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Foto: Divulgação
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Gilberto G. Pereira em Veredas Jornalista e mestre em Sociologia pela UFG | Publicado em 10 de agosto de 2025

Gilberto G. Pereira
Jornalista e mestre em Sociologia pela UFG
10/08/2025 em Veredas

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Os agentes da extinção

Achei que quando o fascismo voltasse, apareceria vestido em cores alegres e amistosas, para que fosse mais difícil reconhecê-lo.

Um engenheiro francês

Em Coração das Trevas, de 1899, Joseph Conrad criou um personagem que se imortalizaria na literatura e no cinema, o capitão Kurtz, homem solitário e cruel que, na sanha de civilizar o mundo, embrenhado em plena selva africana, se incivilizou, enlouqueceu, matou muita gente e morreu.

Em um dos trechos do romance, Kurtz escreve um relatório sobre os “selvagens” para a matriz do Império (Bélgica) a que ele servia. Charles Marlow, testemunha da nefasta vida de Kurtz, disse que o documento finalizava com o imperativo: “Exterminate all the brutes!” (“Extermine todos os brutos”, em tradução livre). Os brutos, ou selvagens, bestas, animais, seres irrecuperáveis fadados à extinção, eram os africanos.

Na primeira vez que leu esse livro, o escritor sueco Sven Lindqvist (1932-2019) entendeu a frase como um elemento de retórica literária, uma fantasia nascida do pensamento exterminatório de Herbert Spencer, palavras que “não passavam de excentricidades pessoais”.

Depois, com leituras mais acuradas daquele período, percebendo que havia um séquito de “boas almas” defendendo princípios parecidos, entendeu que aquela lama de desprezo e vontade de matar escorria dos mais nobres corações da Europa.

Entendeu que as trevas impressas no título do livro de Conrad não eram apenas a selva africana, mas também as intenções de seus conterrâneos, uma metáfora de seu próprio continente, cujo nome em línguas semíticas significa o pôr do sol, a escuridão.

Lindqvist então decide trilhar o sangue deixado pelos europeus, mapeando a história da maldade colonial. O resultado foi o livro Exterminem Todos os Malditos – uma viagem a Coração das Trevas e à origem do genocídio europeu (Editora Fósforo, traduzido do sueco por Guilherme da Silva Braga). E não fez feio.

Publicado originalmente em 1992, o livro chegou ao leitor brasileiro 31 anos depois, em 2023, mas veio numa boa hora, porque é justamente agora que estamos acirrando a discussão sobre o nefasto legado do colonialismo, enquanto há uma contrapartida com discursos e práticas muito semelhantes às velhas empreitadas coloniais.

A memória da colonização, com toda sua violência ao longo de cinco séculos, é pesada. Talvez por isso seja tão vagaroso trazer para a consciência sua prática insana de genocídios e exploração escravista, de estupros e mutilações, de terra arrasada e perversidade.

Talvez por isso, esse imenso conhecimento deva vir de diversas formas, e de muitos pontos de vistas. Livros, séries de tevê, documentários, filmes de ficção, romances, temos muitos exemplos pelos quais podemos optar para ter acesso aos episódios de uma das escaladas de dominação mais violentas que a humanidade jamais testemunhara.

O livro de Lindqvist é um bom começo de conversa sobre esse assunto. “A Europa pré-industrial não tinha muito a oferecer ao mundo. Nosso principal item de exportação era a violência”, diz o autor.

Segundo ele, o poderio armamentista começou a ser força colonizadora quando se inventou o barco a vapor, que passou a levar canhões europeus rio acima na Ásia e na África, na metade do século XIX, dando início a uma nova época na história do imperialismo e do racismo.

Ou seja, essa já seria a segunda parte, porque a primeira fora realizada nas Américas, onde os indígenas foram quase dizimados, e os africanos tinham sido trazidos como escravizados e submetidos a todas as atrocidades que os europeus repetiriam na própria África e na Ásia.

Nessa época, a força militar começa a ser vista como uma “superioridade intelectual e até mesmo biológica”, diz Lindqvist. Passam a defender que “a superioridade técnica garante o direito a aniquilar o inimigo mesmo quando este não tem como se defender”.

