[Curadoria de Luís Araujo Pereira; seleção e tradução para o espanhol de Alexandre Bonafim]
[1]
Irmão inventado
Na noite de olhos secos,
um outro repete meus gestos.
Num quarto igual a este,
interroga o branco das paredes.
Se durmo, sonhará ele meu sonho?
Beberemos os dois
a água do mesmo rio?
Meu irmão inventado,
o que eu faço não sei.
Quem me lê é quem me cria.
Espalho cacos de um espelho.
Minha face por inteiro não verei.
Veja você por mim qualquer dia.
Azul navalha (1988)
Hermano inventado
En la noche de ojos secos,
un otro repite mis gestos.
En una habitación igual a esta,
interroga el blanco de las paredes.
Si duermo, ¿soñará él mi sueño?
¿Beberemos los dos
el agua del mismo río?
Mi hermano inventado,
lo que hago no lo sé.
Quien me lee es quien me crea.
Esparzo trozos de un espejo.
Mi rostro entero no veré.
Míralo tú por mí algún día
***
[2]
Pontos de vista
Lá vai o homem
enterrar seu morto.
Olhos fincados no chão,
gane de dor.
O rabo entre as pernas.
Na sarjeta, surge ela.
Cachorra. Pele e costelas.
Lambe um osso branco e largo
em que não resta sombra de carne.
O olhar de súplica
de quem tem medo, dela,
encontra o olhar, dele,
que inveja a sorte
e o osso da cadela.
As faces do rio (1991)
Puntos de vista
Allá va el hombre
a enterrar a su muerto.
Ojos clavados en el suelo,
aullido de dolor.
La cola entre las piernas.
En la cuneta, aparece ella.
Perrra. Piel y costillas.
Lame un hueso blanco y ancho
en el que no queda sombra de carne.
La mirada de súplica
de quien tiene miedo, de ella,
encuentra la mirada, de él,
que envidia la suerte
y el hueso de la perra.
***
[3]
Escoiceados
Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
Tínhamos
um burro
cinza malhado:
o Ligeiro.
Foi apanhado
de um conhecido
por ninharia.
Chegou com fama
de sistemático,
cheio de refugos.
De trote tão curto
que dava dor
nas costelas.
De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.
Ruminações (1989)
Pateados
Mi padre y yo
nunca montamos
en un alazán
que galopara
al viento.
Teníamos
un burro
gris manchado:
el Ligeiro.
Lo compró
a un conocido
por una miseria.
Llegó con fama
de sistemático,
lleno de rechazos.
De trote tan corto
que dolían
las costillas.
Una vez,
caímos del burro.
Mi padre y yo.
Yo y mi padre.
Revueltos.
Las rodillas raspadas
en la piedra.
Recibimos
buenas patadas.
Mi padre y yo.
Los dos
nunca subimos
en la vida.
***
[4]
Solilóquio de Nina Simone
Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo em que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
raio de Iansã, trovão, ciclone,
sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
Ruminações (1999)
Soliloquio de Nina Simone
Me habitó un dios espeso.
Sangre color de hígado.
Veneno tallado, macerado y amargo.
Hizo morada en cada célula.
En los alvéolos, en las entrañas, bajo las uñas.
Expande la vena del cuello.
Sangra por las encías.
Latea en las sienes y en los pulsos.
Planta arrancada de la tierra africana,
tiende sus raíces hondas de baobab
y trae sabor a barro a la boca.
Tiene gusto atávico que recuerda
el lodo del que se originó el hombre.
Me habitó un dios exigente,
que me hiere y me exaspera.
Que pisotea lo que yo era.
Que dice lo que no pensaba
y, diciéndome lo contrario,
me hace gustar del calvario
que, a ciegas, yo creé.
Nombreo lo que no tiene nombre:
rayo de Iansã, trueno, ciclón,
soplo de Orixá, c’est moi
Nina Simone.
***
[5]
Deformação
eh pomba suja
urubuzinha de metrópole
ratazana
ávida por dejetos
bebedora de água preta
aí está você:
uma chapa
uma pasta
de pena e sangue
milhares de vezes
vai-se repetir sua morte
sob os pneus
eh pomba lerda
viu o que a cidade lhe fez?
Bem feito para você.
Viu o que a cidade nos fez?
Mundo mudo (2003)
Deformación
eh paloma sucia
buitrecita de metrópoli
rata
ávida de desechos
bebedora de agua negra
ahí estás:
una lámina
una pasta
de pluma y sangre
miles de veces
se repetirá tu muerte
bajo los neumáticos
eh paloma torpe
¿viste lo que la ciudad te hizo?
Bien hecho para ti.
¿Viste lo que la ciudad nos hizo?
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata (MG) no dia 24 de agosto de 1955 e faleceu em São Paulo, aos 58 anos, em 30 de janeiro de 2014. Estudou Administração de Empresas e Jornalismo. Atuou como jornalista e publicitário. Escreveu nove livros de poemas: Azul navalha (1988), As faces do rio (1991), Do silêncio da pedra (1996), A carne e o tempo (1997), Ruminações (1999), Pelo corpo (2002), Mundo mudo (2003), O homem inacabado (2010) e O antipássaro (2012-2014). Escreveu também livros infantojuvenis. Em sua Poesia reunida, organizada por Paulo Ferraz e Tarso de Melo e publicada em 2023 pelo selo Círculo de Poemas, pode-se avaliar a grandeza e a potência de sua poesia. O professor, poeta e crítico literário Alexandre Bonafim traduziu para o espanhol um conjunto de seus poemas cuja mostra Ermira publica com exclusividade.





