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Foto: Rosângela Chaves
Foto: Rosângela Chaves
Foto: Rosângela Chaves

Roberto Mello em Veredas Psicanalista e jornalista | Publicado em 26 de novembro de 2025

Roberto Mello
Psicanalista e jornalista
26/11/2025 em Veredas

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A inquietação criativa de Luís Araujo Pereira

No novo livro de Luís Araujo Pereira, Raso quase fundo – que será lançado nesta quinta-feira, dia 27 de novembro, a partir das 18 horas, na Old Monkey Cervejaria, no Setor Sul –, o poeta duvida. Cogita. Que faço? Que sou? Sou raso? Sou fundo? Sou quase raso, quase fundo? O que é ser raso? O que é ser fundo? Passando do “eu sou…” para “as coisas acontecem”, temos o fazer poético, livre das identidades, da fixidez imaginária, quer o poeta saiba disso ou não. Sua inquietação se resolve no texto, em se fazer texto. Sua obra se completa na recepção do leitor, para que, socialmente, se dê a sublimação de que falava Freud. Nenhum poeta é obrigado a saber das tecnicalidades analíticas, mas de ingênuo o poeta nada tem.

É de caso pensado que Luís Araujo estruturou sua obra em  “I”, o poema-prólogo da obra, em que anuncia sua dúvida:

Porque está escrito

a maior parte

dos meus poemas

é rasa

muitos poucos

porém

são fundos


Não sei

o que dizer

sobre esse

descompasso


Logos – o pêndulo

que me desnorteia

no seu pulsar


e no “II”, o poema-epílogo, retornando à questão:


Nunca pensei ser raso

ora, direis, fundo

– os opostos se atraem,

diz o vulgo


É por isso que

ao ter escrito

este pequeno livro

digo, sem pressa de dizer

                :

Sem raso, sem fundo

só um inútil

book on the table


Se pensar for um descuido, e não por acaso, esses específicos versos não guardam títulos, meramente apresentados no índice como I e II.

Luís Araujo Pereira adora os tempos e as vivências que lhe restaram de sua estada em Paris, e talvez seja de lá que lhe sobrevenham os ecos de um quase Descartes: se duvido, penso. Se Descartes se contentasse em flagrar o Absoluto, teria parado por aí, o que não seria pouca coisa. Teria chegado à certeza absoluta, imune a qualquer tipo de dúvida, um vazio porto seguro para todo conhecimento futuro. Não precisaria nem da ajuda de Deus, blindado até mesmo contra a suposta malignidade divina, se ela se dispusesse a enganá-lo. O primeiro tempo do cogito é o porto seguro da ciência. Mas Descartes, no segundo tempo, deu o “mau passo”: se penso, existo. Fez depender a existência da consciência. Luís Araujo Pereira aproxima poesia e filosofia, mantém-se na dúvida produtiva, publica poemas, dá significados, vai além da pureza do cogito infalível e estéril. Se não publicasse, sua dúvida seria apenas improdutiva, fechada no “quem sou?”. Os significados “contaminam” a pureza da invenção cartesiana, o vazio de significações. É que não há saída, o homem não pode não significar.

Entre prólogo e epílogo, o poeta espalha suas preparações para o Nada, toda uma criação de expectativa que desemboca numa desacontecência, como no filme de Kubrick, De olhos bem fechados, como nas crônicas que ele próprio publicou  no jornal O Popular, e agora publica em Ermira.

No final, depois do epílogo, e para que não restasse a menor dúvida, Luís Araujo ainda faz uma citação, o poema de Adília Lopes, “Um jogo bastante perigoso”, como se dissesse “olhaaí, cambada”: “Os poemas que escrevo/são moinhos/que andam ao contrário/as águas que moem/os moinhos/que andam ao contrário/são águas passadas” . Talvez Adília e Luís fossem solidários de uma topologia psicanalítica, que valoriza o tempo do só-depois, e que entende o depois como causa do antes. Topologia que bem nos ensinaria a apreciar questões de raso, de fundo, de superfície.

Freud já dizia que o órgão sexual por excelência é a pele, o que temos de mais superficial, o que nos envelopa, nosso ego. Lacan ensinava que o mais superficial é o mais profundo, deslocando as ideias fixas de raso e fundo. Afinal, perguntava, por que o celeiro seria menos verdadeiro que a adega? Nessa topologia sua de raso quase fundo, Luís Araujo repete suas acontecências-desacontecências, desdobradas numa linha tendenciosa quanto aos temas. Seus preferidos são, pela ordem quantitativa, os animais (Tom-Tom, o gato da casa, depois as cidades, em seguida a morte e a lua, as reflexões sobre poesia, mulheres, enigmas e outros mais esparsos). Entre surfista e mergulhador, de vez em quando dá uma dica, como em “DNA”:


O poema escreve-se

depois de muitos

bouleversements

na cabeça no lápis

no papel

         e talvez no piso

onde os vestígios

da minha alma

vigiam-me


É assim que surgem

poemas aflitos

líricos tortos

                          cegos

que tropeçam

– rasos quase fundos –

versos capengas

poesia à deriva

que me devora


Vemos que o poema pode até nascer “no lápis”, esse objeto privilegiado, que excede em importância os “pixéis de felicidade/ que sobrevivem apenas/ na memória/ dos smartphones”, em “Diavolo”, já que, em “Objeto”, “O lápis pois é o meu ego”. Sorriso de Freud: o ego é apenas um objeto, entre outros.

