Jornalista, roteirista e professor de Cinema e Audiovisual do Instituto Federal de Goiás (IFG), na cidade de Goiás, Adérito Schneider lança seu segundo livro, Fronteyra, nesta sexta-feira, dia 23 de janeiro, a partir das 19 horas, na cervejaria Old Monkey Brewpub, no Setor Sul. A nova obra é uma novela escrita em portunhol, em que o autor, como indica o título do livro, explora as fronteiras não só geográficas e linguísticas entre o Brasil e a América Latina, mas também as existentes entre gêneros literários – o fantástico, o horror, o bizarro, o erótico, entre outros –, para narrar a aventura “no outro lado do rio” entre dois amigos na transição da adolescência para a vida adulta. Autor do livro de contos O rastro da lesma no fio da navalha (2022) e organizador das coletâneas Cidade sombria (2018) e Cidade infundada (2022), Adérito concedeu a seguinte entrevista a Ermira por e-mail para falar de seu novo trabalho.
A história que você narra é escrita em “portunhol”, variante que é falada nas regiões de fronteira do Brasil. Por que você fez essa opção? Existe uma intenção estética nessa escolha?
Sou goiano, mas cresci em Mato Grosso, estado que faz fronteira com a Bolívia. Além disso, a família da minha mãe é da região oeste do Paraná, que faz fronteira com o Paraguai – inclusive, com parentes “brasiguaios”. Então, vários momentos da minha vida foram marcados por experiências de fronteira. Em 2010, vivi um trimestre em La Paz. Nessa época, eu era um jornalista em início de carreira e morar na Bolívia me marcou bastante; me despertou um sentimento de pertencimento à América Latina que até então eu não tinha, visto que, de maneira geral, o Brasil vive de costas para seus “hermanos”. Nessa mesma época, meus amigos estudantes e egressos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, organizavam o Perro Loco – Festival de Cinema Universitário Latino-Americano, do qual participei em algumas edições. Eu tinha acabado de voltar de La Paz e acompanhava um evento no Perro Loco em que o ator Paulo César Pereio puxou o debate do portuñol como língua do futuro para a América Latina e como algo que, na prática, sempre existiu nas regiões de fronteira (no caso dele, no Rio Grande do Sul e da proximidade com o Uruguai e a Argentina). Aquela conversa me marcou muito e lembro que pensei: um dia vou escrever um romance em portuñol. Fiquei anos com essa ideia na cabeça, mas sem nunca encontrar a história “ideal” para executá-la. Anos depois, fazendo pesquisas para o projeto Cidade infundada, que reúne contos de ficção científica/especulativa ambientados em Goiânia, me deparei com o conto “Los cibermonos de Locombia”, do Ronaldo Bressane, publicado na antologia Fractais tropicais, organizada pelo Nelson de Oliveira. Chapei. É um conto muito bom. E foi quando descobri que aquela minha ideia juvenil não tinha nada de original, pois existe uma certa tradição do “portuñol selvagem” na literatura brasileira – inclusive, o próprio Nelson de Oliveira é um contumaz praticante dessa vertente. Nessa época, além de estar trabalhando no projeto da antologia Cidade infundada e lançando meu primeiro livro “solo” de contos (O rastro da lesma no fio da navalha), eu estava planejando meu primeiro romance (E os hipopótamos foram batidos no liquidificador), um cyberpunk ambientado em Goiânia num futuro não muito distante em que os hipopótamos do Pablo Escobar se alastraram da Colômbia por toda a América Latina. Então, cogitei escrever o romance em portuñol, mas achei que seria ousado demais para alguém que já tinha o enorme desafio de escrever um primeiro romance. Desisti, inclusive, porque não seria verossímil. Infelizmente, o espanhol não é um idioma muito disseminado no Brasil. Temos pouca influência da cultura hispano-latino-americana, seja na literatura, cinema, música etc. Então, depois de finalizar esse romance, ainda inédito, fiquei (na verdade, estou) lidando com esse limbo de ansiedade até que o livro seja de fato publicado. Nesse meio tempo, surgiu a ideia da “novelita” Fronteyra – que, logo soube, era, finalmente (e uma década e meia depois), a história que eu buscava para meu projeto em portuñol. Depois de escrever o Fronteyra, fui ler outros autores brasileiros que se dedicam ao portuñol: o Mar Paraguayo, de Wilson Bueno; a obra do Douglas Diegues; os contos do Nelson Oliveira… Não quis ser “contaminado” pelo estilo deles, então foi proposital lê-los apenas depois, mas acho importante citá-los como autores que me antecedem nessa proposta. Portanto, claro, há uma intenção estética na escolha pelo portuñol, pois a narrativa aborda as proximidades e distâncias entre povos de um lado e outro do rio, com seus conflitos. Por outro lado, eu não quis me aprofundar em pesquisas no campo da sociolinguística para escrever a novela; não quis “academizar” demais a pesquisa ou o projeto. Muitas vezes, o portuñol praticado na fronteira é falado por pessoas que são analfabetas tanto em português quanto em espanhol. É uma língua sem gramática, sem regras, livre, indomável, diversa e em constante mutação – como qualquer outra, mas, com certeza, muito mais “selvagem”. E, para finalizar essa longa resposta, ressalto que, conscientemente, Fronteyra é uma narrativa com sintaxe em português, ou seja, foi pensada num leitor brasileiro – que terá alguma dificuldade na leitura, a depender do contato que tem (ou não) com o espanhol, mas certamente menos dificuldade do que um leitor hispano-hablante.
Há elementos heterogêneos na narrativa de Fronteyra, como o fantástico, a aventura, o erótico, o bizarro etc. De que maneira esses códigos contribuem para a história?
