[Curadoria de Luís Araujo Pereira; tradução de Josely Vianna Baptista]
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Calles de Barcelona
Se turba el pinche Roberto Cierra los ojos
(Tórnanse bermejas sus mejillas)
Lee libros en la Granja Parisina de la calle Tallers
Camina por las callecitas del puerto bajo la
llovizna (Una película muy hortera
que interpretaría Robert De Niro) ¿Pero
por qué enrojece? (Pinche Robert Bolaño:
besa en la boca lo patético y lo ridículo)
Abre los ojos como un oso flaco y agonizante
(¿Un oso, tú?) Como El Resoplón de R. A. Lafferty
Se turba, camina bajo la llovizna del puerto
Se detiene frente a las carteleras cinematográficas
Lee el bar Céntrico de la calle Ramalleras
Freud Lacan Cooper (En serio)
No esconde sus pisadas
Ruas de Barcelona
O maldito Roberto fica atordoado Fecha os olhos
(Suas faces ficam vermelhas)
Lê livros na Granja Parisina da rua Tallers
Caminha pelas ruelas do porto sob a
garoa (Um filme muito brega
que Robert De Niro interpretaria) Mas
por que fica vermelho? (Maldito Robert Bolaño:
beija na boca o patético e o ridículo)
Abre os olhos como um urso magro e agonizante
(Um urso, você?) Como o “Snufles” de R. A. Lafferty
Está atordoado, caminha sob a garoa do porto
Para diante dos cartazes de cinema
Lê no bar Céntrico na rua Ramalleras
Freud Lacan Cooper (É sério)
Não esconde suas pegadas
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Tran-qui-lo
Cuando la aguja a fuerza de ser llamada
se transforma en flor en la oscuridad
de tu cuerpo que cierra los ojos
para poder sentir mejor el frío o la garganta
que se te ofrece como un don constante,
la pluma que te hace cosquillas, la flacura
acaecida hace un siglo que no obstante
retorna esta noche a tu París de puentes
colgantes y sonrisas capaces de reunir
los fragmentos dispersos de la ruina:
esa elegancia extrema que has rechazado
probablemente sean tus nervios, tu tristeza,
el estómago que te cruje en el centro de
toda estética quien te hace proyectar
la sonrisa perdida hace casi un siglo
y el pelo cortado al cepillo y los ojos
azules profundamente locos y buenos y
la aguja que no puede velar por nosotros.
Tran-qui-lo
Quando a agulha de tanto ser chamada
se transforma em flor na escuridão
de seu corpo que fecha os olhos
para poder sentir melhor o frio ou a garganta
que se oferece a você como uma dádiva constante,
a pena que lhe faz cócegas, a magreza
surgida há um século que não obstante
retorna esta noite a sua Paris de pontes
pênseis e sorrisos capazes de reunir
os fragmentos dispersos da ruína:
essa elegância extrema que você rejeitou
provavelmente são seus nervos, sua tristeza,
seu estômago rangendo no centro de
toda estética que faz com que você projete
o sorriso perdido há quase um século
e o cabelo cortado à escovinha e os olhos
azuis profundamente loucos e bons e
a agulha que não pode velar por nós.
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El dinero
Trabajé 16 horas en el camping y a las 8
de la mañana tenía 2200 pesetas pese a ganar
2400 no sé qué hice con las otras 200
supongo que comí y bebí cervezas y café con
leche en el bar de Pepe García dentro del
camping y llovió la noche del domingo y toda
la mañana del lunes y a las 10 fui donde
Javier Lentini y cobré 2500 pesetas por una
antología de poesia joven mexicana que
aparecerá en su revista y ya tenía más de
4000 pesetas y decidí comprar un par de
cintas vírgenes para grabar a Cecil Taylor
Azimuth Dizzy Gillespie Charlie Mingus
Y comerme un buen bisteca de cerdo
con tomate y cebolla y huevos fritos y escribir
este poema o esta nota que es como un pulmón
o una boca transitória que dice que estoy
feliz porque hace mucho que no tenía
tanto dinero en los bolsillos
O dinheiro
Trabalhei 16 horas no camping e às 8
da manhã tinha 2200 pesetas apesar de ganhar
2400 não sei o que fiz com as outras 200
acho que comi e bebi cervejas e café com
leite no bar do Pepe García dentro do
camping e choveu na noite de domingo e toda
a manhã de segunda e às 10 fui atrás de
Javier Lentini e recebi 2500 pesetas por uma
antologia de poesia jovem mexicana que
vai sair em sua revista e já tinha mais de
4000 pesetas e decidi comprar um par de
fitas virgens para gravar Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
e comer uma boa bisteca de porco
com tomate e cebola e ovos fritos e escrever
este poema ou esta nota que é como um pulmão
ou uma boca transitória que diz que estou
feliz porque há muito tempo eu não tinha
tanto dinheiro no bolso
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El robot
Recuerdo que Platón me lo decía
y no presté atención.
