Goiânia, 13 de setembro de 2037.
A incorporadora comemora o sucesso de todos os seus apartamentos vendidos na rua 57, nº 60. A especulação imobiliária vibra irradiante. O arrojado condomínio chama-se Everything All Blue.
Um sol da porra, o céu todo azul, secura. A construção do prédio na rua 57, nº 60, foi fuderosa, sucesso total: o prédio brilha no céu azul, sol amarelo. Mas há coisas que só brilham de noite.
A estrutura do prédio de grande magnitude exigiu que suas vigas e seus alicerces fossem profundos, perpassando muitos e muitos metros de concreto, e finalmente chegando ao passado. Um passado tão brilhantemente azul que foi confortavelmente esquecido.
A geração touch adora botar o dedo em tudo e se dá bem com coisas que brilham.
No dia 13 de setembro de 2037, os moradores do Everything All Blue descem dos seus confortáveis apartamentos e vão para o hall de espectadores (proposta em voga nos condomínios da década de 30 do século XXI). Lá percebem que o grande espetáculo já tinha começado: por de baixo do chão vinha uma luz azul. Todos maravilhados! Todos agradecendo ao show surpresa que o especuladores imobiliários haviam projetado para o sofisticado prédio que se inaugurava naquele 13 de setembro.
Especuladores e espetáculo.
A geração touch só conhece aquilo que pode tocar e arrastar com o dedo, só valoriza o que brilha. Então lá se vão todos, inclusive os lords e as ladies vindos de longe, tocam, brincam, maravilham-se com tanta e tamanha luz azul brilhante.
Em 2037, poucos eram os vivos que sabiam o significado da palavra memória. Mas todos sabiam que o que é bom brilha e pode ser tocado.
Poucas horas depois disso tudo, num lapso espaço-temporal, Goiânia volta a ser famosa mundo afora, Goiânia volta a seu lugar brilhante, Goiânia volta a 1987.





