Robert Bolaño:

besa en la boca lo patético y lo ridículo)

Abre los ojos como un oso flaco y agonizante

(¿Un oso, tú?)      Como El Resoplón de R. A. Lafferty

Se turba, camina bajo la llovizna del puerto

Se detiene frente a las carteleras cinematográficas

Lee el bar Céntrico de la calle Ramalleras

Freud Lacan Cooper      (En serio)

No esconde sus pisadas


Ruas de Barcelona 

O maldito Roberto fica atordoado      Fecha os olhos

(Suas faces ficam vermelhas)

Lê livros na Granja Parisina da rua Tallers

Caminha pelas ruelas do porto sob a

garoa      (Um filme muito brega

que Robert De Niro interpretaria)      Mas

por que fica vermelho?      (Maldito Robert Bolaño:

beija na boca o patético e o ridículo)

Abre os olhos como um urso magro e agonizante

(Um urso, você?)      Como o “Snufles” de R. A. Lafferty

Está atordoado, caminha sob a garoa do porto

Para diante dos cartazes de cinema

Lê no bar Céntrico na rua Ramalleras

Freud Lacan Cooper      (É sério)

Não esconde suas pegadas

• • •


[2]

Tran-qui-lo

Cuando la aguja a fuerza de ser llamada

se transforma en flor en la oscuridad

de tu cuerpo que cierra los ojos

para poder sentir mejor el frío o la garganta

que se te ofrece como un don constante,

la pluma que te hace cosquillas, la flacura

acaecida hace un siglo que no obstante

retorna esta noche a tu París de puentes

colgantes y sonrisas capaces de reunir

los fragmentos dispersos de la ruina:

esa elegancia extrema que has rechazado

probablemente sean tus nervios, tu tristeza,

el estómago que te cruje en el centro de

toda estética quien te hace proyectar

la sonrisa perdida hace casi un siglo

y el pelo cortado al cepillo y los ojos

azules profundamente locos y buenos y

la aguja que no puede velar por nosotros.


Tran-qui-lo

Quando a agulha de tanto ser chamada

se transforma em flor na escuridão

de seu corpo que fecha os olhos

para poder sentir melhor o frio ou a garganta

que se oferece a você como uma dádiva constante,

a pena que lhe faz cócegas, a magreza

surgida há um século que não obstante

retorna esta noite a sua Paris de pontes

pênseis e sorrisos capazes de reunir

os fragmentos dispersos da ruína:

essa elegância extrema que você rejeitou

provavelmente são seus nervos, sua tristeza,

seu estômago rangendo no centro de

toda estética que faz com que você projete

o sorriso perdido há quase um século

e o cabelo cortado à escovinha e os olhos

azuis profundamente loucos e bons e

a agulha que não pode velar por nós.

• • •


[3]

El dinero

Trabajé 16 horas en el camping y a las 8

de la mañana tenía 2200 pesetas pese a ganar

2400 no sé qué hice con las otras 200

supongo que comí y bebí cervezas y café con

leche en el bar de Pepe García dentro del

camping y llovió la noche del domingo y toda

la mañana del lunes y a las 10 fui donde

Javier Lentini y cobré 2500 pesetas por una

antología de poesia joven mexicana que

aparecerá en su revista y ya tenía más de

4000 pesetas y decidí comprar un par de

cintas vírgenes para grabar a Cecil Taylor

Azimuth Dizzy Gillespie Charlie Mingus

Y comerme un buen bisteca de cerdo

con tomate y cebolla y huevos fritos y escribir

este poema o esta nota que es como un pulmón

o una boca transitória que dice que estoy

feliz porque hace mucho que no tenía

tanto dinero en los bolsillos


O dinheiro

Trabalhei 16 horas no camping e às 8

da manhã tinha 2200 pesetas apesar de ganhar

2400 não sei o que fiz com as outras 200

acho que comi e bebi cervejas e café com

leite no bar do Pepe García dentro do

camping e choveu na noite de domingo e toda

a manhã de segunda e às 10 fui atrás de

Javier Lentini e recebi 2500 pesetas por uma

antologia de poesia jovem mexicana que

vai sair em sua revista e já tinha mais de

4000 pesetas e decidi comprar um par de

fitas virgens para gravar Cecil Taylor

Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus

e comer uma boa bisteca de porco

com tomate e cebola e ovos fritos e escrever

este poema ou esta nota que é como um pulmão

ou uma boca transitória que diz que estou

feliz porque há muito tempo eu não tinha

tanto dinheiro no bolso

• • •


[4]

El robot

Recuerdo que Platón me lo decía

y no presté atención.