Projeto de extermínio

Armados, sentindo-se deuses inatingíveis, os europeus encontraram nas teorias absurdas de classificação humana a desculpa que faltava para o racismo, fazendo ganhar força a ideia de que a humanidade era dividida entre raças superiores e inferiores, e essas estavam fadadas à extinção.

O hall de citações de gente considerável que defendia o extermínio dos negros africanos e toda a horda das gentes não brancas não está no gibi. Era todo mundo, ou quase. Winston Churchill, por exemplo, disse que das guerras coloniais na África, a Batalha de Omdurmã, de 1898, no Sudão, da qual ele participou, foi “mais um emocionante capítulo de um esporte maravilhoso”.

Até Darwin se entusiasmou com a possibilidade de extinção dos não brancos. Lindqvist cita passagem do capítulo 6 de A origem do Homem (1871), em que o evolucionista britânico diz: “Hoje existem, entre os macacos e os homens civilizados, formas intermediárias como os gorilas e os selvagens. Em futuro que, contado em séculos, não há de ser muito longo, as raças dos homens civilizados sem dúvida devem extinguir e substituir as raças selvagens mundo afora”.

Ou seja, havia um projeto de extermínio, com fundamentação pseudocientífica, e esse projeto durou séculos como política de Estado. O racismo foi seu dispositivo, um dispositivo tão bem-sucedido que continua ainda hoje desempenhando o papel de manter os não brancos em lugares de subalternidade.

Segundo Lindqvist, o livro que fundamentou o racismo como afirmação científica na cabeça dos aloprados da supremacia branca foi The Races of Men. A Fragment (As Raças Humanas – um fragmento, em tradução livre), de 1850, do médico escocês Robert Knox.

Essas marcações históricas são todas sempre borradas. O discurso de que os negros eram abjetos, animais sem alma e imundos, vem de muito mais longe. De acordo com o historiador afro-americano Ibram X. Kendi, quem lançou a pedra fundamental do racismo moderno foi o português Gomes Eanes de Zurara, no livro Crônica do Descobrimento e Conquista da Guiné, de 1450.

Mas antes disso, já havia quem justificasse a escravização dos negros africanos. Registro históricos não faltam. A novidade no livro de Knox é a fundamentação pseudocientífica.

Em todo caso, como nos ensina a psicanálise, a memória não apaga nada. Pelo contrário, ela é a responsável por trazer à consciência aquilo que a consciência faz questão de esconder. E, assim, Lindqvist vai expondo as atrocidades dos colonizadores europeus e mostrando como isso apareceu no romance de Conrad.

Para Lindqvist, Conrad faz uma severa crítica ao imperialismo. Em 1897, Robert B. Cunninhame Graham põe em seu romance Bloody Niggers um personagem para dizer palavras que traduzem o pensamento sem filtros dos colonizadores.

“Os negros não têm canhões e, portanto, não têm direitos. A terra deles é nossa. Os rebanhos e os pastos, as ferramentas e tudo mais que possuem é nosso – como as mulheres são nossas para tomar como amantes, espancar e fazer escambo, nossas para infectar com sífilis, engravidar, humilhar e atormentar ‘até que o mais vil dentre os nossos vis torne-a mais vil que um bicho’.”

O romance de Graham mostra sem sutileza tudo o que é dito em Coração das Trevas, só que, agora, com a mais refinada das narrativas, sugerindo, simbolizando e metaforizando a violência que expõe todo o horror, o horror.

Espécie inferior de animal

Os livros de ficção científica de H. G. Wells também serviram de espelho para Conrad no jogo de metáforas e analogias que eles apresentam. Em A Máquina do Tempo (1895), o protagonista chega ao futuro e se depara com “criaturas noturnas do subterrâneo, conhecidas pelo nome de ‘morlocks’”. Eles são os africanos, e são horrendos canibais.

