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Imagem: cena de E la nave va (1983)
Imagem: cena de E la nave va (1983)
Imagem: cena de E la nave va (1983)

Luís Araujo Pereira em Espirais Professor e escritor | Publicado em 28 de setembro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
28/09/2025 em Espirais

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Cine Fellini

Durante a minha adolescência, nos anos 1950, morei na Vila Nova, um bairro que remonta ao início da cidade e do qual nunca me desliguei afetivamente. É claro que ele não tinha a mesma surpresa cotidiana do Quartier Latin, mas oferecia muitos outros encantos – e dele conservo, para toda a minha vida, lembranças admiráveis desse burgo.

Sem pretender enumerar tudo que vivi, lembro da feira dominical com seus repentistas que me educavam enquanto os ouvia, do imenso bosque com o córrego Botafogo de águas cristalinas, da paróquia São José em cuja escola estudei, do OBA onde assistia aos jogos do Vila, do colégio Murilo Braga em que fui alfabetizado, da construção do mercado no qual até hoje faço compras e dos doidinhos que vagavam pelas ruas – tudo isso, e muito mais, representa o mundo de onde vim e do qual não me esqueço. De algum modo, os bairros em que morei – ora proletários, ora de classe média – foram feitos para embaraçar os sentidos mais visíveis que a existência vai deixando entranhados na memória.

A minha infância, porém, a de colheradas de Emulsão de Scott e Biotônico Fontoura, eu a passei bravamente no antigo Bairro Popular, hoje denominado “Centro”, talvez para apagar a sua origem operária. Mas, até hoje, ele continua com ares de simplicidade, com praticamente as mesmas casas e jeitão de bairro.

Nós, os de fora, os que viemos de Minas e do Nordeste, de São Paulo e do além-mar, não somos os estranhos da tal “goianidade” – nós somos o art déco, o sonho dos urbanistas que planejaram a cidade e a elegância dos contrários. Ou seja, nós somos os que “misturamos” uns com os outros, os que trouxemos a pá e o serrote, os signos do lugar de nascença e a esperança de termos um projeto de vida na cidade que se edificava. A despeito de condições nem sempre mansas, nós estamos aqui até hoje acreditando no território que nos atraiu e recebeu-nos.

Como a Arte é imprevisível e tem muitos desígnios, o meu encontro com o cinema começou na 4ª Avenida, a casa a partir da qual vivi incríveis aventuras, mas certamente não tão emocionantes quanto as de Tom Sawyer, embora as de um gibi tenham lá uma atração diferente.

Uma quadra adiante, nessa avenida, após a rua 226, que a atravessa, uma sala foi improvisada para ser um cinema. Se ele tinha um nome, eu não o recordo mais; no entanto, lembro a fachada simples, a porta central de madeira empenada, um cartaz amarrotado preso com fitas adesivas precariamente na parede. Esse cartaz talvez anunciasse um filme do Zorro, do Mazzaropi ou do Johnny Weissmuller estrelando uma película de Tarzan. A quantos filmes assisti ali? Não sou capaz de contá-los, porém sei que ali aprendi a amar as imagens.

Também não me recordo do título de um filme a que tenha visto naquela sala. Só lembro que a minha adolescência era marcada pelo preto e branco, e que os caubóis, os piratas e os dramalhões animavam as noites e as matinês de domingo.

O recinto tinha mais ou menos 40 cadeiras expostas em fileira uma após a outra, na frente das quais havia uma parede pintada de branco. No fundo da sala, um projetor de 35mm, apoiado num cavalete, estava a postos, aguardando o projecionista.

O homem de quem comprava ingresso – que ficava em pé na entrada e abria a porta para o ingresso na sala – era o mesmo que projetava os filmes. Logo depois, quando ocupávamos a sala, aguardando o início da sessão, a luz apagava-se repentinamente – e éramos conduzidos à hipnose do escuro do cinema.

No ruído do celuloide sendo repassado de uma bobina para outra, furo após furo, de repente surgiam gritos e barulho de cadeiras sendo derrubadas. Como era habitual, sabíamos que o estardalhaço não vinha da trilha sonora, mas, sim, de penetras inoportunos.

A confusão era sempre provocada por bêbedos que invadiam de repente a sala, tropeçando nas cadeiras e caindo desajeitados em cima do público.

Quando havia esse estardalhaço, o maquinista, que era mudo, desligava o projetor, acendia a luz e grunhia sons incompreensíveis, brandindo indignado os seus braços. Era conhecido por Mudinho.

Apesar de não poder dizer o que sentia, nem de poder comentar os filmes a que assistia, ele amava o cinema como só os mudos podem amar – e, tenho certeza, se pudesse, exterminaria os bêbedos do bairro que invadiam, noite após noite, a sua humilde sala de projeção. Até hoje, suspeito que talvez os filmes falassem por ele.

Tag's: Centro, cinema, crônica, goiânia, memória, Vila Nova

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