Tom-Tom é o gato da casa. Daiane é a gatinha preta. Laika em meio a ganidos e gemidos de quem a soltou da guia e aí “veio uma caminhonete bastarda – e te matou”. Não pude impedir a lembrança de Iracema que “travessou contramão” no samba de Adoniran. São aracnídeos, irmãos de ofício, coruja no pio, libélula nas trevas, umidade do frescor da manhã, abelhas que adivinharam Tchernóbil e perderam a capacidade de voar, sapinho bonitinho, vaga-lumes dando sopa, escape das serpentes, para  virar sapinho de bronze “peso dos meus papéis”. Sem falar nos camarões que “nada sabem dos relevos abissais” (ah, a certeza dos poetas…), como em “Oceano”, onde o mineiro de Pirapora vê nessas “Águas sempiternas” (o mar está pra peixe?) um mar (caso de amor dos mineiros) todo particular, onde “Cavalos-marinhos por sua vez escorregam em ondas indomáveis”. Inda bem que nesse mítico oceano sobrevive uma divindade degradada, sobrevive inda que no marketing, divertida.


Náufrago de um reino líquido

Netuno diverte-se com sardinhas

que um dia serão

Coqueiro ou Gomes da Costa.


Ternura para os animais, plantas e cidades, amizade que define uma linha de partilha, divisor de águas, como em “Manos”:


Pra honrar a  verdade

são muitos os meus amigos

todos tortos mas certos


E essas mulheres

que sangram

se o batom

é muito vermelho  


Em Província, a exigência da violência pura entre os vates que se desencontram, violência e estranhamento que, quem sabe, poderão diluir-se nos versos:


Toda vez

que eu sair à noite

vou levar no bolso

um soco-inglês


Cada dente

quebrado

–  poeta de araque –

será mais uma nota

desafinada

na tua lira


“Academia” seria um hermético à clef?


O poeta Horácio não é sertanista

mas quando vai à floresta

onde vivem os vates selvagens

distribui Lucrécio ao longo da trilha


Entre tantos há dois apenas

– se quisermos contá-los –

que riem como os bobos

– são  estes que vê com desprezo


Um condoreiro –  baba na gravata

o outro cult – bate a testa na tevê


Porrada democrática, à esquerda e à direita, numa briga de cachorro grande, como em “Cartum”:


Nenhum stalinista

suporta a cruz

dos evangelistas


No entanto

se falo de Trótski

os filhotes de Stálin

começam

no mesmo instante

a pegar as mamadeiras

e a sair

de fininho

um por um


[O rabinho

escondido

nas fraldas]


Entre os herméticos, um me intriga, até mesmo pelo título, “d.C”:


No tormento do corpo retorcido

espero diferente do Homem do Madeiro

que a tua vida não tenha sido adormecida em vão

nem levantada tão alta que não possamos vê-la

espatifar-se como fruta madura sobre o tapete

que narra a tua vanglória, oh, reino ignoto


Posto que somos pó – e no pó nos reencontraremos

Exu da minha vida Mulher Maravilha

boy soprano que canta em Sol maior


Âmbar que aprisiona o inseto e a eternidade

viram-se como a luz diante da escuridão

sem ais nem Ur o tempo transbordou

e ambos foram tragados pelo Verbo

que tudo esboroa e tudo suprime

 – tanto profeta quanto centurião


Deixemo-lo como está.

 “Clichê”, depois de beijo voraz dos “lábios rapaces”, termina na  “velha cantilena/: I love you”, que soa desinibidamente, não pra tocar no rádio, mas pra matar o tédio. “Aldeia” traz o seu périplo afetivo por seis cidades até que se sinta em casa:


Terrível tédio

o dia torna-se cego

o vinho vinagra

o relógio manca


Não sei se me exilo

não sei se me mato

não sei se te escrevo

com tinta de merlot


Mas se soubesse

algo do futuro

os meus últimos dias seriam

em cidades risonhas

onde o vinho decanta

o humor


Montevidéu Buenos Aires

Santiago Lima Paris Lisboa

                  [chez nous]


Não fica longe, por que procurar tanto, se o poeta já encontrou sua musa em “À coté”:


Ainsi

ferme les yeux

et dors

mon amour


Depuis des années

je comprends

malgré tout :


La femme

qu’est à coté de moi

c’est la Muse

des mes jours


Que o leitor decida se é raso, se é fundo, ou quase. O poeta é um privilegiado, pois tem um irmão, Laerte, de quem gosta muito, e aspira a ter também como irmão Graciliano Ramos (e é por isso que chamo de cabra da peste o mineiro de Pirapora), descobriu que sua mulher, ao lado, é sua musa, e – o que é decisivo – está em casa, chez soi, pelo saber-fazer com a língua.

Serviço

Lançamento do livro: Raso quase fundo, de Luís Araujo Pereira

Quando: 27 de novembro, quinta-feira, a partir das 19 horas

Local: espaço de eventos da Old Monkey Cervejaria – Rua 89, Q. F29, 642, Setor Sul

 

 

Ficha técnica

Livro: Raso quase fundo

Autor: Luís Araujo Pereira

Editora: Cavalo Azul

Páginas: 96

Preço: 50 reais

Tag's: Editora Cavalo Azul, Luís Araujo Pereira, poesia, poesia goiana, Raso quase fundo

  • Rato na gaiola

    por Luís Araujo Pereira em Espirais

  • Do outro lado do rio

    por Rosângela Chaves em Dedo de prosa

  • A sensibilidade autobiográfica de Jheferson Rosa

    por Paulo Manoel Ramos Pereira em Veredas

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