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Foto: Thais Alvarenga/Divulgação
Foto: Thais Alvarenga/Divulgação
Foto: Thais Alvarenga/Divulgação

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 15 de junho de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
15/06/2025 em Florações

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Cinco poemas de Bruna Mitrano

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

arranca

a carranca me rindo

eu

em queda livre desde às cinco da

tarde

língua solta que soca o asfalto

vendo

a tragédia pronta pra despacho

um bicho baixo se esgueirando

um colchão largado na calçada

vão queimar a vida!

vão queimar a vida!

deceparam os pés aninhados

atearam fogo –

os amantes de rua

mutilados

dançam sobre a brasa

Não (2016)

• • •


[2]

todos já sabiam

a tia vilma passava a mão

no meu cabelo

e dizia tá ressecado

olhando pra minha mãe

como se dissesse a culpa é sua


com vergonha a minha mãe

comprava cremes que não podia pagar

e vestidos com anáguas e rendas

que de algum modo foram responsáveis

pela palavra que mais ouvi na infância


crediário


nas festas as meninas

zombavam dos meus “vestidos de bolo”

e corriam umas até as outras

com sandálias de dedo


enquanto eu sozinha

num canto com cuidado

pra não sujar

aquilo que a minha mãe

levaria meses pagando

tentava esquecer

que a meia-calça pinicava

e que a sapatilha espremia

o mindinho


afinal era preciso

que ninguém percebesse

o que todos já sabiam


eu era pobre


e comer sopa rala todo dia

enfraquecia o cabelo.

Ninguém quis ver (2023)

• • •


[3]

estranhos

não conheci meu avô

dizem que foi morto de porrada

quando ameaçou matar os filhos


não conheci meu pai um

o que engravidou minha mãe duas vezes

e abandonou minha mãe duas vezes


conheci meu pai dois

o que me deu sobrenome e me amou tanto

que fez coisas que um pai não devia fazer


não conheci nenhum homem

que tenha me conhecido


que tenha conhecido

a minha mania de reproduzir com o dedo no ar

as linhas do teto


que tenha conhecido

a história dos meus ossos quebrados


ou de quando consegui voltar

antes do anoitecer

pra pensão de moças


depois de me perder no bambuzal

com uma amiga que eu queria

que fosse mais que amiga


não conheci nenhum homem

que tenha conhecido

os sons do meu sono pesado


porque não durmo pesado

perto de estranhos


teve época até

sempre alerta e com a mão

direita na faca

debaixo do travesseiro


depois que um homem

na ilusão de me conhecer

fez do meu corpo seu território

em guerra.

Ninguém quis ver (2023)

• • •


[4]

nome próprio

o vassoureiro

o moço da pipoca

o feirante

o catador de latinhas

a voz do carro do pão

o rapaz morto ontem

o garçom

o motorista da van

o camelô

não têm nome próprio


os animais de rua também

não têm nome próprio

nem ocupam cargos públicos


a mulher nunca tem nome próprio

é a mulher do Fulano


a minha avó não teve nome próprio

os filhos a chamavam de mãe

eu a chamava de vó

e ela sempre atendia


a minha avó me ensinou

a atender prontamente

e a morrer sozinha


ela também me ensinou

a degolar franguinhos

e que as mulheres são sempre

propriedade de alguém


menos as que matam o marido

e fogem com a cabeça

numa sacola de mercado


essas ganham nome

nos jornais

e ameaçam o anonimato

das mulheres que em breve

vão aprender

a degolar franguinhos.

Ninguém quis ver (2023)

• • •


[5]

CTI

quando cheguei

o homem à direita conversou comigo

disse que sairia logo


no dia seguinte ele estava assim

imóvel e nu

como um assado na travessa


até ontem tinha uma senhorinha na cama da frente

ela lia um livro com durex na lombada

não sei se volta nem se é apropriado perguntar pelo livro


dormi mal

a mulher que me deu gelatina morreu

do nada entortou a cara e morreu


mentira

eu roubei a gelatina dela

ainda me alimento por cateter


nas primeiras semanas

tive medo de morrer


agora estou fora de risco


dia vinte e três foi meu aniversário

alguns amigos vieram

mas não era deles que eu sentia falta


a enfermeira disse

que caiu um temporal


lembrei de quando a minha avó mandava

a gente beber água da chuva

pra dar sorte


e acho que me mijei

porque a fralda ficou morna


eu queria a visita da chuva

eu queria saber se o mato da minha calçada cresceu

e se o abacateiro precisa de poda


é verão

é época de cuidar das plantas


mas aqui revolvem os corpos

quando dão banho

viram o lençol prum lado e pro outro

e pedem licença pra esfregar

a esponja nas genitálias


é provável que os enfermeiros

façam piadas sobre nós

no intervalo do almoço


acho louvável

que saibam rir de tudo isso

e que sobreponham a fome

ao cheiro de éter.

Ninguém quis saber (2023)

Bruna Mitrano nasceu em 1985 no Complexo de Senador Camará, comunidade na periferia do Rio de Janeiro. É professora da rede pública, com mestrado em Literatura Portuguesa realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Tem poemas publicados em diversas revistas eletrônicas e impressas, muitos traduzidos para o espanhol e o inglês. Participa da antologia As 29 poetas hoje (Companhia das Letras, 2021), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Publicou dois livros de poemas: Não (Patuá, 2016) e Ninguém quis saber (Companhia das Letras, 2023). Sobre o último, Heloisa B. de Hollanda escreveu: O foco de seus poemas “são as situações vulneráveis, a fome, o abuso, a dureza da precariedade, ‘a falta de nome’, ou seja, a saga da invisibilidade de tantas mulheres”.

Tag's: Bruna Mitrano, literatura brasileira, poesia brasileira

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