O grande dilema da poesia social, como se sabe ao longo dos inúmeros debates travados pelos críticos, é encontrar o equilíbrio preciso pelo qual o meio expressivo, a função poética, consiga, de certa forma, ser preservada, a fim de expressar uma cosmovisão questionadora das injustiças do mundo.
O crítico e poeta Ivan Junqueira, em seus ensaios, repercute uma máxima que sempre o norteou enquanto leitor do poema. Para ele, a poesia verdadeira (o que, claro, já se torna uma questão complexa, pois, nesse mundo precário, toda verdade, de certa maneira, é relativa) assenta-se na refinada harmonia entre o que e o como da expressão poética, isto é, entre o meio linguístico preciso, harmonioso, expressão do belo, e o conteúdo que, com exatidão, se articula por meio desse processo comunicativo.
Assim, retornando ao dilema exposto no início, os críticos apontam para o perigo de se pesar, no poema, mais a informação do que a função estética. Entretanto, se pesarmos com mais apuro, não seria tal circunstância também um perigo para todas as demais expressões da poesia, seja ela amorosa, metafísica ou até mesmo metapoética? O equilíbrio tênue entre meio e expressão será sempre o jogo de vida e morte do intento poético. Dessa maneira, o “erro” da poesia de crítica social pode residir nesse afã de atropelar a própria função artística, tornando-se, ao invés de poesia, mera panfletagem. Muitos escritores, inclusive de grande importância no cânone, acabaram por incorrer em tal equívoco, fazendo muito mais um manifesto social que arte propriamente dita.
No entanto, se pensarmos em um crítico da grandeza de Alfredo Bosi que, no seu clássico ensaio, Poesia-resistência, delineou, com sensibilidade e contundência, a essência do poético não enquanto mero artifício da linguagem, mas enquanto função social propriamente dita, tão inerente a ela quanto à própria linguagem artística, tal dilema talvez se contemporize. O crítico não afirma de maneira peremptória, mas nos deixa claro que toda verdadeira poesia é, de certa maneira, poesia-resistência. Aqui, brilhantemente, o pensador brasileiro consegue ligar duas pontas da expressão lírica, em muitas situações, avessas: a poesia pura e a poesia de crítica social. Bosi, por exemplo, nos desvela que negar o real, viver na torre de marfim, pode ser uma crítica às mazelas do mundo tão poderosa quanto a própria poesia de contexto politizado. A raiz, portanto, de toda grande poesia também tem, de certa maneira, de se sustentar na grandeza daquilo que ela deseja dizer.
Johny Guimarães, nesse seu belo e contundente livro de haicais, Rosas de Jericó, irá justamente trilhar essa senda em que expressão poética e expressão semântica encontram a precisa harmonia da grande poesia, da poesia-resistência, tal como Bosi nos formula. Nesse livro de uma beleza feroz, o autor, pela contundência e precisão do haicai, tece uma crítica fundamental à atual e terrível guerra na Faixa de Gaza. Pelo seu olhar de compaixão, a poesia do Johny nos traz não somente uma fecunda emoção fraterna, no sentido do páthos de nos encontrarmos, com paixão, junto à dor do outro, mas também uma aguda reflexão sobre o terror e a injustiça desta guerra. O poeta nos inspira, pela força poética, a aflorar nosso coração ao desejo de um mundo mais justo, mais pleno, a despeito dos poderes de destruição de nossa era marcada por regimes políticos totalitários e violentos. Assim, tal escritura, como no melhor da poesia de cunho social, de Brecht a Maiakovski, nos faz lembrar sempre a sábia lição do nosso mestre Alfredo Bosi, a de que a verdadeira poesia é, sempre, um ato de resistência.
São inúmeros os poemas, em que concisão inerente ao haicai acaba por se intensificar, se adensar, expressando a realidade enquanto uma verdadeira ferida aberta, como podemos notar nesse belíssimo e terrível exemplo:
[91]
mãe aflita em Gaza:
filho morto no colo,
na frente de casa
Com a força pictórica da linguagem poética, o autor nos esculpe a cena de uma verdadeira Pietá, tão comovedora quanto a de Michelangelo, golpeando o leitor no âmago de sua angústia. Ao lermos o poema, nosso coração aflora por completo na angústia dessa mãe desconsolada e miserável. Somos tomados por uma espécie de espanto primevo, a nos alertar para o sentimento de comunhão da própria espécie, nos fazendo voltar, com total assombro, para o absurdo da guerra. Johny, que também é cineasta, encontra, no haicai, o instrumento plástico apurado para desvelar o real. Como sabemos, no haicai, os aspectos físicos, concretos do real, são fundamentais para formar, na mente do leitor, um quadro, uma paisagem. Como se fosse uma tomada da lente de uma câmera de cinema, o poeta pinça um flash fotográfico, flagrante de um momento decisivo, e, com a força hiperbólica da metáfora, desvela-nos o absurdo da própria realidade. Aqui, segundo a tradição pictórica da Pietá, ele nos insere na tradição judaico-cristã, colocando o Cristo nos braços de uma mísera mãe palestina.
A dor se intensifica quando o poeta nos insere no drama terrível da violência contra a criança:
[3]
noite de horror em Gaza:
estouro de bombas em casa,
crianças no Paraíso
A força da metáfora condensa, numa imagem terrível, o fulgor da explosão dos corpos esfacelados das crianças, em que violência e infância se consomem, numa imagem que nos aterroriza e, mais uma vez, nos coloca em confronto com a questão filosófica do próprio mal. A crueldade humana, colocada, aqui, pictoricamente, numa imagem de grande força catártica, nos leva a uma angústia atroz, a um estranhamento de nossa condição humana. Ressoa, em nós, quando lemos tal poema, a frustração de nos saber talvez uma espécie corrompida, selvagem e cruel.
No entanto, e, aqui, vale lembrar novamente Alfredo Bosi, a poesia e, de certa maneira, a arte em geral, desvela talvez a fecunda força iluminadora de nossa humanidade, permitindo-nos a esperança como força revigorante do próprio ser. Johnny, em seu belo e contundente livro, sabe que a arte se afia na verdade inexorável de nossa humanidade. Com sensibilidade, o poeta nos proporciona uma leitura inquietante que, no entanto, ao abrir nossas veias à dor, permite-nos, pela força da lucidez crítica, a uma tomada de consciência necessária, num canto de resistência às ignomínias do mundo selvagem.
[O texto foi originalmente publicado como posfácio do livro Rosas de Jericó, do documentarista, poeta e historiador baiano Johny Guimarães, recém-lançado pela editora Cavalo Azul]
Livro: Rosas de Jericó
Autor: Johny Guimarães
Editora: Cavalo Azul
Páginas: 145
Preço médio: 65 reais





