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Imagem: cena de O Teorema de Marguerite (Anna Novion, 2023)
Imagem: cena de O Teorema de Marguerite (Anna Novion, 2023)
Imagem: cena de O Teorema de Marguerite (Anna Novion, 2023)

Marília Fleury em Pomar Designer e curadora | Publicado em 11 de maio de 2025

Marília Fleury
Designer e curadora
11/05/2025 em Pomar

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Inúmeros, numerosos, infinitos números

Pane. Morre ali. Some tudo, e o raciocínio não progride. O cérebro é tomado por nuvens.  Nuvens densas. Meu avô, se muito, havia feito o primário. Fazia contas de cabeça, facinho. Tanto vezes tanto, noves fora tanto, aí ele chegava no resultado certinho. Nunca entendi que noves seriam esses.  Na minha cabeça surgia a imagem de meu avô varrendo, com uma vassoura de palha, um monte de números noves no chão de terra batida. Eu não entendo os números e acho que a recíproca é verdadeira.  Mundos diferentes, inabitáveis e, paradoxalmente, inseparáveis. 

O chato é que detesto números, e penso neles todos os dias, como todo mundo, aliás. Outro dia, quando imaginava como seria leve e até mais silencioso um mundo sem números, enquanto lavava panelas, contei 4 panelas. Isso, depois do almoço.  À noite, mais 4. Impossível não fazer a conta: 8. É, as simplesinhas, daquelas em que é possível usar os dedos para contar, ainda consigo. Mas é só.

Evito conversas a respeito,  já que nem é possível usar o artifício de comentar interessante, essa palavra tão prestimosa e flexível em tantas situações sociais.  Não tenho vindo trabalhar porque operei de fimose./ Interessante./ Sabia que a Gretchen está ficando careca?/ Interessante. /O que você achou de Dogville? Interessante. É, às vezes vario com Olha!, balançando a cabeça com admiração e discreta concordância.  Mas… números?! Como demonstrar algum vago entendimento sem ter nenhum? São tão EXATOS, que nem admitem fingimento. Quem nunca escutou a afirmação os números não mentem? É, eu também não, mas esse é o único ponto em comum entre nós.

O pior é que eles se insinuam em todos os lugares, de maneira inescapável. Uma vez, numa mostra de cinema. Bem tranquila, com uma amiga, num filme com um título assim:  A Prova (ou As Provas?). Então, numa perseguição implacável, aparece uma fórmula de álgebra numa lousa, logo na primeira cena.  Seria álgebra mesmo?! Sei lá, algo cheio de sinais, chaves, símbolos. Descrencei na hora e afundei na poltrona, de olhos fechados, esgravutando na minha cabeça algo envolvente para pensar durante a longueira daquele filme. Nada. Eu não podia sair e deixar uma amiga, como já aconteceu comigo em O Duplo, uma versão agonizante da obra de Dostoiévski. Aguentei até o final, esperando a amiga que escapuliu com a desculpa de ir ao banheiro e não voltou (é, minha história com o cinema é também uma história de resistência). Os números, me parece, tinham uma função muito importante no filme. Não quis nem saber, sem forças para perguntar o que a amiga havia achado. Nunca consegui aprender nada de matemática e, por vezes, sonho que minhas notas nessa matéria me impediram de terminar o segundo grau, só me recuperando do susto quando acordo e me lembro que me formei, então não estou devendo nada. Devendo? Graças a Deus, não, senão teria ainda mais números na minha vida.

E números também estão sempre ligados a dinheiro, então comecei a pensar no que poderia substituir o dinheiro e prover a subsistência, abolindo, de quebra, as abissais diferenças sociais. Poderia ser algo como catar punhadinhos de folhas ou pedrinhas, coisas que existem na natureza mesmo. Os punhadinhos poderiam ser trocados por comida, roupa, materiais de construção, mão de obra, itens de higiene. Ok, mas como mensurar? Alguns punhadinhos poderiam virar punhadões, no entusiasmo de muitos para acumular mais comida, mais roupas, mais sapatos, mais tijolos (ah, a insofreável ganância humana!).

E, nisso, o tempo gasto na catação não poderia ser aproveitado em outras atividades, tipo filmes,  passeios, leituras, confeccionar peças de vestuário, preparar as refeições, cochilar, estudar… E o sol quente, a chuva, a canseira? E quem tivesse limitações físicas? E como fazer um projeto de arquitetura sem cálculos? E as contagens nos exames médicos? Quantos litros de combustível colocar no carro, um cadinho ou um bocado? Aliás, não haveria carros, nem velocímetro, nem limites de velocidade, nada. Como viver sem meios de transporte num mundo desse tamanho? Longe é um lugar que não existe? Ah, J.M. Simmel, existe sim. Só de pensar em sair daqui a pé para ir ao centro da cidade já me dá canseira.     

É, o mundo seria mais leve e silencioso, mas vazio, limitado, bem chatinho mesmo. Só seria maravilhoso o fato de reduzir a pó o etarismo, essa praga da sociedade atual. Impossivel saber a idade de alguém. Sem números seríamos livres, sem idade, numa ilusão de quase imortalidade, gozando de quase eterno respeito e consideração, sem reduções infantilizadoras por parte dos profissionais da saúde, sempre solicitando que estiquemos os bracinhos, viremos o rostinho, abramos a boquinha para mostramos os dentinhos, fechemos a mãozinha para fazer exame de sangue, solicitações muitas vezes acompanhadas por indagações óbvias. Viramos crianças e não fomos avisadas? Fazer o quê? Já estou até esperando a próxima fase, que é virar uma gracinha.  Lançando agora a hashtag #MeiaIdadeNãoSignificaDeficiênciaIntelectual.

É isso mesmo. Enquanto os números são infinitos e seguem sempre adiante, nós vamos voltando para trás à medida que envelhecemos, numa atração involuntária, tipo aquela que existe entre a pasta dental e as roupas pretas. 

Antídotos para dores e problemas numéricos? Os contadores, aqueles seres admiráveis, logo abaixo de Deus, sempre preparados para resolver qualquer parada nesse quesito ou responderem por questões duvidosas. Deu algum B.O. na Receita Federal, uma grana que apareceu do nada? Ah, a culpa é do contador. Prático demais. 

Tag's: etarismo, matemática, números

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