Ali, naquela rua, tinha um bar onde quase tudo acontecia sem o menor presságio – e os mínimos pudores –, sem a mínima certeza da noite seguinte. Era um bar que não tinha nem a grandeza nem a elegância do Rick’s Café Américain, aquele ambiente marroquino fora de série, mitológico e buliçoso do filme Casablanca.
Em palavras menos garbosas, era um bar que recebia todos os que tinham algum tipo de afinidade, principalmente ideológica. Como em todos eles, os que se julgavam normais e os que eram mesmo abilolados ocupavam mesas de mesmo tamanho. E os informantes da polícia – os únicos escrotos – arrastavam a sua gosma pelo piso, mais manjados do que Campari com gelo. De vez em quando, uma ou outra cadeira voava, mas esse bafafá era previsível, com tanta tensão pulsando no ar. O tempo fechava só por um instante porque a tempestade estava em outro lugar. E as rixas, quase sempre, eram por causa da melhor teoria revolucionária ou pelo mané, coitado, que piscou para a garota errada.
Esse bar, onde ocorriam as mais ruidosas discussões e os tais embates, existe apenas na memória dos que o vivenciaram intensamente. Era um lugar que, nessa época, gostávamos de frequentar, não importavam a noite e os clientes, como se fôssemos monges devotados à cerveja trapista. Na verdade, nós éramos porra-loucas e não tínhamos receio ao mal que nos rondava porque – também incautos e arrogantes – não pensávamos nos dias vindouros.
Por isso, a gente bebia pra caramba, porres de todo tamanho, e admirávamos as mulheres bonitas cujas coxas nos tiravam do prumo em suas minissaias provocantes. E flertávamos com elas porque elas estavam ali para serem admiradas e se as considerávamos gostosas era porque nenhum carnaval seria capaz de inventar colombinas mais deslumbrantes.
E ríamos e gargalhávamos e falávamos alto e imprecávamos, como se a alegria e o humor fossem necessários para esquecermos que, àquela hora, qualquer um de nós poderia estar sendo o vilipendiado – e não vivendo momentos dionisíacos.
Quem tinha sobrevivido ao abatedouro dizia que lá exalava o odor mais asqueroso da podridão humana. O Júnior escapou – e se mandou. Nós sabíamos que ele tinha cantado no pau de arara e depois redigiu um depoimento no qual descreveu o seu sofrimento e entoou o lamento de quem depositava, como um náufrago, a sua expectativa de vida no primeiro navegador alienígena. “Tudo tá fodido, só resta a distopia.”
Sim, mas havia também aquele bar, que nos salvava.
E não muito longe funcionava uma unidade de tortura no Setor Sul, que triturava presos políticos, dia e noite. A vida adquiria sentidos absurdos porque a mais justa sociedade era inatingível e nunca, em momento algum, um herói viria colocar as coisas simples e belas no lugar.
Era, pois, a época em que os milicos e os seus civis associados gozavam o prazer do sangue humano – outro modo de dizer como os pervertidos divertiam-se como vampiros. Vinte e um anos de baionetas caladas, assassinatos, imprensa censurada e violência político-militar – não tem balança que pese essa ofensa abominável. Dom e Ravel eram ratones que adulavam a ditadura.
Foi nesse bar que reencontrei uma vez Mão de Flor, a menina doidinha do colégio que enchia de porradas os meus colegas molengas. Ela era tão graciosa quanto uma bailarina tropeçando num pneu. Por mais que tentasse, nunca consegui tomar um chope com ela. Depois, escafedeu-se – e nunca mais tivemos notícias dela. Espero que tenha encontrado o seu jardim.
Numa noite das imprevisíveis, alguém tocou os meus ombros e disse-me, quase sussurrando, a voz agradável:
“A Lua é muito pequena e a caminhada, perigosa.”
Quando me virei para encontrar a dona da voz, tive uma surpresa: era a minha amiga Sofia que voltava das profundas do abatedouro, depois de ter sido sequestrada pela repressão. Meus olhos iluminaram-se por reencontrá-la viva e radiante. Nesse momento, deduzi que fora também uma das homenageadas no recital realizado dias antes por um grupo de intelectuais, com o intuito de recepcionar os estudantes que participaram do Congresso da UNE em Ibiúna. Entre tantas, aquela foi outra noite de gala, que não dispensava poemas – e só pedia porres, muitos porres, de entortar o corpo.
Sim, naquela rua tinha um bar, cujo nome sumiu na névoa do tempo.




