[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
arranca
a carranca me rindo
eu
em queda livre desde às cinco da
tarde
língua solta que soca o asfalto
vendo
a tragédia pronta pra despacho
um bicho baixo se esgueirando
um colchão largado na calçada
vão queimar a vida!
vão queimar a vida!
deceparam os pés aninhados
atearam fogo –
os amantes de rua
mutilados
dançam sobre a brasa
Não (2016)
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[2]
todos já sabiam
a tia vilma passava a mão
no meu cabelo
e dizia tá ressecado
olhando pra minha mãe
como se dissesse a culpa é sua
com vergonha a minha mãe
comprava cremes que não podia pagar
e vestidos com anáguas e rendas
que de algum modo foram responsáveis
pela palavra que mais ouvi na infância
crediário
nas festas as meninas
zombavam dos meus “vestidos de bolo”
e corriam umas até as outras
com sandálias de dedo
enquanto eu sozinha
num canto com cuidado
pra não sujar
aquilo que a minha mãe
levaria meses pagando
tentava esquecer
que a meia-calça pinicava
e que a sapatilha espremia
o mindinho
afinal era preciso
que ninguém percebesse
o que todos já sabiam
eu era pobre
e comer sopa rala todo dia
enfraquecia o cabelo.
Ninguém quis ver (2023)
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[3]
estranhos
não conheci meu avô
dizem que foi morto de porrada
quando ameaçou matar os filhos
não conheci meu pai um
o que engravidou minha mãe duas vezes
e abandonou minha mãe duas vezes
conheci meu pai dois
o que me deu sobrenome e me amou tanto
que fez coisas que um pai não devia fazer
não conheci nenhum homem
que tenha me conhecido
que tenha conhecido
a minha mania de reproduzir com o dedo no ar
as linhas do teto
que tenha conhecido
a história dos meus ossos quebrados
ou de quando consegui voltar
antes do anoitecer
pra pensão de moças
depois de me perder no bambuzal
com uma amiga que eu queria
que fosse mais que amiga
não conheci nenhum homem
que tenha conhecido
os sons do meu sono pesado
porque não durmo pesado
perto de estranhos
teve época até
sempre alerta e com a mão
direita na faca
debaixo do travesseiro
depois que um homem
na ilusão de me conhecer
fez do meu corpo seu território
em guerra.
Ninguém quis ver (2023)
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[4]
nome próprio
o vassoureiro
o moço da pipoca
o feirante
o catador de latinhas
a voz do carro do pão
o rapaz morto ontem
o garçom
o motorista da van
o camelô
não têm nome próprio
os animais de rua também
não têm nome próprio
nem ocupam cargos públicos
a mulher nunca tem nome próprio
é a mulher do Fulano
a minha avó não teve nome próprio
os filhos a chamavam de mãe
eu a chamava de vó
e ela sempre atendia
a minha avó me ensinou
a atender prontamente
e a morrer sozinha
ela também me ensinou
a degolar franguinhos
e que as mulheres são sempre
propriedade de alguém
menos as que matam o marido
e fogem com a cabeça
numa sacola de mercado
essas ganham nome
nos jornais
e ameaçam o anonimato
das mulheres que em breve
vão aprender
a degolar franguinhos.
Ninguém quis ver (2023)
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[5]
CTI
quando cheguei
o homem à direita conversou comigo
disse que sairia logo
no dia seguinte ele estava assim
imóvel e nu
como um assado na travessa
até ontem tinha uma senhorinha na cama da frente
ela lia um livro com durex na lombada
não sei se volta nem se é apropriado perguntar pelo livro
dormi mal
a mulher que me deu gelatina morreu
do nada entortou a cara e morreu
mentira
eu roubei a gelatina dela
ainda me alimento por cateter
nas primeiras semanas
tive medo de morrer
agora estou fora de risco
dia vinte e três foi meu aniversário
alguns amigos vieram
mas não era deles que eu sentia falta
a enfermeira disse
que caiu um temporal
lembrei de quando a minha avó mandava
a gente beber água da chuva
pra dar sorte
e acho que me mijei
porque a fralda ficou morna
eu queria a visita da chuva
eu queria saber se o mato da minha calçada cresceu
e se o abacateiro precisa de poda
é verão
é época de cuidar das plantas
mas aqui revolvem os corpos
quando dão banho
viram o lençol prum lado e pro outro
e pedem licença pra esfregar
a esponja nas genitálias
é provável que os enfermeiros
façam piadas sobre nós
no intervalo do almoço
acho louvável
que saibam rir de tudo isso
e que sobreponham a fome
ao cheiro de éter.
Ninguém quis saber (2023)
Bruna Mitrano nasceu em 1985 no Complexo de Senador Camará, comunidade na periferia do Rio de Janeiro. É professora da rede pública, com mestrado em Literatura Portuguesa realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Tem poemas publicados em diversas revistas eletrônicas e impressas, muitos traduzidos para o espanhol e o inglês. Participa da antologia As 29 poetas hoje (Companhia das Letras, 2021), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Publicou dois livros de poemas: Não (Patuá, 2016) e Ninguém quis saber (Companhia das Letras, 2023). Sobre o último, Heloisa B. de Hollanda escreveu: O foco de seus poemas “são as situações vulneráveis, a fome, o abuso, a dureza da precariedade, ‘a falta de nome’, ou seja, a saga da invisibilidade de tantas mulheres”.





