[Curadoria de Luís Araujo Pereira]
[1]
O galo
O galo afia as esporas
contra a terra
arqueia o pescoço
apruma o peito
na precisa elegância
da arte marcial
Súbito
do agudo instante
nasce o raro prisma:
uma fogueira eclode
da entranha da ave
cresce em labaredas
pelo firmamento:
rosas vermelhas
multiplicando o sol
numa enchente
de sangue e vinho
O poema
explosão da aurora
incontido grito
⃰ ⃰ ⃰
[2]
Cavalo azul
Azul sem nome
azul sem tempo e espaço
céu deserto de nuvens
onde pulsa a inútil poesia
onde a morte é maior
que toda morte
onde deus é pura turquesa
Delicado salto da terra
em direção à eternidade:
o cavalo
epifania do azul sem nome
do absoluto azul
sem tempo e espaço
⃰ ⃰ ⃰
[3]
O gato
O silêncio pisa
a pele dos tapetes
o azulejo ainda frio
da madrugada
Incendeia uma noite
oculta misteriosa
dentro de outra noite
O silêncio espreita palavras de fogo
no interior de um dicionário invisível
aberto em cada porta aberta
O mundo inteiro dorme
eu durmo solitário dentro
da suave calmaria das estrelas
Próximo muito próximo
de minha vida
de minhas outras encarnações
de minha dor
de meus ossos
o silêncio desenha seus flancos
na pele deste poema
que jamais adormece
⃰ ⃰ ⃰
[4]
O monstruoso inseto de Franz Kafka
“Ao despertar certa manhã de sonhos intranquilos,
Gregor Samsa encontrou-se em sua cama
metamorfoseado em um inseto monstruoso”
Franz Kafka, A metamorfose
A difícil tarefa de se tornar
abjeto animal
de se tornar amargamente
humano
Abraçar a própria humanidade
ferir-se contra este muro
de espinhos
este pergaminho de facas
Descobrir-se
escatologicamente
selvagem
fezes
puro fulgor
do próprio mal
Descobrir-se carne
que fere
a própria carne
que dilacera a carne
do outro
agudamente amado
odiado
Assim o homem comum banal
o homem todo mundo
capaz de amar e matar
Assim o homem cotidiano
que adormece anjo
e desperta verme
⃰ ⃰ ⃰
[5]
A pantera de Rilke
No cerne do estreito círculo
o corpo grácil elástico
elabora a precisa dança
delicado arabesco
grito a fervilhar
no âmago do silêncio
Assim a poesia
fulgor inútil
flamejante centelha
dentro do olho cego
Assim o silêncio
selvagem beleza
frágil eternidade
dentro da morte
Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte. É mestre em Estudos Literários pela Unesp/Araraquara e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Vive atualmente em Goiânia. É poeta, ficcionista e crítico literário. Publicou mais de 60 livros, dos quais ganham destaque O cavalo azul (2013, contos) e Paraísos eternos como relâmpagos (2023, poemas). É professor de Literatura Brasileira e Portuguesa da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Cora Coralina, na cidade de Goiás. Os poemas selecionados para esta coluna integram livro inédito do autor, ainda sem título.





