[Coautor: Jeferson Camargo Taborda[1]]
A crítica decolonial é articulada pelo Grupo Modernidade/Colonialidade (Grupo M/C), formado no fim da década de 1990, sendo um coletivo constituído por filósofos, sociólogos, semiólogos, antropólogos e pedagogos, que, diante do contexto da América Latina e seu processo de colonização, busca emancipar os sujeitos a partir da descolonização dos marcos epistemológicos com diálogos interdisciplinares.
Colonialidade, segundo Ballestrin (2013), é compreendida como a continuidade do pensamento colonial, ou seja, é a influência duradoura do colonialismo na forma como as sociedades colonizadas pensam, percebem e interagem com o mundo e que, assim, se estabelece por meio do controle, da manutenção e do domínio de aspectos relacionados com o conhecimento, o trabalho, as relações de poder e o capital.
Já o colonialismo, segundo Maia e Farias (2020), iniciou-se por volta do século XV, sendo considerado o marco inicial da colonização das Américas a chegada de Cristóvão Colombo em 1492. Para os autores Salva, Schütz e Mattos (2021, p. 165), esse processo “[…] refere-se à estrutura de dominação no contexto da expansão e conquista territorial do que ficou conhecido como América […]”. Ou seja, o colonialismo concerne à ação direta de dominação de sujeitos, e em específico à questão de raças, com a criação da dicotomia: raça superior x raça inferior, sendo utilizada como ferramenta para estabelecer um padrão de poder e dominação (Quijano, 1992).
Desde então, o termo decolonial se encontra em um campo de disputas, remetendo também a outros termos como pós-colonial, subalterno, contracolonial, contra-hegemônico, anticolonial, descolonial ou neocolonial. Neste texto, pretendo debater as diferenças entre essas duas noções: decolonial e descolonial. Isso porque há uma divergência quanto ao uso dessa terminologia no interior do principal grupo que estuda esses assuntos, o Grupo M/C, em que seus integrantes usam das duas formas (decolonial e/ou (des)colonial) para falarem de um mesmo tema: a emancipação ética da América Latina e o contraponto à colonialidade.
Com isso, vale a diferenciação para a compreensão dessa terminologia, pois o prefixo “de” toma para si um caráter de contraposição à colonialidade. No entanto, (des)colonial diferencia-se pelo prefixo “des”, de desmonte, descolonizar, ou seja, como contraposição ao colonialismo. Segundo Castro Gómez e Grosfoguel (2007) e Walsh (2009), mesmo com a descolonização, permanece a colonialidade. Nesse sentido, enquanto um tem como foco um campo epistemológico, podemos dizer que o outro apresenta um foco prático, que assume novas roupagens, assim como Pavón-Cuéllar (2021, p. 111) aponta: “El pensamiento decolonial es un ejercicio predominantemente intelectual, especulativo y académico, centrado en cuestiones epistemológicas y discursivas o comunicacionales”.
Desse modo, a partir de leituras, reflexões, conversas e escritas, adoto em minhas escritas o termo decolonial ao invés de descolonial. Com referências nos estudos do léxico e da semântica da língua portuguesa, entende-se que o prefixo “des” sugere que estamos “desfazendo” algo, implicando então uma “reversão”, ou seja, desfazer essa estrutura colonial rumo a um “não colonial”. Já o prefixo “de” toma para si a ideia de compreender que a estrutura colonial está predeterminada, ou seja, não há a possibilidade de negar ou desfazer o processo de colonização que culminou na origem dos povos latino-americanos. Com o uso do prefixo “de”, (re)criamos, a partir desse “predeterminado”, uma crítica como forma de resistência, a fim de entender como e por que essa estrutura está presente em nosso cotidiano, assim como toda a sua construção histórico-social.
O objetivo, então, é contribuir epistemologicamente para que o acesso a essa estrutura aconteça de forma gradual, flexível às nuances do tempo, consciente e contínuo por diferentes alternativas, capaz de resistir, (re)viver e (re)existir, compreendendo a diversidade existente nos modos de vida da América Latina e suas construções europeias no ser, no saber e no poder.
Referências
BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, [S. l.], n. 11, p. 89–117, 2013. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/rbcp/article/view/2069. Acesso em: 12 dez. 2024.