Em A Ilha do Doutor Moreau (1896), metaforicamente, o colonizador civiliza os selvagens africanos. “Assim como o colonizador civiliza as raças inferiores e animalescas com o chicote de hipopótamo, o Dr. Moreau civiliza os animais com instrumentos de tortura. Assim como o colonizador tenta criar um novo tipo de criatura, o selvagem civilizado, o Dr. Moreau tenta criar o animal humanizado.”

Em O Homem Invisível (1897), o protagonista acidentalmente se torna invisível e, depois do choque da transformação, passa a adorar a nova vida em que podia fazer tudo sem ninguém ver, a ponto de matar todos os que se opunham a seu reino do terror.

A metáfora nesse caso é a ideia de que os colonizadores são invisíveis porque têm “armas capazes de matar à distância”, sem que ninguém os veja, e também porque, “em seu país natal, os cidadãos não têm ideia das atrocidades que cometem nas colônias”.

No romance A Guerra dos Mundos (1898), os marcianos matam “como uma mão invisível” e veem a humanidade “como uma espécie inferior de animal”. “Em relação aos britânicos, os marcianos adotam o mesmo tipo de superioridade que os britânicos adotam em relação às pessoas não brancas.”

Não inferiores, mas vulneráveis

Lindqvist descreve seu livro como uma “prosa ensaística literária misturada a descrições de viagem”. De fato, é um livro de viagem, mas não pela presença física do autor na África. Ao longo da narrativa, ele passa por seis cidades ou vilarejos do Saara africano (Argélia e Níger), e faz descrições que quebram um pouco a tensão da história principal.

Mas a viagem que conta de verdade é pelo coração das trevas da Europa colonizadora, genocida, assassina. Uns países mais, outros menos. Suécia, por exemplo, terra de nosso autor, também traficou escravizados para o Caribe, tem sua parcela no sombrio legado. Mas os protagonistas da vergonha foram Grã-Bretanha, EUA, França, Holanda, Portugal, Espanha e Bélgica.

Outros, no começo, se abstinham de envolvimento, até que foram convencidos pela facilidade de matar pessoas e tomar suas terras. É o caso da Alemanha que, antes de parir o nazismo e dar o poder ao austríaco Adolf Hitler – responsável como tomador de decisão de assassinar seis milhões de judeus –, aprendeu o ofício da carnificina matando os indefesos e pacíficos povos herero, no Sudoeste africano (Namíbia), em 1904.

Segundo Lindqvist, guiados por uma pseudociência, os europeus do século XIX criaram uma pseudoética evolutiva, que consistia no seguinte. “Na natureza, o mais alto vence o mais baixo por toda parte. As raças mais fracas morrem, ainda que o sangue não corra. Esse é o ‘direito da raça mais forte de exterminar a mais fraca’.”

Acontece que não existem povos superiores e povos inferiores. Existem, isso, sim, povos vulneráveis diante de potências armadas. E o exemplo maior de toda essa história está diante de nossos olhos.

O povo judeu, outrora massacrado como um povo inferior, vítima do discurso antissemita, vulnerabilizado por uma série de circunstâncias da época, agora – após ganhar o direito de ter sua terra, armado até os dentes e sob a proteção da maior potência militar do planeta – vê seu governo massacrando um povo vulnerável, os palestinos.

Outro exemplo são os chineses. Potência global na Antiguidade, encontravam-se vulneráveis nas primeiras décadas do século XX com imposições das potências colonizadoras do Ocidente (outro nome, que em outra língua, o latim, também significa pôr do sol, escuridão), e eram humilhados pelos japoneses. Agora, põe-se de pé como uma das nações mais poderosas do mundo, ao lado dos EUA.

Em 2021, o livro de Lindqvist foi adaptado para a minissérie Extermine Todos os Brutos, pelo serviço de streaming Max, sob a direção do documentarista haitiano Raoul Peck (que fez Eu Não Sou Seu Negro e Silver Dollar Road, por exemplo).

Livro: Exterminem Todos os Malditos – uma viagem a Coração das Trevas e à origem do genocídio europeu

Autor: Sven Lindqvist

Tradução: Guilherme da Silva Braga

Editora: Fósforo

Preço: 89,90

Tag's: colonialismo, literatura, literatura sueca, Sven Lindqvist

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