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Foto: Divulgação
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 28 de dezembro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
28/12/2025 em Florações

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Cinco poemas de Donizete Galvão

[Curadoria de Luís Araujo Pereira; seleção e tradução para o espanhol de Alexandre Bonafim]

[1]

Irmão inventado

Na noite de olhos secos,

um outro repete meus gestos.

Num quarto igual a este,

interroga o branco das paredes.

Se durmo, sonhará ele meu sonho?

Beberemos os dois

a água do mesmo rio?

Meu irmão inventado,

o que eu faço não sei.

Quem me lê é quem me cria.

Espalho cacos de um espelho.

Minha face por inteiro não verei.

Veja você por mim qualquer dia.

Azul navalha (1988)


Hermano inventado

En la noche de ojos secos,

un otro repite mis gestos.

En una habitación igual a esta,

interroga el blanco de las paredes.

Si duermo, ¿soñará él mi sueño?

¿Beberemos los dos

el agua del mismo río?

Mi hermano inventado,

lo que hago no lo sé.

Quien me lee es quien me crea.

Esparzo trozos de un espejo.

Mi rostro entero no veré.

Míralo tú por mí algún día

***

[2]

Pontos de vista

Lá vai o homem

enterrar seu morto.

Olhos fincados no chão,

gane de dor.

O rabo entre as pernas.

Na sarjeta, surge ela.

Cachorra. Pele e costelas.

Lambe um osso branco e largo

em que não resta sombra de carne.

O olhar de súplica

de quem tem medo, dela,

encontra o olhar, dele,

que inveja a sorte

e o osso da cadela.

As faces do rio (1991)


Puntos de vista

Allá va el hombre

a enterrar a su muerto.

Ojos clavados en el suelo,

aullido de dolor.

La cola entre las piernas.

En la cuneta, aparece ella.

Perrra. Piel y costillas.

Lame un hueso blanco y ancho

en el que no queda sombra de carne.

La mirada de súplica

de quien tiene miedo, de ella,

encuentra la mirada, de él,

que envidia la suerte

y el hueso de la perra.

***

[3]

Escoiceados

Meu pai e eu

nunca subimos

num alazão

que galopasse

ao vento.

Tínhamos

um burro

cinza malhado:

o Ligeiro.

Foi apanhado

de um conhecido

por ninharia.

Chegou com fama

de sistemático,

cheio de refugos.

De trote tão curto

que dava dor

nas costelas.

De certa vez,

caímos do burro.

Meu pai e eu.

Eu e meu pai.

Embolados.

Joelhos esfolados

no pedregulho.

Levamos

bons coices.

Meu pai e eu.

Os dois

nunca subimos

na vida.

Ruminações (1989)


Pateados

Mi padre y yo

nunca montamos

en un alazán

que galopara

al viento.

Teníamos

un burro

gris manchado:

el Ligeiro.

Lo compró

a un conocido

por una miseria.

Llegó con fama

de sistemático,

lleno de rechazos.

De trote tan corto

que dolían

las costillas.

Una vez,

caímos del burro.

Mi padre y yo.

Yo y mi padre.

Revueltos.

Las rodillas raspadas

en la piedra.

Recibimos

buenas patadas.

Mi padre y yo.

Los dos

nunca subimos

en la vida.

***

[4]

Solilóquio de Nina Simone

Habitou-me um deus espesso.

Sangue cor de fígado.

Veneno talhado, macerado e amargoso.

Fez morada em cada célula.

Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.

Expande a veia do pescoço.

Sangra pelas gengivas.

Lateja nas têmporas e nos pulsos.

Planta arrancada da terra africana,

deita suas raízes fundas de baobá

e traz gosto de lama à boca.

Tem sabor atávico a relembrar

o lodo em que se originou o homem.


Habitou-me um deus exigente,

que me fere e exaspera.

Que espezinha o que eu era.

Que fala o que eu não pensara

e, dizendo-me ao contrário,

faz-me gostar do calvário

que, às cegas, eu criei.

Nomeio que não tem nome:

raio de Iansã, trovão, ciclone,

sopro de Orixá, c´est moi

Nina Simone.

Ruminações (1999)


Soliloquio de Nina Simone

Me habitó un dios espeso.

Sangre color de hígado.

Veneno tallado, macerado y amargo.

Hizo morada en cada célula.

En los alvéolos, en las entrañas, bajo las uñas.

Expande la vena del cuello.

Sangra por las encías.

Latea en las sienes y en los pulsos.

Planta arrancada de la tierra africana,

tiende sus raíces hondas de baobab

y trae sabor a barro a la boca.

Tiene gusto atávico que recuerda

el lodo del que se originó el hombre.


Me habitó un dios exigente,

que me hiere y me exaspera.

Que pisotea lo que yo era.

Que dice lo que no pensaba

y, diciéndome lo contrario,

me hace gustar del calvario

que, a ciegas, yo creé.

Nombreo lo que no tiene nombre:

rayo de Iansã, trueno, ciclón,

soplo de Orixá, c’est moi

Nina Simone.

***

[5]

Deformação

eh pomba suja

      urubuzinha de metrópole

ratazana

ávida por dejetos

         bebedora de água preta

aí está você:

                   uma chapa

                   uma pasta

de pena e sangue

milhares de vezes

vai-se repetir sua morte

               sob os pneus

eh pomba lerda

viu o que a cidade lhe fez?

Bem feito para você.

Viu o que a cidade nos fez?

Mundo mudo (2003)


Deformación

eh paloma sucia

      buitrecita de metrópoli

rata

ávida de desechos

         bebedora de agua negra

ahí estás:

                   una lámina

                   una pasta

de pluma y sangre

miles de veces

se repetirá tu muerte

               bajo los neumáticos

eh paloma torpe

¿viste lo que la ciudad te hizo?

Bien hecho para ti.

¿Viste lo que la ciudad nos hizo?

Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata (MG) no dia 24 de agosto de 1955 e faleceu em São Paulo, aos 58 anos, em 30 de janeiro de 2014. Estudou Administração de Empresas e Jornalismo.  Atuou como jornalista e publicitário. Escreveu nove livros de poemas: Azul navalha (1988), As faces do rio (1991), Do silêncio da pedra (1996), A carne e o tempo (1997), Ruminações (1999), Pelo corpo (2002), Mundo mudo (2003), O homem inacabado (2010) e O antipássaro (2012-2014). Escreveu também livros infantojuvenis. Em sua Poesia reunida, organizada por Paulo Ferraz e Tarso de Melo e publicada em 2023 pelo selo Círculo de Poemas, pode-se avaliar a grandeza e a potência de sua poesia. O professor, poeta e crítico literário Alexandre Bonafim traduziu para o espanhol um conjunto de seus poemas cuja mostra Ermira publica com exclusividade.

Tag's: Donizete Galvão, poesia, poesia brasileira

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