• Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter

ERMIRA

  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
  • Sobre Ermira
  • Colunas
    • Aboios
    • Arlequim
    • Arranca-toco
    • Chapadão
    • Chispas
    • Dedo de prosa
    • Errâncias
    • Especial
    • Espirais
    • Florações
    • Margem
    • Maria faz angu
    • Matutações
    • Miradas
    • Mulherzinhas
    • Projeto Ensaios
    • NoNaDa
    • Pomar
    • Rupestre
    • Tabelinha
    • Terra do sol
    • Veredas
  • Contribua
  • Colunistas
  • Contato
Imagem: Dog lying in the snow (Franz Marc, 1911)
Imagem: Dog lying in the snow (Franz Marc, 1911)
Imagem: Dog lying in the snow (Franz Marc, 1911)

Marília Fleury em Pomar Designer e curadora | Publicado em 3 de agosto de 2025

Marília Fleury
Designer e curadora
03/08/2025 em Pomar

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp
← Voltar

Happiness blasé

Daí que…o quê mesmo? Não sei não. Algo como desaprender a conversar, algo como a inevitabilidade da internet, algo como um particípio não presente, algo como “vou baixar um aplicativo para você”, algo como “ah, tá”. Aí que escolhi um rosto que me pareceu confiável e que dizia ser engenheiro arquitetônico.   Definitivamente não parecia ser um serial killer, até comentei isso, esclarecendo que eu não me excluía, pois eu também poderia ser uma golpista, uma serial killer,  uma serial stolen deceptive situation (ou seja, uma roubada), nunca uma serial lover. É, qualquer um pode ser qualquer coisa, independente da aparência, isso é fato. Quando me vejo no espelho, não acho que pareço nem boa nem má, nem irônica ou severa, mas muita gente diz que sou bondosa como minha mãe.  Umas duas ou três já me disseram que sou um anjo.  Minha cara, porém, não me diz nada. Eu me esforço, no entanto, para ser uma boa pessoa, que é o melhor que a gente pode ser na vida.  Mais do que isso? Impossível.

Informou que seu lugar de origem era a Finlândia. E quem não pensa no Papai Noel e em paisagens geladas quando escuta esse nome? Todas as informações me pareceram corretas, tudo certo, escrevia corretamente, para minha surpresa, e disse que estava no Brasil há um ano. Tudo certo. Em alguns perfis, nas descrições de gostos, topei com “frango de padaria”, e fiquei pensado em qual padaria tem frango assado. Nunca vi por aqui. Ou seria uma gíria para algo suspeito, impróprio? Morrerei sem saber.                                

 Ele tinha uma expressão bondosa. Mas meu tempo é bem curtinho, então eu escrevia umas frases curtas, mais econômicas mesmo, informações breves. Achei que seria estranho propor “vamos conversar sobre arquitetura, que adoro, ou sobre literatura e arte”. Um primo, que sempre ia a dates, me disse que havia conversado por mais de duas horas com uma date ou quase namorada ou… qualquer outra denominação que ainda não conheço. E, sério, com duas horas, eu contaria minha vida inteirinha, desde o primeiro choro do nascimento.

Então, duas horas conversando, pelo menos meia hora para fazer as unhas, mais de hora para tingir e lavar o cabelo (e olha que nunca penteio ou faço escova,  pois o mago Alair me livra disso), quinze minutos para me vestir, um tempo razoável para sair de casa e ir a algum lugar, mais algumas horas de conversa. Jesus!!! É preciso muuuito tempo disponível, muito espaço mental, um repertório considerável de assuntos, traquejo emocional e social e, nesses dois últimos quesitos, não me garanto, não.

Mas até tentei, fornecendo algumas informações meio vagas, não comprometedoras, dando uma olhada no celular num espacinho de tempo vago (é, muita gente da minha idade ainda não alcançou aquela bênção semanal ou mensal denominada “um dia pra chamar de seu”), respondendo a alguma pergunta, interagindo (?).

Num certo dia, depois de um espaço de tempo sem uma mensagem respondida ou, sei lá, parece que nem localizei mais a pessoa. E quem disse que sei mexer nesse trem? Foi a deixa para sumir também. Uma amiga vizinha também me cabrereou com um marido recente com problemas neurológicos.  Justamente agora que eu ia viver a minha vida? – aflitou ela. Já tinha cuidado de filhos, pai, mãe, irmão, sofrido com ex-marido casca de pereba… É,  parece que só depois dos 60 algumas pessoas conseguem viver essa coisa bem rara, A MINHA VIDA, que costuma ficar escondida nos parangolés alheios, só aparecendo depois de muito garimpo, numa pesquisa detalhada.

Desinstalei o aplicativo e fiquei mais tranquila, aliviada mesmo. Certo que ainda penso se a pessoa existe mesmo nesse obscuro território da internet e, se existe, seria uma pessoa real, teria uma identidade própria ou teria criado um personagem, um alter ego? Nada demais, até eu criaria um alter ego se relasse timidamente um Fernando Pessoa, mas já me acostumei tanto comigo mesma, que gosto da minha companhia assim desse jeito mesmo.

Pesquisando corpo e mente adentro sentimentos de solidão e de tristeza, não encontrei nem mesmo o mais leve sinal de uma traiçoeira e incipiente macacoa (aquela série de sintomas fisicos, mentais e espirituais que podem derrubar uma criatura). Nadinha.

Quando saio para comprar o pão nosso de cada dia, a Nina, cachorra de rua que apareceu e nunca deixou de ser de rua, se espreme pelo vão da grade e vai comigo. Ela corre na minha frente e, vez ou outra, se volta para conferir se continuo indo. Tem porte médio em p&b e corre/anda com muita graça e leveza, tipo andando com as patas dianteiras e saltando com as traseiras, como se bailasse. Há alguns anos, luminou um tanto de filhotinhos lindos, depois foi operada. O tempo passou, e ela corre por aí quando bem quer e volta quando lhe apetece, reservando um horário matinal para tomar sol na calçada de frente. Quando escuta ruídos passeísticos, como a fivela da coleira do Black, solta alegres ganidos de entusiasmo até alcançar a rua. Satisfeita, sem dúvida. Solteiríssima.

Tag's: crônica, felicidade, internet, literatura

  • Rato na gaiola

    por Luís Araujo Pereira em Espirais

  • Do outro lado do rio

    por Rosângela Chaves em Dedo de prosa

  • A sensibilidade autobiográfica de Jheferson Rosa

    por Paulo Manoel Ramos Pereira em Veredas

  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google +
  • Compartilhar no WhatsApp

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.

1 comentários em “Happiness blasé”

  1. Erika Tanuri disse:
    3 de agosto de 2025 às 14:06

    Adoro as crônicas da Marília! Inteligentes e divertidas! E eu também acho que ela é um anjo!

    Responder

Deixe um comentário (cancelar resposta)

O seu endereço de e-mail não será publicado. Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

ERMIRA
  • Instagram
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter