Nada a ver com a coleção Desventuras em Série, que comprei para meus filhos na adolescência. É, aquilo sim era uma flopagem constante e acachapante (serei eu uma eterna vítima da rima involuntária?). Mal os pobres órfãos se refaziam de uma infelicidade ou de um perigo, acontecia um fato gravíssimo, e os coitadinhos se viam novamente presos na ciranda de sustos, tristezas e maldades impiedosas. Ah, adultos cruéis e sem compaixão! Puxa vida!
Mas também é claro que flopar faz parte da vida e, em maior ou menor intensidade, acontece o tempo todo. Alguns flops são até bem razoáveis, mais uma constatação inesperada do que qualquer outra coisa.
Assim, quando um dos meus sonhos era estar num quarto, daqueles nos telhados, espiando pela janela. Aí, numa viagem para a Alemanha, ficamos numa casa simples, que me pareceu meio labiríntica, com um conforto básico, suficiente. Eu saía, a Laura com poucos meses, sabendo só minha própria e linda língua. Andava por perto, voltava, comia, amamentava a Laura, trocava, dava banho, colocava para dormir. Só. Um dia, quando perambulava pela rua, olhei para cima e vi que a janela do quarto em que ficávamos era aquela janelinha no telhado. Flopei basicamente, tipo uma constatação mesmo. Tipo uai, hum…Dei de ombros, só meio espantada com minha lerdeza e desatenção.
Se aconteceu até com o Mário Prata, que todo ano comprava um calendário estampado com pernas femininas lindas! Um dia, numa situação social e financeira melhor, namorando a Leilah Assumpção, ela dá de cara com um calendário velho e esclarece ao Mário que aquelas pernas eram dela. Ele também teria exclamado Uai?!, em amorosa surpresa?
Coisiquinhas. Mais uma falta de atenção para as coisas boas quando elas aparecem sem estardalhaço, buzinas e batuques.
E, da outra vez que, numa tarde calorenta e tediosa, eu decidi de supetão ir a Brasília, para a abertura da exposição do Carlos Mota. Não me lembro por que razão fui na Quitandinha e perguntei se um funcionário poderia me levar lá. Topou, disse que conhecia a cidade, chamou a mulher e fomos. Na pressa, deixei o portão da garagem aberto e, nem bem saímos da cidade, minha mãe já ligou dizendo que meu vizinho havia comunicado que o portão estava aberto. Claro que ela já aproveitou para me dar uma bronca por causa da minha danação por exposições (a gente pode ter a idade que for, que a MÃE fecha a cara mesmo e dá bronca, bronquinha, broncona). Liguei para o vizinho, que fechou o portão sem travar. Antes mesmo de chegar em BSB descobrimos que nossos celulares estavam descarregados. Aí, que foi preciso procurar um parente numa daquelas cidades-satélite e pedir informação, ai, que aquela cidade-satélite escura e a casinhasembelezaalguma já me deprimiram na hora! Daí que ninguém sabia como chegar no local da tal exposição. Daí, que perambulamos e nos perdemos longamente nas famosas tesourinhas brasilienses. Daí, que foi preciso abastecer o carro novamente. Daí, que começou a cair um chuvão e já estava muito tarde, quando resolvemos voltar, desanimados, noite adentro. É claro que aí já entrei naquela situação aflita de achar o caminho de casa, chegar na minha casa, casa, CASA… chegar na minha cama, cama, CAMA … Apagar. Chegamos. Cheguei. Nunca simpatizei mesmo com Brasília e perdi qualquer encantamento com Carlos Mota, para todo o sempre inseparável dessa noite embaraçada.
Mas tem coisa que… inesperadas, sustíssimas mesmo, principalmente quando a gente está num de boa temporário bem razoável (aliás, alguém aqui consegue viver um de boa continuado e permanente?). Quando cheguei na terapia, dei de cara com a terapeuta caminhando vagarosamente com auxílio de um andador. Na semana anterior, não pude ir. Nos conhecemos de muito antes de qualquer terapia, e eu sabia que ela andava adoentada. Parece que meu organismo está pifando, comentou. Já tem bastante idade e já tinha passado por um câncer. Investigando dores e uma mancha, outro câncer. Falar o quê?! Eu tinha alguns acontecimentozinhos, problemas, probleminhas acumulados, que imediatamente já visualizei como uma fila indiana de formiguinhas minúsculas num A4 branco. Falei algumas coisas, pensando no câncer e resistindo à tentação de orientar sobre o comportamento adequado na sala de espera da radioterapia, quando surgem as conversas sobre o assunto (é só pegar um livro mais denso, enfiar a cara e manter uma expressão seríssima, o que é bem fácil para mim). Só me interrompendo um tiquinho, essa atitude é bem prática em muitas ocasiões, dá até para fazer um esquema, colocar no papel e usar sem moderação quando necessário. Bom, não nos vimos mais. Eu quase tenho medo de perguntar Como você está? Aliás, eu não perguntaria nem perguntarei, pois sigo com observância calculada a relação médico/paciente. A radioterapia dela, minha falta de tempo, um ponto em suspenso. Como estará quando eu voltar? Meu Deus!
Uma noite, voltando arrastada da casa minha mãe, pesquisei no celular o nome de um ex-colega para tentar saber o que ele estaria fazendo. Eu havia perdido o contato há muitos anos e, de vez em quando, quando tinha espaço mental e me lembrava dele, pensava no que ele estaria fazendo em outra cidade. Já na segunda notícia da pesquisa: havia morrido há poucos meses, baleado numa tentativa de assalto. Dias abalada, tentei comentar com a prima de memória desvanecente, mas ela não se lembrava de jeito nenhum. Tentei outra colega, que invariavelmente o cumprimentava com um Oi, lindo, e ela também não se lembrava dele. Natural, muitos anos empilhados, um por cima do outro. Minha memória é besta. No desperdício, os versos do poema: você não sabe, mas suas presenças lembram delícias mínimas plenas, a sobra da sombra às seis da tarde, ciganas chinelas havaianas, luz de abajur, o som da palavra alcaçuz, a lima e a poesia de Annalisa Cima, um sofá de chenille e um cão andaluz…
Há uma década, vejo minhas mãe todos os dias. Na demência, palavras embaralhadas, conversamos: você está troxando?/ Só um pouco, mãe, troxo um pouco todo dia.
O resto?
Macias patinhas de gato, alternando na barriga, como se estivessem afiando as unhas. Dói nada. Alfinetinhos. Cócegas.




