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Imagem: The Kingdom of the Father (Damien Hirst, 2007, detalhe)
Imagem: The Kingdom of the Father (Damien Hirst, 2007, detalhe)
Imagem: The Kingdom of the Father (Damien Hirst, 2007, detalhe)

Luís Araujo Pereira em Espirais Professor e escritor | Publicado em 29 de junho de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
29/06/2025 em Espirais

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A lenda de Juan Tengonon

A mira dos fuzis: uma mosca supostamente visível assinalada na testa de Juan Tengonon, o rebelde. Mais do que isto: o corpo tantas vezes odiado e temido de um desses camponeses que nunca se cansam de reivindicar, manifestando seus protestos e acampando em volta dos prédios públicos, brandindo suas foices e emitindo bordões contundentes. Seja qual for o ódio, o desejo ou o pensamento dos soldados naquele momento de fuzis engatilhados, este é um dia de rotina na vida do quartel: além de torturá-los, assassinam-nos como se cumprem outras missões banais – sem ressentimento dos hábitos ou questionamento das violentas tarefas militares.

Antes de os soldados dispararem suas armas, Juan Tengonon olha, pela última vez, a longa e alta muralha à sua frente e, pensando em várias coisas boas e livres que estavam do outro lado, sente todos os tremores que os condenados devem sentir quando se encontram diante de sua própria morte. No instante em que está prestes a manifestar seus sentimentos de indignação pela vida que lhe era roubada, aparece inesperadamente no céu, vindo de um ponto imprevisto, sem mais nem menos, por entre nuvens plácidas, uma  bizarra e sobrenatural aparição. Totalmente confuso, tão grande é o seu espanto, Juan Tengonon vê o que nenhum outro ser vivo provavelmente jamais verá: um horrível inseto zumbindo nervosamente suas asas, nada mais do que um gigantesco besouro, nascido certamente de uma mutação extravagante, aproximando-se ameaçador em direção à fileira dos soldados, como se fosse a concreção inexplicável de uma massa de nuvens errantes que imitam coisas e animais. Ele tenta esboçar um gesto de surpresa, emitindo quase um grito, inerte e apavorado.

Bem antes que os soldados percebam o perigo que os ameaça pois até o último momento de sua ignorância haviam confundido o coleóptero com um helicóptero, o enorme e monstruoso inseto arrebata todas as armas de suas mãos, numa manobra imprevisível. E antes que possam colocar-se em lugar seguro, correndo assustados em todas as direções, gritando histéricos e desnorteados, o animal desfere sobre cada um deles o seu raio mortal – e fulmina-os todos, um por um, sem permitir ao menos que o oficial organizasse uma defesa. Mesmo aqueles que saíram para investigar o alarido não tiveram melhor sorte. Poucos soldados conseguiram escapar do morticínio. Se houve registros fidedignos desse episódio, estes perderam-se no tempo. Assim, tudo aquilo que aconteceu nesse dia ficou restrito à memória entrecortada.

Juan Tengonon assiste a todas essas cenas confuso, maravilhado e agradecido por presenciar um milagre: aquele que lhe devolvera a vida de modo inexplicável. Misteriosamente como aparecera, o ser anômalo desaparece aos poucos no céu, zunindo suas poderosas asas. Os ganidos dos sobreviventes, que decidiram não expor-se ao perigo, uma vez constatada a inutilidade da bravura, escapuliram, desdenhosos, pelas portas do quartel em direção à vegetação rala que o circundava.

Após esses inditosos acontecimentos, Juan Tengonon foge da fortificação. Lá fora, a ravina é verde e ondulante, uma estrada é ocupada ao longe por carneirinhos, e borboletas debatem-se contra o vento. Apoiado agora pelo sentimento de que estava vivendo um admirável dia, não hesita um segundo em seguir o rastro belíssimo e colorido com o qual o monstruoso inseto marcava a sua passagem pelo céu.

* * *

Dizem que esta história passou-se em alguma região da América Latina, num desses países sanguinários, apesar de seu belo folclore e de suas lindas paisagens. Mas ninguém sabe em qual ano, nem exatamente o nome do país, a despeito dos fragmentos orais. Alguns afirmam que foi recentemente; outros, ao contrário, conhecidos como os guardiões da tradição, garantem que foi há muitos séculos, no período áureo dos grandes conquistadores; outros querem ainda que tudo ocorreu na época dos ditadores infames. Em qualquer uma das hipóteses, acredita-se – e neste ponto a opinião é geral – que tudo aconteceu mesmo num dos inúmeros fortes, hoje abandonados, que existem nas fronteiras, de cujos ocupantes não existe nenhum registro.

