Pois bem, entre a linguagem e a insuficiência do real está a possibilidade – filosofia. Heráclito afirmou o não-ser, mas a linguagem demonstrou o ser, isto é, o ser enquanto ser. Entretanto, a existência aparente ou não, em seu sentido mais forte, é a realidade formal e, portanto, o ser e o não-ser, ao mesmo tempo, são e não são reais. Pensar na linguagem é pensar para além do aqui agora, do que é eterno em nós. Ora, criar possibilidades é um ato de criação do pensamento, como uma beleza do incômodo. Mas e a linguagem? É o incômodo da ausência – quer dizer, como uma vontade de abraçar o “infinito” racional. Tanto melhor, a efetivação do real é imediata, mas na linguagem é a ideia de um melhor possível. Perceba, então, qual a excelência do acontecimento quando se está doente: é pensar na doença ou é pensar em Deus? Em algum sentido, a linguagem é uma necessidade para a contraefetuação do mundo imediato e demasiadamente material. Ou seja, há linguagem suficiente em não pensar em nada. Heráclito, por exemplo, afirmou o nada ou o não-ser das coisas. Assim, pensar o não-ser é a evidência da linguagem como existência do nada. Essa contemplação, a “verdade” possível da hora ao não pensar em nada, é pensar em nada? O silêncio não é nada, mas somente ausência da linguagem.
A filosofia da linguagem não é uma linguística aplicada e, sim, filosofia em-si mesma, porque opera um tipo de dobra. Isto é, o conceito do conceito, o significado do significado. Posto isso, a questão fundamental é: qual a relação entre a linguagem e a realidade? Se se assim for, tudo é linguagem e, portanto, cria-se a realidade. Em outros termos, a linguagem ocupa o silêncio das coisas e, assim, a existência das coisas está na linguagem. Mas o que é significado? Aqui, encontramos toda sorte de respostas, ou seja, a função do significado é relacionar a linguagem e a realidade. O significado, então, é a “verdade” possível de conhecer. Ou, melhor, é a linguagem das coisas no mundo. Mas o que é “verdade”? E é possível conhecer a “verdade”? Afirmando o procedimento da linguagem, a “verdade” é aquilo que é e aquilo que não é, é a sua realidade significada. Há um mundo enganador, quando Tales de Mileto usou a água para ser o seu elemento primordial, ele empregou a linguagem já significada em seu significante para demonstrar essa “verdade” (mais próxima da medida humana). Nesse caso, a filosofia da linguagem se ocupa dos universais como estrutura lógica referencial de uma possível “verdade”. Sendo assim, a linguagem não é a morte da filosofia, porque, verificando o empreendimento da linguagem e sobrepujando o silêncio das coisas, podemos encontrar o sentido para este mundo aqui e agora.
A chamada virada linguística do século XX colocou a linguagem no centro dos problemas da filosofia. Isto é, a linguagem passou a ser a própria fronteira do nosso mundo. A partir disso, vejamos: há possibilidade de pensamento sem linguagem? Ou, melhor, há possibilidade de pensamento e realidade sem a linguagem? De fato, as formas mais complexas e sistêmicas de pensamento são faculdades lógicas dos humanos. Em outros termos, o humano-social cria o seu mundo e o seu significado através da linguagem. Por exemplo, o mundo moral/político dos humanos é a realidade que nos diferencia dos outros animais e, só e somente só, é possível pela linguagem. Aqui, a ação/ato é, em algum sentido, a finalidade mais concreta da linguagem. Portanto, a filosofia da linguagem também vai se ocupar da pragmática e, do mesmo modo, da semântica e da sintaxe. De forma que há unidade lógica nesse novo signo entre o significado e o enunciado. Esse encadeamento formal como cognoscível é um pêndulo da linguagem, pois a expressão manifestada do pensamento na realidade é a própria linguagem. Para Wittgenstein, os limites da linguagem são os limites do mundo e tudo para além da linguagem é um contrassenso. Ora, a linguagem ocupa o conceito, não o silêncio, das coisas.
