As formigas
Quando vi, um tanto considerável de formigonas parrudas dentro do vidro de açúcar. O vidro era hermético, com tampa também de vidro e borracha, e como é que as danadas tinham conseguido entrar ali?! Será que conseguiam se achatar feito gilete para chegar ao açúcar? Havia mesmo um super-herói que passava embaixo de portas fechadas e se recompunha do outro lado, mas não lembro o nome não. Mas simples formigas?! Virei o vidro, examinei, matutei seriamente e não consegui atinar com nada. Também o que formigas (e pessoas também) não são capazes de fazer por um pouco de doçura?!. Algumas andavam, algumas comiam, outras mergulhavam no açúcar, e não sei que outras surubices não faziam ali dentro. Abri o vidro, sacudi e comecei a tamborilar com os dedos ao redor. Saíram doidas, atarantadas, correndo, tipo está começando o último capítulo da novela ou qualquer outra necessidade urgentíssima. Melhor dizendo, tipo vamos abandonar de vez o hedonismo e cumprir nosso propósito na vida. Moral da história: muitas vezes, tanto os insetos quanto os humanos precisam de uma chacoalhada, um susto, para tomarem rumo e providências na vida. Moral da história dois: os seres racionais ou irracionais são capazes de realizar atos aparentemente impossíveis quando se unem.
Jane e Lilian
Duas assistentes virtuais. Ou uma? Inicialmente e durante muito tempo só uma, a Jane. A Jane, por muitos anos, conseguiu cumprir suas tarefas com eficiência notável. Muitas solicitações, mas ela avisava a posição da gente na fila de espera e, com uma demora razoável (e explicável), finalizava o atendimento, perguntando se podia ajudar em mais alguma coisa e ainda agradecia. Imagino que a Jane tenha estudado no Sion e sido criada por uma austera família mineira de fino trato. Nas últimas semanas, Jane estava visivelmente confusa. Tentei por três vezes cadastrar os exames do meu filho e, por três vezes, ela não conseguiu atender à solicitação, pulando para a pesquisa de satisfação. Dei um tempo. Quando tentei novamente, a Lilian já se apresentou. Que fim teria levado a Jane?! A Lilian, com eficiência harvardiana, pediu os documentos necessários e informou que o pedido levaria três dias para ser analisado. Ok. Hoje, para minha surpresa, Jane já estava de volta à ativa, solicitando a tal pesquisa de satisfação, sem concluir o atendimento. Hipóteses muito prováveis: Jane teve um burnout e precisou ser afastada, sendo substituída pela Lilian, que retornou descansada e pilhada das férias no Caribe, onde topou com o Johnny Depp gravando a próxima aventura de Piratas do Caribe. Jane, mesmo mentalmente abalada, se ressentiu da substituição e voltou ao trabalho sem nenhuma condição, chutando a esforçada Lilian para escanteio. Moral da história: nem mesmo os funcionários virtuais escapam da competição acirrada no mercado de trabalho. Moral da história dois: o Caribe, que não conheço, tem o poder de recuperar física e mentalmente qualquer cristão.
Black e Nina
Black já está por aqui há alguns anos. Foi achado na rua e me doaram limpinho, de gravata, castrado, vermifugado, acompanhado de brinquedo e ração. Bom ouvinte, escuta pacientemente minhas divagações e alguns ralhos esporádicos: fala sério, Black, é isso mesmo que eu estou vendo? A Nina surgiu na obra da casa da minha mãe e por lá ficou. Depois foi castrada, pois nunca deixou de ir para a rua. Um dia, me seguiu e descobriu onde moro. Acabou entrando e ficando de vez. Ressabiados um com outro, acabaram por travar conhecimento e um certo tipo de amizade, e agora brincam juntos. Da janela da cozinha, onde passo longuíssimas horas (na cozinha, não na janela), vejo os dois brincando. Black se afasta correndo, toma distância e pula sobre ela, aproveitando para cheirar suas partes íntimas sem nenhuma cerimônia. Ela vence a timidez e o recato e também pula sobre ele, arranhando seu dorso preto com as unhas pontudas. Muito legal de ver, dá vontade de ir para o sol também e ficar ali, só olhando. Moral da história: não são os opostos que se atraem, são os semelhantes que acabam por se identificar. Moral da história dois: tanto os seres humanos quanto os bichos necessitam de um espaço lúdico e físico para cultivar relações saudáveis e manter a saúde mental.
