Meu bisavô era um marroquino que se apaixonou pela minha bisavó espanhola, e essa história de amor me fez sonhar em conhecer a Espanha e o Marrocos. Minha bisavó aciganada se chamava Rita de Cassia Carmem Dolores Lupita de La Natividad, e meu bisavô judeu marroquino se chamava Pio José da Silva, um visionário, que mudou seu nome quando foi para Portugal, fugindo da perseguição aos judeus na Segunda Guerra Mundial.
Essas histórias tecem uma família, a cultura de um povo nunca se extrai com a mudança de país – seja por vontade própria, seja por conta das guerras –, como forma de assegurar a continuidade da vida e dos filhos. Os traços da terra-mãe só muito mais tarde os compreendemos, comportamentos dissonantes do país que os acolheu, neste caso familiar, o Brasil.
Mas, particularmente, o que mais me chamava a atenção era o tratamento dispensados a nós, filhos e netos: o carinho e a paciência com que fomos educados.
No outro lado da minha árvore genealógica, tenho um bisavô português, Honório Porto, e uma bisavó, Benedita Teodoro da Silva, filha de pai africano. Ele, o pai da minha avó, veio para o Brasil para trabalhar em fazendas de café no interior de São Paulo, onde minha avó nasceu.
Essa árvore genealógica me fez querer conhecer os países de onde veio minha família.
O primeiro país que visitei foi Portugal. Minhas memórias da casa do meu avô são dos pratos servidos durante os almoços de domingo. A mesa farta com o toque apimentado africano da minha avó Benedita.
Conhecer a Espanha foi entender o hábito de tomar café na rua, na minha infância em Goiânia, quando não existiam lugares para tomar café pela manhã como hoje. Mas sempre dávamos um jeito. A paixão pelas roupas coloridas, tamancos …Por outro lado, meu avô paterno Egerineo trouxe a paixão pela leitura, pelos estudos, pela escrita. A biblioteca do meu avô era belíssima, com variados títulos e todos acessíveis à criançada, nada era proibido.
Mas, cá estou no Marrocos, no continente africano. Fico imaginando que meus bisavós se conheceram devido ao Estreito de Gibraltar, localizado entre o norte do Marrocos e o sul da Espanha, são 13 km que separam a África da Europa.
Marrocos, um país ao noroeste da África banhado pelo Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, onde se encontra a Cordilheira do Atlas, cortada por cânions e desfiladeiros. O pico mais alto com 4.167 m de altitude fica dentro do Parque Nacional Toubkal.
Além da Cordilheira do Atlas, na costa oeste do Marrocos há a Planície Atlântica, no sul, o Deserto do Saara e, no norte, a região Tânger – uma cidade cosmopolita que se encontra entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, na entrada ocidental do estreito de Gibraltar, que separa o Marrocos. Fico imaginando essa mescla de culturas, de sabores, cores.
É muito gratificante conhecer um pouco da história e da cultura marroquina para conseguirmos absorver nossa imersão no país. Estar numa cidade como Fez, fundada em 789 d.C. pelo sultão Idris, é uma experiência única. É uma cidade medieval onde a história se encontra com a arte representada numa arquitetura com ruas sinuosas e estreitas, um labirinto, característica das medinas . A Medina de Fez é considerada uma das maiores e mais bem preservadas do mundo árabe. Uma medina é a parte antiga da cidade, cercada de muralhas, tendo como característica, além das ruas estreitas e sinuosas, casas e prédios históricos, centro comercial com artesanato e cultura que abrigam importantes tradições e costumes, além das mesquitas. As mesquitas são projetadas com elementos da arquitetura islâmica com cúpulas, miranetes, arcos e Mihrab, que são os nichos nas paredes da mesquita que indicam a direção de Meca. Meca é a cidade sagrada dos mulçumanos, localizada na Arábia Saudita. É considerada a cidade mais sagrada do Islã. Foi fundada pelos descendentes de Ismael, filho de Abraão.
Algumas curiosidades que descobri em Fez:
- foi a capital do Marrocos do séc. XII ao séc. XIV. Foi no período do protetorado francês que ocorreu a mudança da capital para Rabat (1912), em razão de fatores como localização estratégica, controle político e desenvolvimento econômico;
- dentro da medina, o sistema de esgoto é da Idade Média e funciona perfeitamente;
- a porta das casas é um indicativo da riqueza de seus habitantes. Quanto mais suntuosa a porta, mais rico é o seu morador. Tem sempre duas formas de se bater na porta: existem duas aldravas feitas de metal ou madeira, a que está mais em cima é para homens e desconhecidos e a que está mais embaixo é destinada às mulheres e familiares. São representações da hospitalidade e da abertura para quem está chegando, diferenciadas pelo som de cada aldrava;
- no bairro histórico de Mellah, conviviam e convivem judeus e mulçumanos pacificamente. A cidade tem uma longa história de tolerância e respeito pelas diferentes religiões e culturas;
- todo bairro tem uma creche, uma casa de banho (hamamm), um forno comunitário e uma fonte de água;
- nos cemitérios (makbara), localizados sempre perto de uma mesquita, todas as tumbas são orientadas para Meca, que é a cidade sagrada do Islã;
- o Palácio do Rei em Fez é o maior do país, o Dar-al-Makhzen. Tem uma mistura de vários estilos arquitetônicos, com uma fachada e um jardim impressionante de tanta beleza. Em toda extensão ao redor do Palácio Real, há laranjeiras que perfumam e embelezam com suas flores e frutos de um alaranjado contrastando com as folhas verdes da árvore;
- Fez abriga a primeira universidade do mundo! Se chama Al-Karaouine e foi fundada em 859 d.C. pela tunisiana Fatima al-Fihri, tornando-se um centro importante de aprendizado e cultura, em que os eruditos islâmicos traduziram obras gregas e romanas para o árabe. Alguns dos eruditos mais famosos que estudaram e ensinaram na universidade: Ibn Rushd – Averróis e Ibn Sina – Avicena. Ibn significa ser filho: Averróis, filho de Rushd, e Avicena, filho de Sina.
Isto é apenas um recorte do que experienciei em minha viagem pelo Marrocos. Todas essas informações foram passadas para nosso grupo de viagem por uma brasileira apaixonada pelo país, Érica Fer, que, junto com Fouad (nossos guias locais), nos fizeram viver uma experiência única numa viagem incrível pela agência Priori Senior, através das guias Carolina Loyo e a Mi Hyan.
E tem muito mais: o deserto, a paisagem, a comida, e a experiência de tomar chá com os nômades.








