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Imagem: Baleia (Aldemir Martins, 2000, reprodução)
Imagem: Baleia (Aldemir Martins, 2000, reprodução)
Imagem: Baleia (Aldemir Martins, 2000, reprodução)

Luís Araujo Pereira em Espirais Professor e escritor | Publicado em 26 de outubro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
26/10/2025 em Espirais

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Três canídeos

Entre todos os viventes da literatura de Graciliano Ramos, a cadela Baleia é um dos mais fascinantes, não pelo que é narrado no plano da história, mas pelo que essa narração nos sugere como lampejos da sintaxe. A tragédia da cachorrinha – e sua execução de modo desastrado, pela hipótese de que estaria danada – arrasta o leitor a uma frustração: desejamos, pela empatia que o animal nos impõe, que Fabiano erre o tiro – e Baleia continue, para sempre, caçando os seus preás. Tudo em Vida secas, para o nosso desconforto de leitores, remete à ideia de fracasso, ruína e fim. A morte do meigo animal, porém, causa-nos um estranho mal-estar: imolá-la, sujeitando-a a um sacrifício banal, apenas amplia a brutalidade que acompanha o périplo dos retirantes. Na caatinga dos miseráveis, um cachorro vale menos que um carcará. “Pobre Baleia!” – o sentimento de compaixão nos aflora ao pensarmos na sua beleza e luminosidade.

Se Baleia é vítima da sentença inapelável de Fabiano, eis Buck, outro canídeo notável da literatura que, em O chamado selvagem, de Jack London, experimenta os infortúnios do desterro e da escravidão. Baleia é uma vira-lata; Buck, ao contrário, pertence a uma linhagem nobre. Ele vive extraordinárias aventuras após ser vendido por um inescrupuloso jogador, perdendo para sempre a convivência da bela casa onde morava. Ao mesmo tempo, num périplo também hostil, sofre decepções, é espancado e humilhado, até o desfecho de seu destino: o reencontro com o seu estado primitivo, ou seja, o sentimento avito de pertencer a uma matilha inusitada e entoar um uivo de saudação. Esse livro traduz, na realidade, o convívio entre homens e animais. Há um apelo, à revelia de Buck, para que a Natureza fracasse. Depois de muitas adversidades,  ele encontra o seu hábitat e se desvencilha dos humanos. Buck, afinal, não pertencia à Civilização e se engrandeceu entre os seus semelhantes e viveu o esplendor de sua raça ao retornar à ordem natural das coisas.

Em 1957, a URSS lançou ao espaço uma cadela que ficaria famosa. Laika não é apenas o nome de um canídeo – é o símbolo de um programa espacial, de uma tecnologia em desenvolvimento e de uma disputa entre potências. A Guerra Fria impôs sobressaltos de conflitos bélicos, mas a morte de Laika, convenhamos, foi mais uma dessas lástimas que se inscreve no rol das crueldades humanas contra aqueles que nada podem – o nosso desvario de dominar o Universo.  Não houve nenhuma façanha e conquista na experiência soviética: o que essa morte demonstra até hoje é o nosso especismo mais vulgar e o menoscabo – que nunca foi reduzido – pela vida dos animais. Felizmente, a memória de Laika sobrevive no mesmo nome que milhares de pessoas batizaram os seus cães (inclusive este que escreve estas mal traçadas), e também em virtude de outro pormenor, esteticamente vigoroso: o filme Minha vida de cachorro, de Lasse Hollstrom, um diretor sueco, além de ser uma homenagem a essa cadelinha, favorece com ênfase a divulgação de sua tragédia, para que nunca mais seja repetida.

No sertão, na selva e no espaço, Baleia, Buck e Laika são os meus cães estimados, heróis da ficção e da vida.

Assim como muitos animais, o cão existe em todas as sociedades humanas. Por causa da convivência próxima e íntima, é cultivado na mitologia ora com receio, ora com veneração. Na cultura ocidental, por exemplo, está associado ao que mais tememos: à morte, ao inferno, aos mundos ctônicos, os profundos e desconhecidos. Anúbis, Cérbero e Hermes são seres que foram moldados com a forma canídea. Assumindo a função de guardião ou guia, em muitas histórias, auxilia o ser humano, após a sua morte, a fazer a travessia.

Assim, na religião, na mitologia e na Arte , nos deparamos com vários significados que foram atribuídos a ele. É bem possível que, nessa simbolização, sobressaia um fato enigmático: o de que, companheiro de nossa existência, o cão seja um Outro que nunca iremos compreender de  modo satisfatório.

Tag's: Graciliano Ramos, Jack London, Minha vida de cachorro, O chamado selvagem, Vidas Secas

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