Há outro fato, entretanto, que parece indicar a verossimilhança da lenda. Toda vez que um pelotão de fuzilamento está pronto para assassinar um camponês que teve o desatino de lutar por terras e direitos, os soldados, antes de dispararem suas armas, olham instintivamente (e temerosos) para vários pontos do alto, como se pressentissem um perigo oculto e inexpugnável vindo das nuvens. (Comenta-se, com desprezo, que se um helicóptero aparecer subitamente é capaz de colocá-los em polvorosa fuga.) Depois de executarem o seu serviço de sangue, retornam nervosos e apressados para a caserna. Um observador mais atento não deixaria também de notar que esses soldados tornaram-se mais supersticiosos ainda e passaram a sentir uma repugnância infantil e exagerada por qualquer espécie de besouro.

Quanto ao camponês afortunado, comenta-se que ele foi viver no alto das cordilheiras e lá passou a liderar um grande e magnífico exército para libertar todos os povos oprimidos e explorados. Ainda não se sabe ao certo o que lhe acontecera depois que passou a acompanhar o rastro do misterioso coleóptero. Existem várias versões sobre esse ponto. Uma delas, sem dúvida a mais coerente, é a que vai ser narrada em seguida.

* * *

Impulsionado por um desejo incontrolável de descobrir o mistério que envolvia o seu protetor, Juan Tengonon atravessou florestas e transpôs difíceis obstáculos, sem jamais perder de vista as cores reluzentes. Fala-se que ele estava sofrendo de um encantamento por causa dos matizes, o que é bem provável em virtude das circunstâncias. Qual humano não seria hipnotizado pelos estranhos acontecimentos? Só muitas horas depois, percebera um fato notável: aquilo que ele supunha ser as marcas do descomunal inseto tratava-se, na realidade, de um magnífico arco-íris. Até então, o besouro nada mais fizera do que voar no interior das cores, como se seguisse uma rota predeterminada, como se no extremo para o qual se dirigia estivesse a explicação do mistério  e o fim (ou o começo) de todas as lendas. Talvez seja mesmo verdade. Senão, como explicar o fato seguinte?

Quando estava próximo de atingir o limite de sua ansiedade, Juan Tengonon chegou a uma região cuja natureza era completamente diferente da que ele conhecia até então. Nesse local, descobriu uma caverna de onde emergia um jato contínuo e transparente de cores vivas e variadas: a fonte do arco-íris? Sem pensar duas vezes, perplexo e maravilhado, entrou imediatamente pela abertura. Uma vez chegando ao seu interior, com a angústia natural diante daquela ocasião tão rara, grande também foi o seu espanto ao constatar que, ao invés do inseto, encontrava-se ali um imenso ninho de armas: fuzis, metralhadoras, canhões, pistolas e outros mecanismos formavam um espetacular arsenal, digno apenas dos imbatíveis exércitos. Pela primeira vez, depois de tantos e tantos anos de sofrimento e humilhações, experimentou um majestoso sentimento de poder e vingança ao examinar todo aquele poderio. Observou também que, ao redor delas, brotava toda espécie de flores, espécies exóticas e raras, que nunca tinha visto em toda sua vida, com as mais surpreendentes cores e os mais diferentes formatos. Eram elas, essas absurdas flores, que irradiavam os raios do fenômeno. Cada cor se desprendia de uma espécie diferente, entrelaçava-se no ar com os outros matizes para galgar depois, e suavemente, o céu.

Sem saber onde fixar a sua perplexidade, entre sentimentos contraditórios, agradeceu as estranhas forças que o conduziram até aquele tesouro. Graças à descoberta desse arsenal, cujas armas pareciam não se esgotar nunca, Juan Tengonon começou a organizar um exército. Os deuses da guerra justa, é verdade, têm engenhosos meios de prestar sua serventia aos pobres injustiçados da Terra. Porque ele sabia que abaixo das cordilheiras, nos inúmeros fortes que protegem as regiões de fronteira, há sempre um pelotão tresloucado de fuzilamento pronto para disparar, com escárnio, contra o corpo de pobres e indefesos camponeses. Que os soldados, na sua desprezível ignorância, repetindo os seus superiores, chamam de vagabundos, baderneiros ou comunistas.

Tag's: conto, literatura, Luís Araujo Pereira

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