Ahora estoy en la discoteca de la muerte

y no hay nada que pueda hacer:

el espacio es una paradoja.

Aquí no puede pasar nada

y sin embargo estoy yo.

Apenas un robot

con una misión sin especificar.

Una obra de arte eterna.


O robô

Lembro que Platão me dizia isso

e não prestei atenção.

Agora estou na discoteca da morte

e não há nada que eu possa fazer:

o espaço é um paradoxo.

Nada pode acontecer aqui

e no entanto cá estou eu.

Apenas um robô

com uma missão inespecífica.

Uma obra de arte eterna.

• • •


[5]

Autorretrato a los veinte años

Me dejé ir, lo tomé en marcha y no supe nunca

hacia donde hubiera podido llevarme. Iba lleno de miedo,

se me aflojó el estómago y me zumbaba la cabeza:

yo creo que era el aire frío de los muertos.

No sé. Me deje ir, pensé que era una pena

acabar tan pronto, pero por outra parte

escuché aquella llamada misteriosa y convincente.

O la escuchas o no la escuchas, y yo la escuché

y casi me eché a llorar: un sonido terrible,

nacido en el aire y en el mar.

Un escudo y una espada. Entonces,

pese al miedo, me dejé ir, puse mi mejilla

junto a la mejilla de la muerte.

Y me fue imposible cerrar los ojos y no ver

aquel espectáculo extraño, lento y extraño,

aunque empotrado en una realidade velocísima:

miles de muchachos como yo, lampiños

o barbudos, pero latinoamericanos todos,

juntando sus mejillas con la muerte.


Autorretrato aos vinte anos

Me deixei levar, saí andando e nunca soube

para onde poderia me levar. Estava cheio de medo,

o estômago doía, a cabeça zunia:

acho que era o ar frio dos mortos.

Não sei. Me deixei levar, pensei que era uma pena

acabar tão depressa, mas, por outro lado

escutei aquele chamado misterioso e convincente.

Ou você o escuta ou não o escuta, e eu o escutei

e quase comecei a chorar: um som terrível,

nascido no ar e no mar.

Um escudo e uma espada. Então,

apesar do medo, me deixei levar, pus minha face

junto à face da morte.

E me foi impossível fechar os olhos e não ver

aquele espetáculo estranho, lento e estranho,

ainda que embutido numa realidade velocíssima:

milhares de rapazes como eu, imberbes

ou barbudos, mas todos latino-americanos,

juntando suas faces com a morte.

Roberto Bolaño Ávalos nasceu em Santiago do Chile no dia 28 de abril de 1953 e faleceu em 15 de julho de 2003 na cidade de Barcelona, na Catalunha, Espanha. Em 1968, sua família mudou-se para a Cidade do México. Ao 15 anos, abandonou os estudos para dedicar-se à literatura. Com a ascensão de Allende, retornou ao Chile. Em 1977, transferiu-se para a Europa, escolhendo a Espanha, onde deu início à sua carreira literária. Durante sua existência, adotou a boemia como forma de vida. Considerava-se poeta, mas suas grandes realizações literárias situam-se na prosa, entre as quais sobressaem os seguintes títulos, todos traduzidos para o português: A pista de gelo (1993), Estrela distante (1996), Literatura nazista na América (1996), Chamadas telefônicas (1997), Os detetives selvagens (1998), Monsieur Pain (1999), Amuleto (1999), Noturno do Chile (2000), O gaúcho insofrível (2003), 2666 (póstumo, 2004). Como poeta, publicou Os cães românticos (2000), Três (2000) e A universidade desconhecida (2007). Os poemas  para a coluna Florações foram selecionados do livro A universidade desconhecida, publicado em 2021 pela Companhia das Letras, e traduzido pela escritora Josely Vianna Baptista. Leia mais  sobre a literatura de Bolaño, no texto de Gilberto G. Pereira, publicado em Ermira, no link https://ermiracultura.com.br/2022/06/05/roberto-bolano-um-latino-americano-em-terra-de-godos/.

Tag's: literatura, literatura latino-americana, poesia, poesia chilena, Roberto Bolaño

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