Então, quer dizer, o silêncio permanece vazio? O conceitualismo é uma fundamentação puramente lógica, isto é, realizando um tipo de des-concretude – que é como retirar concretude do concreto e, portanto, operar um tipo de suspeição da realidade concreta. Mas tão somente na operação lógica e, a partir, do caso de nominação das coisas: o ser-da-palavra diante do ser-da-coisa. Para Abelardo, o ser-da-palavra não está no som/pronúncia e, sim, na palavra carregada de significado, ou seja, a linguagem não é o som/vazio da palavra, mas a palavra/nome com o seu significado valorado. Enfim, o som já significante da palavra. Porque com um princípio referencial, mediado por uma ideia geral da significância, o que fora o som/vazio da palavra realiza manifestação de sentido e, assim, a palavra/nominação engendra sentido referencial efetivo. O conhecimento, se e somente se, implica esse processo de des-materialização. Ora, a forma (ser-da-palavra) e a matéria (ser-da-coisa) estão compostas na natureza, mas para conhecê-las é necessário decompô-las em juízo. Veja bem, a proposição lógica entre o sujeito <Humano> e o predicado <Humano>. Entretanto, a linguagem é além da predicabilidade conceitual, que, constituída da natureza da coisa, justifica e cria o próprio ser.
Assim dizendo, é a teoria do conhecimento. Ora, qual a origem do conhecimento? Ou, qual a natureza do conhecimento? Nesse sentido, é como pensar o pensamento e o caminho para tornar-se conhecimento. A teoria do conhecimento é a investigação acerca do conhecimento – possivelmente – “verdadeiro”. “Verdadeiro”, aqui, é o mais próximo possível da medida humana em conhecer o que pode ser conhecido. O “verdadeiro”, a nosso ver, é uma realidade natural e não um cognoscível absoluto. Porque circulando o princípio do conhecimento, isto é, a operação do juízo: primeiro, como o fenômeno nos aparece e, segundo, a extensão do conhecimento ao conhecer esse fenômeno. De forma que o conhecimento é um chamado de intimidade, um elogio ao desconhecido, que evoca uma correspondência imediata entre o conhecedor/cognoscente (pensamento) e o conhecido/cognoscível (realidade). A teoria do conhecimento inaugurada o tratado filosófico. Vejamos um breve edifício de conhecer: a operação do conhecimento entre <o Sujeito e o Mundo> opera no limite da linguagem entre o pensamento e a realidade. O conhecimento do ser-da-coisa, ainda em silêncio ou vazio, se dará conceitualmente pela linguagem. Em outras palavras, o conceito das coisas é que vai nos dizer.
Por fim, avançamos para o conceitualismo da linguagem, ou seja, é a relação entre os signos e as ideias e não entre as palavras e as coisas. Portanto, o contratualismo é importante para percebermos esses pressupostos da linguagem, ainda que no silêncio das coisas. Tanto o mundo social quanto o processo civilizatório só foram possíveis por um contrato assinado entre os humanos. Para isso acontecer, a linguagem é o elemento primordial. Esse processo civilizatório diante da contradição imperativa entre o animal-sujeito e o sujeito-social é um estado puro de sobrevivência. A humanidade estipula regras/leis para sua autopreservação e, então, o cuidado-de-nós é a razão prática engendrada no mundo moral/político dos humanos. Porque na dignidade participativa há potencialmente essa abertura para o mundo possível. Em algum sentido, a linguagem é o que nos constitui como humanos em ato e potência. De tal forma que há valoração do fenômeno da linguagem na práxis humana, isto é, tão somente através da linguagem é possível estabelecer este mundo. Assim sendo, categoricamente nosso problema é: é possível estabelecer este mundo sem o uso da linguagem?
O conceitualismo de Locke afirma que o significado é uma mediação psicológica entre o signo e o mundo e, portanto, as ideias são uma semântica do significado. A psicologia da linguagem é o processo de significação, e esse novo significado é realizado pelas ideias ao estabelecer relação entre os signos e as coisas. A linguagem, por sua vez, é o procedimento entre o signo e o mundo, daí, as ideias estão no mundo. Mas o significante desse signo é dado pela linguagem enquanto a ideia é dada pela experiência. Nesse sentido, não existem ideias inatas, porque precisam da linguagem para ter significado como realidade material. Reparem bem: as palavras não são ideias, as palavras são signos das ideias e, assim, criamos signos capazes de comunicar nossas ideias. Perceba ainda como não acessamos as ideias particulares dos outros (o silêncio), acessamos a linguagem comum a todos (o conceito). De forma que as ideias estão no mundo e a linguagem torna essas ideias possivelmente reais. Ora, a partir de um signo externo sensível e de seu referencial efetivo do significado, o silêncio das coisas pode vir a ser a própria linguagem das coisas; contanto que realizado por uma unidade proposicional de sujeito e de predicado, na qual se é possível conhecer essa “verdade” mais oculta das coisas.