CASTRO-GÓMEZ, Santiago.; GROSFOGUEL, Ramón. Prólogo. Giro decolonial, teoría crítica y pensamiento heterárquico. In: CASTRO-GÓMEZ, Santiago.; GROSFOGUEL, Ramón. El giro decolonial. Reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Iesco-Pensar-Siglo del Hombre Editores, 2007, p. 09-23.
MAIA, Fernando. J. F.; FARIAS, Mayara. H. V. de. Colonialidade do poder: a formação do eurocentrismo como padrão de poder mundial por meio da colonização da América. Interações (Campo Grande), [S. l.], v. 21, n. 3, p. 577–596, 2020. DOI: 10.20435/inter.v21i3.2300. Disponível em: https://interacoesucdb.emnuvens.com.br/interacoes/article/view/2300. Acesso em: 30 jan. 2025.
PAVÓN-CUÉLLAR, D. Hacia una descolonización de la Psicología Latinoamericana: condición postcolonial, giro decolonial y lucha anticolonial. Brazilian Journal of Latin American Studies, v. 20, n. 39, p. 95-127, 2021. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/354650505_Hacia_una_descolonizacion_de_la_psicologia_latinoamericana_condicion_poscolonial_giro_decolonial_y_lucha_anticolonial. Acesso em: 03 fev. 2025.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad/racionalidad. Perú Indígena, v. 13, n. 29, p.11-20, 1992. Disponível em: https://ifht.uerj.br/pluginfile.php/16538/mod_resource/content/3/Quijano%2C%20Anibal%20-%20Colonialidade%20y%20modernidad-racionalidad.pdf. Acesso em: 19 ago. 2024.
SALVA, Sueli.; SCHÜTZ, Litiéli. W.; MATTOS, Renan. S. Decolonialidade e interseccionalidade: Perspectivas para pensar a infância. Cadernos de Gênero e Diversidade, [S. l.], v. 7, n. 1, p. 160–178, 2021. DOI: 10.9771/cgd.v7i1.43546. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/cadgendiv/article/view/43546. Acesso em: 30 jan. 2025.
WALSH, Catherine. Intercuturalidad, Estado, Sociedad: Luchas (de)coloniales de nuestra época. 1. ed. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar; Ediciones Abya-Yala, 2009.
[Revisão de Caroline Guedes e Maria Clara de Freitas Barcelos. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]
[1] Bacharel em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB); Mestrado em Psicologia da Saúde (UCDB); Doutorado em Psicologia da Saúde (UCDB); Mestrado em Antropologia pela UFGD. Professor do Curso de Psicologia da UFMS. Email: jeferson.taborda@ufms.br.
O artigo é o 13° da oitava edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 13 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros artigos publicados:
- Religiões evangélicas, controle social e educação no cárcere , de Karolayne Hanario Rodrigues e Pedro H. C. Silva.
- Meandros da antropologia brasileira, de Glícia Aparecida Gomes Souza e Priscila Lini.
- Sobre Paul Ricoeur e música , de Caio Cezar Braga Bressan e Wiliam Teixeira.
- “O Planeta dos Macacos”: uma reflexão foucaultiana sobre poder e sociedade , de Gabriel Filipe Rosa Alves e Jeferson Camargo Taborda.
- A extinção da verdade: inteligência artificial e a morte do real , de Kauê Barbosa de Oliveira Lopes e Weiny César Freitas Pinto.
- Notas sobre a psicanálise: quais são o potencial e os possíveis impactos de uma análise no sujeito?, de Khadija de Oliveira Moreira e Caroline S. dos Santos Guedes.
- Sísifo escolheu a pedra, de Orivaldo Gonçalves de Mendonça Junior e Antônio Carlos do Nascimento Osório.
- O medo da história, de Igor Vitorino da Silva e Ricardo Oliveira da Silva.
- Dialética como tensão irresolúvel: reafirmando Heráclito, de Rafael Vieira Régis Damasceno e Rafael Lopes Batista.
- Um disfarce para a violência?, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Flávio Amorim da Rocha.
- Irmãos e rivais: o “duplo” do herói, segundo Otto Rank , de Ana Tércia Rosa Alves e Natasha Garcia Coelho.
- Religião e violência: por que a convicção insiste em ser intolerante?, de Pedro H. C. Silva e Weiny César Freitas Pinto.




