[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que pássaros sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarde um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Guardar (1996)
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Solo da paixão
O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar:
que ela sequestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
depois devolva tudo: terra céu e mar.
Guardar (1996)
⃰ ⃰ ⃰
[3]
Canção do amor impossível
Como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada à poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia
A cidade e os livros (2002)
⃰ ⃰ ⃰
[4]
História
A história, que vem a ser?
Mera lembrança esgarçada
algo entre ser e não-ser:
noite névoa nuvem nada.
Entre as palavras que a gravam
e os desacertos dos homens
tudo que há no mundo some:
Babilônia Tebas Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.
A cidade e os livros (2002)
⃰ ⃰ ⃰
[5]
Nihil
nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu
Porventura (2012)
Antonio Cicero Correia Lima nasceu no dia 6 de outubro de 1945, no Rio de Janeiro, e morreu em 23 de outubro de 2024, em Zurique, na Suíça. Estudou filosofia na PUC-RJ e no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Na Inglaterra, concluiu o curso de filosofia na Universidade de Londres. Sua pós-graduação foi realizada na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, em 1976. Foi professor de Filosofia e Lógica em universidades do Rio de Janeiro. Na área da filosofia, publicou O mundo desde o fim (1995), Finalidades sem fim (2005), Poesia e filosofia (2012), Poesia e crítica (2017), O eterno agora (2024). Como poeta, deixou três livros: Guardar (1996, Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira), A cidade e os livros (2002) e Porventura (2012). Foi letrista de sucessos na música popular brasileira, tendo parceiros como Marina Lima (sua irmã), Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, João Bosco, entre outros músicos. Em 2025, a Companhia das Letras publicou Fullgás, que reúne sua poesia e letras de canções. Em posfácio, a escritora e crítica literária Noemi Jaffe teceu a seguinte consideração sobre sua poética: “Odes, elegias, nênias, figuras mitológicas, métrica rígida, rimas toantes e soantes, léxico elevado, sintaxe escorreita, contemplação homoerótica, elogio da beleza e da juventude, carpe diem, tempus fugit são apenas alguns dos elementos clássicos greco-romanos a serem adotados por Antonio Cicero e distribuídos à farta em seus três livros de poesia” (p. 220).





