[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
da possibilidade de encontrar um psitacídeo intergaláctico
os grandes mamíferos das águas que são pescetarianos
não tomam coca, querem mergulhar
reduzir o consumo de coca ainda é produzir coca
tomar coca light ainda é produzir coca
reutilizar o vidro de coca ainda é produzir coca
reciclar o vidro de coca ainda é produzir coca
a pele do capitalismo adora esse tipo de cócegas
tomar nenhuma coca ainda é produzir coca
queimar queimar
a fábrica de cocas
***
[2]
namazu
os peixes-remo medem aproximadamente seis
metros. quando aparecem, dizem aos japoneses
que é tempo de terremotos. a gramática diz:
sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto
causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo
sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis.
as relações da causa e consequência do influxo
e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não
são totalmente conhecidas. há quem diga
que todo humano é prelúdio de incêndio.
há quem acredite que toda carbonização
é prelúdio de humano. não se sabe se houve
guerra porque existem humanos ou existem
humanos porque houve guerra.
aos humanos quando os vemos
resta contar a lenda de um primata que corre como
planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi
e sabe como provocar terremotos.
***
[3]
Felis catus não fênix cactos
escrever um poema é como
acariciar um gato arredio
se à sua porta
ele decide:
penetrar em silêncio
com sede
ou a contínuo
e primitivo uivo
importante é que veja-me:
isso não é
defaunação intratorácica
é melhor que queira
subirei a sua janela
com unhas anciãs recém-paridas
destruirei suas redes de proteção
passarei horas em sua barriga
fazem-me cócegas suas cãibras
lombrigas/gases/preocupações
fique completamente quieta
tudo que peço é acaricie minha testa
novamente
novamente
ficarei de canto,
esqueça-me
vou miar com fome:
me olhe.
se fico de canto
um susto
batidas em sua porta
bato a sua porta
lembre-se:
eu preciso entrar
vou te deixar
com marcas
dos meus dentes
em sua canela
toda vez que passar por mim
arquearei as costas
para que dê um pulo
humana minha
tenho todas as vidas
mas rápido posso morrer
se você não souber
onde colocar o raticida
***
[4]
nenhuma gentileza nas mãos
acabei de descobrir tenho
um corpo nele tem: palavras
cômodos, lâmpadas uma casa
inteligente orgânica toda
dinâmica se batem palma é para
que algo se acenda. meu antigo
problema de esquecimento foi
solucionado. um corpo nunca
esquece onde estão as chaves
descobri que tenho um corpo
há sinais: desastres hídricos
geológicos incêndios emanações
vulcânicas menstruações inundações
descobri que todo corpo é horta-praga
assim se faz uma vizinhança. confusão
entre vizinhos: o seu telhado sobre o meu
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[5]
ladainha
a costureira uma vez me disse:
sem fitas métricas em mãos usa-se
os dedos próprios, é necessário espalhar
intriga: olhe anelar como netuno tem anéis!
olhe mindinho brotará qual etnobotânica
para restaurar suas margens assoreadas?
do meio há tempos não te vejo coberto, nem ereto.
indicador essa estrada do autoafago é em vórtex
e no fim você indica uma dúvida,
o dedo das provocações.
polegar isso não é um ângulo de 90°!
repita o processo com as outras mãos
envolvidas na contagem
se duas mãos, é metade de um metro
assim se mede: se entre
eu e você as mãos ainda não se
abocanham, é dia. se ambas as mãos constroem
silêncios: é noite.
se da última seringa até a próxima
em seu bicho de estimação
houve uma mão: defaunação. duas
ou mais: regurgitação.
para verificar a
saudabilidade da fauna:
se no espaço entre um passo e outro
a distância é
igual ou menor que uma mão
é rugido de bicho forte,
mais que uma: escapulário.
se na plantação, as mãos são todas da mesma cor
agronegócio, pluridiversas:
agroecologia.
se entre dois bichos que brigam
há duas patas levantadas: território
duas patas levantadas que tremem:
continuação da espécie.
da última vez que te vi: se há uma mão
fabulação de indicadores
duas ou mais: é geriátrico
o nosso amor.
Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 15 de novembro de 2000. Graduada em Ciências Biológicas Bacharelado na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) em 2023, atualmente cursa o mestrado em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na mesma instituição. Além de bióloga, é poeta e educadora popular. Realiza pesquisas na área de etnoecologia, com ênfase no campo de redes de troca de sementes e mudanças climáticas. Seu livro de estreia amarelo mostarda, do qual foram extraídos os poemas que ilustram esta coluna, foi publicado em 2024 pela editora Nauta. Também tem poemas publicados em antologias e revistas (Há quarenta e seis pés, Totem&Pagu, Cassandra, Aboio, Ruído Manifesto, Casa Inventada, Oficina Literária da Revista Cult, Jornal Rascunho e Relevo). Ganhou o segundo lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 (Trevo) e participou do Clipe Poesia 2023 na Casa das Rosas.