A máquina
Um período meio frio, e eu ainda acabava indo para a academia à noite. MIssão cumprida, parava diante da máquina de café, colocava uma moeda, um copo plástico, e esperava o Achocolatado Talento Avelã. É, havia os achocolatados também, e o Talento Avelã era o melhor de todos. A coisa era mesmo viciante, recuperadora, um ritual mesmo. Eu chegava a me sentar na poltrona, na sala dos troféus vazia, para tomar o achocolatado confortavelmente. Aproveitava para pensar, e que poder é conseguir pensar, ligar as ideias, juntar os fios soltos, ou romper os fios para imaginar melhor?! Quando faltava o copo, o funcionário na catraca me arrumava um. Tudo certo, tranquilo. Mas, como nada dura para sempre, uma noite cliquei no Talento Avelã e, para minha surpresa e decepção, saiu um mocaccino horrível. Por mais algumas vezes, isso se repetiu. Sério, que mundo é esse em que até as máquinas se enganam? Desisti e, passado um tempo, retiraram a máquina. Comentando com minha filha, ela aventou a hipótese de não ter o Talento Avelã nessas ocasiões, razão pela qual saía o mocaccino, cujo botão era próximo ao do Talento. Moral da história: nem mesmo as máquinas escapam de erros e confusões. Moral da história dois: sempre tem alguém (ou algo) querendo vender, ou vendendo, gato por lebre.
Não sei se já há algum estudo psicológico que analisa o perfil da pessoa a partir de seu comportamento no uso do WhatsApp. Mas, se não há, fica aqui a sugestão. Não é que agora dei para ouvir parte de mensagens e ir respondendo por partes também? Eu não era assim, mas a pressa, a agitação e a ansiedade fazem dessas coisas. Daí que, muitas vezes, tenho que corrigir minhas respostas: ah, eu ainda não tinha escutado essa parte. E olha que ainda tomo remédio para ansiedade! Outra confusão: passar o contato do próprio contato para quem me pediu o contato de outra pessoa. E o sonzinho da notificação? É escutar, interromper o que estou fazendo e verificar a mensagem. E quando alguém demora muito para responder, já penso que algum mal-entendido levou o outro a romper nossa antiga amizade. O estranho é também que a facilidade e rapidez do WhatsApp não faz com que a gente tenha mais tempo disponível, mesmo passando a enviar áudios no intuito de deixar tudo mais rápido. Quando morávamos no interior, e eu era criança, não existia nada disso e o tempo sobrava. Quando era preciso falar com alguém, a gente pegava a sombrinha e andava até encontrar a pessoa. Uma das boas lembranças era andar pasto afora, de mãos dadas com meu avô, até chegar na casa de um conhecido e tomar água fresquinha na caneca de alumínio. Moral (bem óbvia) da história: a tecnologia, quando utilizada em excesso, pode ser um gatilho nocivo para quem sofre de ansiedade. Moral da história dois: nem sempre o que é mais fácil e rápido é mais benéfico e saudável.
O rato
Ele deixava sinais claros da sua repugnante e indesejada presença: furos nas embalagens de mantimentos, fezes, alimentos triturados… No entanto, demoramos alguns tensos dias até nos encontrarmos. Uma noite, ainda cedo, me levantei para tomar água e me deparei com o rato sobre a bancada da cozinha. Eu me assustei muito e creio que ele também se assustou bastante quando acendi a luz, pois desapareceu feito um raio. Eu não tenho estetoscópio, mas coloquei a mão no coração, que estava disparado. Daí fiquei sempre pensando em um jeito cabal de acabar com ele, sem pensar no mais óbvio: o veneno para ratos, talvez porque pensasse no perigo para os cães e em casos de pessoas que morreram acidentalmente (ou não), ingerindo veneno para ratos. Eu desejava vê-lo morto urgentemente. E ele, o que desejava? Certamente roer tudo o que encontrasse pela frente, como é da natureza dos ratos. Chamei a dedetizadora, que me garantiu a extinção do insidioso bicho. Nada. Tirei todos os alimentos da gaveta, e comprei veneno de ratos, com o qual recheei bananas e pedaços de queijo. Ele roeu tudo, na gulodice mesmo, mas nem sinal dele na manhã seguinte. Esqueci de contar que ele também roeu a mangueira do gás, o que resultou em mais susto e prejuízo. No dia seguinte, conferi a gaveta e lá estava ele, mortinho da silva, deitado entre vidros e latas. O sentimento foi de realização, de alívio mesmo, pois tenho mais medo e nojo de ratos do que de baratas. Desinfetei tudo com álcool e voltei a viver plenamente, com a paz de espírito de um teorema resolvido. Moral da história: quem tudo quer, tudo perde (até mesmo a vida). Moral da história dois: não só os peixes, mas também os ratos morrem pela boca.




