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Ilustração: Adeki, 2025
Ilustração: Adeki, 2025
Ilustração: Adeki, 2025

Ana Tércia Rosa Alves em Projeto Ensaios Psicóloga e mestre em Psicologia pela UFMS. E-mail: ana.tercia@ufms.br | Publicado em 18 de outubro de 2025

Ana Tércia Rosa Alves
Psicóloga e mestre em Psicologia pela UFMS. E-mail: ana.tercia@ufms.br
18/10/2025 em Projeto Ensaios

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Irmãos e rivais: o “duplo” do herói, segundo Otto Rank

[Coautora: Natasha Garcia Coelho[1]]

Ao estudar mitologia sob a luz da psicanálise, Otto Rank ([1922] 2020), concentrou suas investigações em dois personagens: o herói protagonista e o rei tirano que o persegue. Rank observou que a dinâmica entre ambos ilustra as fantasias do romance familiar infantil e a busca do indivíduo por autonomia. Contudo, herói e tirano não são os únicos sujeitos que compõem o mito, outros personagens também merecem análise. Um deles é o irmão do herói.

Muitos heróis mitológicos são retratados como filhos únicos, sem irmãos. No entanto, aqueles que os têm frequentemente acabam por causar sua morte, seja direta ou indiretamente. Por exemplo, Caim assassina Abel movido por inveja (Gênesis 4:2-11), Rômulo mata Remo em uma disputa pelo direito de fundar Roma (História de Roma, I, 7), e Belerofonte provoca a morte de seu irmão Delíades em um acidente (Biblioteca, II, 3.1). Mas por que o fratricídio é um tema tão recorrente nos mitos?

Para Rank ([1922] 2020), os irmãos do herói são “duplos” do protagonista, figuras que precisam desaparecer para que ele prossiga em sua jornada rumo ao heroísmo. Assim, da mesma forma que o herói precisa afastar-se dos pais para empreender seu destino, o seu irmão precisa ser eliminado para que ele consiga visibilidade, evitando concorrência futura com um adversário semelhante. Rank ([1925] 2013) acrescenta que essa relação conflituosa pode ser interpretada como uma tentativa inconsciente de suprimir traços reprimidos pelo herói, muitas vezes ligados a fragilidades ou frustrações diante de seu próprio ideal de ego.

Ao eliminar o duplo, o herói destrói simbolicamente aspectos de si mesmo que rejeita, ainda que a projeção desses elementos no “outro” oculte essa autodestruição. Desse modo, o duplo atua como um espelho perturbador, expondo aquilo que o indivíduo não consegue aceitar em si (Rank, [1925] 2013). A violência dirigida a ele configura, portanto, uma forma de autocastigo, impulsionada por um sentimento de culpa em relação a falhas que o herói deseja negar.

Em outras palavras, o irmão do herói é o reflexo das características e atitudes que o protagonista precisa eliminar para se tornar um herói no futuro. Depois de assassinar Abel, Caim parte para a terra de Node e funda a cidade de Enoque (Gênesis 4:15-17); Rômulo só consegue fundar uma cidade com seu nome após matar Remo (História de Roma, I, 7); e a morte de Delíades obriga Belerofonte a se exilar no lugar onde derrotará a Quimera (Biblioteca, II, 3.2). Essas narrativas demonstram que o fratricídio é uma forma indireta de suicídio simbólico. Somente após “assassinar” os aspectos indesejados de seu ego é que o protagonista estará apto para realizar os feitos que o consagrarão como herói.

O fratricídio no mito, portanto, não fala apenas de heróis e monstros, mas da violência intrínseca ao processo de tornar-se quem se é. Sob a luz de Rank, cada eliminação do duplo revela o preço paradoxal da individuação: para que o “eu” se afirme, parte dele deve ser sacrificada. Assim, os mitos não contam apenas histórias de heróis, mas também revelam o custo doloroso de construir uma identidade.

[Revisão de Maria Clara de Freitas Barcelos e Caroline Guedes. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]

Referências

RANK, O. O Mito do Nascimento do Herói . [1922]. Tradução de Constantino Luz de Medeiros. São Paulo: Cienbook, 2020.

RANK, O. O Duplo: um ensaio psicanalítico. [1925]. Tradução de Erica Luisa Sofia Foerthmann Schultz. Porto Alegre: Editora Dublinense, 2013.


[1] Graduanda em Filosofia na UFMS. E-mail: n.garcia@ufms.br

O artigo é o 11° da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros artigos publicados:

  1. Religiões evangélicas, controle social e educação no cárcere , de Karolayne Hanario Rodrigues e Pedro H. C. Silva.
  2. Meandros da antropologia brasileira, de Glícia Aparecida Gomes Souza e Priscila Lini.
  3. Sobre Paul Ricoeur e música ,de Caio Cezar Braga Bressan e Wiliam Teixeira.
  4. “O Planeta dos Macacos”: uma reflexão foucaultiana sobre poder e sociedade , de Gabriel Filipe Rosa Alves e Jeferson Camargo Taborda.
  5. A extinção da verdade: inteligência artificial e a morte do real , de Kauê Barbosa de Oliveira Lopes e Weiny César Freitas Pinto.
  6. Notas sobre a psicanálise: quais são o potencial e os possíveis impactos de uma análise no sujeito?, de Khadija de Oliveira Moreira e Caroline S. dos Santos Guedes.
  7. Sísifo escolheu a pedra, de Orivaldo Gonçalves de Mendonça Junior e Antônio Carlos do Nascimento Osório.
  8. O medo da história, de Igor Vitorino da Silva e Ricardo Oliveira da Silva.
  9. Dialética como tensão irresolúvel: reafirmando Heráclito, de Rafael Vieira Régis Damasceno e Rafael Lopes Batista.
  10. Um disfarce para a violência?, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Flávio Amorim da Rocha.

Tag's: mitologia, Otto Rank, psicanálise

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