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Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 21 de setembro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
21/09/2025 em Florações

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Cinco poemas inéditos de Alexandre Bonafim

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

O galo

O galo afia as esporas

contra a terra

arqueia o pescoço

apruma o peito

na precisa elegância

da arte marcial


Súbito

do agudo instante

nasce o raro prisma:

uma fogueira eclode

da entranha da ave

cresce em labaredas

pelo firmamento:


rosas vermelhas

multiplicando o sol

numa enchente

de sangue e vinho


O poema

explosão da aurora

incontido grito

⃰  ⃰  ⃰


[2]

Cavalo azul

Azul sem nome

azul sem tempo e espaço


céu deserto de nuvens

onde pulsa a inútil poesia

onde a morte é maior

que toda morte

onde deus é pura turquesa


Delicado salto da terra

em direção à eternidade:


o cavalo

epifania do azul sem nome

do absoluto azul

sem tempo e espaço

⃰  ⃰  ⃰


[3]

O gato

O silêncio pisa

a pele dos tapetes

o azulejo ainda frio

da madrugada


Incendeia uma noite

oculta misteriosa

dentro de outra noite


O silêncio espreita palavras de fogo

no interior de um dicionário invisível

aberto em cada porta aberta


O mundo inteiro dorme

eu durmo solitário dentro

da suave calmaria das estrelas


Próximo muito próximo

de minha vida

de minhas outras encarnações

de minha dor

de meus ossos

o silêncio desenha seus flancos

na pele deste poema

que jamais adormece

⃰  ⃰  ⃰


[4]

O monstruoso inseto de Franz Kafka

                  “Ao despertar certa manhã de sonhos intranquilos,

                  Gregor Samsa encontrou-se em sua cama

                  metamorfoseado em um inseto monstruoso”

                  Franz Kafka, A metamorfose

A difícil tarefa de se tornar

abjeto animal

de se tornar amargamente

humano


Abraçar a própria humanidade

ferir-se contra este muro

de espinhos

este pergaminho de facas


Descobrir-se

escatologicamente

selvagem

fezes

puro fulgor

do próprio mal


Descobrir-se carne

que fere

a própria carne

que dilacera a carne

do outro

agudamente amado

odiado


Assim o homem comum banal

o homem todo mundo

capaz de amar e matar


Assim o homem cotidiano

que adormece anjo

e desperta verme

⃰  ⃰  ⃰


[5]

A pantera de Rilke

No cerne do estreito círculo

o corpo grácil elástico

elabora a precisa dança

delicado arabesco

grito a fervilhar

no âmago do silêncio


Assim a poesia

fulgor inútil

flamejante centelha

dentro do olho cego


Assim o silêncio

selvagem beleza

frágil eternidade

dentro da morte

Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte. É mestre em Estudos Literários pela Unesp/Araraquara e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Vive atualmente em Goiânia. É poeta, ficcionista e crítico literário. Publicou mais de 60 livros, dos quais ganham destaque O cavalo azul (2013, contos) e Paraísos eternos como relâmpagos (2023, poemas). É professor de Literatura Brasileira e Portuguesa da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Cora Coralina, na cidade de Goiás. Os poemas selecionados para esta coluna integram livro inédito do autor, ainda sem título.

Tag's: Alexandre Bonafim, literatura, literatura brasileira, poesia, poesia brasileira

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