Ahora estoy en la discoteca de la muerte
y no hay nada que pueda hacer:
el espacio es una paradoja.
Aquí no puede pasar nada
y sin embargo estoy yo.
Apenas un robot
con una misión sin especificar.
Una obra de arte eterna.
O robô
Lembro que Platão me dizia isso
e não prestei atenção.
Agora estou na discoteca da morte
e não há nada que eu possa fazer:
o espaço é um paradoxo.
Nada pode acontecer aqui
e no entanto cá estou eu.
Apenas um robô
com uma missão inespecífica.
Uma obra de arte eterna.
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Autorretrato a los veinte años
Me dejé ir, lo tomé en marcha y no supe nunca
hacia donde hubiera podido llevarme. Iba lleno de miedo,
se me aflojó el estómago y me zumbaba la cabeza:
yo creo que era el aire frío de los muertos.
No sé. Me deje ir, pensé que era una pena
acabar tan pronto, pero por outra parte
escuché aquella llamada misteriosa y convincente.
O la escuchas o no la escuchas, y yo la escuché
y casi me eché a llorar: un sonido terrible,
nacido en el aire y en el mar.
Un escudo y una espada. Entonces,
pese al miedo, me dejé ir, puse mi mejilla
junto a la mejilla de la muerte.
Y me fue imposible cerrar los ojos y no ver
aquel espectáculo extraño, lento y extraño,
aunque empotrado en una realidade velocísima:
miles de muchachos como yo, lampiños
o barbudos, pero latinoamericanos todos,
juntando sus mejillas con la muerte.
Autorretrato aos vinte anos
Me deixei levar, saí andando e nunca soube
para onde poderia me levar. Estava cheio de medo,
o estômago doía, a cabeça zunia:
acho que era o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei levar, pensei que era uma pena
acabar tão depressa, mas, por outro lado
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você o escuta ou não o escuta, e eu o escutei
e quase comecei a chorar: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei levar, pus minha face
junto à face da morte.
E me foi impossível fechar os olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
ainda que embutido numa realidade velocíssima:
milhares de rapazes como eu, imberbes
ou barbudos, mas todos latino-americanos,
juntando suas faces com a morte.
Roberto Bolaño Ávalos nasceu em Santiago do Chile no dia 28 de abril de 1953 e faleceu em 15 de julho de 2003 na cidade de Barcelona, na Catalunha, Espanha. Em 1968, sua família mudou-se para a Cidade do México. Ao 15 anos, abandonou os estudos para dedicar-se à literatura. Com a ascensão de Allende, retornou ao Chile. Em 1977, transferiu-se para a Europa, escolhendo a Espanha, onde deu início à sua carreira literária. Durante sua existência, adotou a boemia como forma de vida. Considerava-se poeta, mas suas grandes realizações literárias situam-se na prosa, entre as quais sobressaem os seguintes títulos, todos traduzidos para o português: A pista de gelo (1993), Estrela distante (1996), Literatura nazista na América (1996), Chamadas telefônicas (1997), Os detetives selvagens (1998), Monsieur Pain (1999), Amuleto (1999), Noturno do Chile (2000), O gaúcho insofrível (2003), 2666 (póstumo, 2004). Como poeta, publicou Os cães românticos (2000), Três (2000) e A universidade desconhecida (2007). Os poemas para a coluna Florações foram selecionados do livro A universidade desconhecida, publicado em 2021 pela Companhia das Letras, e traduzido pela escritora Josely Vianna Baptista. Leia mais sobre a literatura de Bolaño, no texto de Gilberto G. Pereira, publicado em Ermira, no link https://ermiracultura.com.br/2022/06/05/roberto-bolano-um-latino-americano-em-terra-de-godos/.