Concebi a novela Fronteyra como um projeto para lidar com várias fronteiras. A mais evidente é a fronteira física entre países ou regiões e seus povos (não quis que ficasse claro exatamente quais países): o rio como margem, limite, fronteira, divisa, borda; como algo que divide duas sociedades e culturas marcadas por uma língua ao mesmo tempo familiar e distante. No entanto, o livro lida com outras fronteiras, cruzando-as, mas também borrando-as. O próprio gênero literário “novela”, tal como o concebemos em português, é algo na fronteira entre o conto (short story, tale, cuento) e o romance (novel, novela em espanhol), mas de forma controversa e sem muito consenso. Além disso, a narrativa cria uma intersecção entre “gêneros” ou quase isso, como a road novel e a literatura dos beatniks, o (neo)fantástico (ou realismo-maravilhoso latino-americano), o surrealismo ou onírico, o horror, o romance de formação (que, por sua vez, fala de um sujeito que está na fronteira entre a adolescência e a vida adulta) etc. Ademais, Fronteyra conta com um narrador que está em um não lugar de fronteira. Isso sem falar de uma fronteira frágil entre a heterossexualidade e a homossexualidade, de uma amizade masculina marcada por um teor homoerótico, em que “brodagem”, amor (ainda que platônico), tesão (ainda que inconsciente), inveja e ciúme se misturam naquele bolo de competição mútua, virilidade, camaradagem, lealdade, sadismo etc.
Fronteyra é o seu segundo livro depois de O rastro da lesma no fio da navalha (2022), de contos. Você tem preferência por narrativas curtas? Há algum projeto de escrever um romance?
Na verdade, como adiantei na primeira resposta, estou com um romance finalizado, mas inédito (E os hipopótamos foram batidos no liquidificador). Paralelo a isso, estou escrevendo (aos poucos) um novo livro de contos. E tenho dezenas e dezenas de ideias para contos e romances (o que não tenho é tempo para escrever tanto assim). Não tenho preferência por nenhum dos gêneros, especificamente. Gosto de prosa, de narrativa. Como escritor e como leitor, gosto tanto do romance quanto do conto em igual medida.
Você é professor de Cinema e Audiovisual. A linguagem cinematográfica exerce alguma influência na sua escrita?
Com certeza. Para o bem ou para o mal, acho que essa é uma das grandes características da literatura contemporânea. Atualmente, sou professor de Cinema e Audiovisual do Instituto Federal de Goiás (IFG) e fui durante muitos anos roteirista na Fundação RTVE/TV UFG. Então, é inevitável que essa influência exista. E isso está muito claro no meu livro de contos O rastro da lesma no fio da navalha, em que optei por escancarar essa influência. No entanto, acho que consigo dosar essa influência (ou ao menos tento fazer isso). Não renego a mútua influência entre cinema e literatura, mas tento pensar cinematograficamente quando estou escrevendo um roteiro e pensar literariamente quando estou escrevendo literatura.
Você organizou as antologias de contos Cidade sombria, Cidade infundada e uma terceira está prevista, reunindo autores de Goiás e tendo Goiânia como cenário das histórias. Como surgiu a ideia desse projeto e qual é o seu objetivo?
O livro Cidade sombria é uma antologia de contos noir ambientados em Goiânia e escritos por autores goianos. É um projeto paralelo à tese de doutorado que desenvolvi entre os anos de 2015 e 2019, dedicada ao noir e ao filme A dama do Cine Shangai, do Guilherme de Almeida Prado. Na verdade, o projeto é inspirado nos livros Rio noir e São Paulo noir, que o Tony Bellotto organizou como versões brasileiras de um projeto internacional que reúne autores para escreverem contos noir ambientados numa determina cidade (Teerã, Bagdá, Beirute etc). Na época, além da questão desse gênero que gosto desde a infância, era importante para mim conhecer melhor a literatura goiana, os autores goianos, a cena literária local. Além disso, havia um desejo de conhecer melhor a cidade de Goiânia e de contribuir para essa cena não apenas reunindo autores num mesmo projeto, buscando uma visibilidade até nacional para o que estava sendo produzido aqui de literatura, mas também proporcionando aos leitores a oportunidade de ler narrativas ficcionais ambientadas na capital goiana, uma importante cidade brasileira sub-representada no cenário nacional (algo que parece estar mudando agora, com o hype do agronegócio e os urubus atraídos por cifras bilionárias). Como gostei do projeto e acho que ele foi relativamente bem recebido, além de efetivamente cumprir um certo “papel social” para a cena literária local (com todas as injustiças inerentes, pois, claro, há sempre um recorte que implica exclusões), eu decidi seguir adiante. Assim, veio a ideia do Cidade infundada, desta vez organizado em parceria com a minha esposa e também escritora Fernanda Marra. O Cidade infundada segue o mesmo formato de contos inéditos escritos por autores goianos e com narrativas ambientadas em Goiânia, mas, desta vez, o gênero é a ficção científica/especulativa – infelizmente, bem propício para quem vivia na época o combo de neoliberalismo, avanços tecnológicos desenfreados, aquecimento global, ascensão do neofascismo e uma pandemia de coronavírus. E, finalmente, a ideia é finalizar a trilogia com o Cidade assombrada, em proposta semelhante, mas dedicada ao gênero horror. É um projeto em curso, neste momento. Torço para que o livro seja publicado ainda neste ano de 2026, seguindo a lógica de lançamentos de quatro em quatro anos (o Cidade sombria é de 2018 e o Cidade infundada, de 2022).
Serviço
Lançamento do livro: Fronteyra, de Adérito Schneider
Quando: dia 23 de janeiro, sexta-feira, a partir das 19h
Local: Old Monkey Brewpub (Rua 89, 642. Setor Sul)
Ficha técnica
Livro: Fronteyra
Autor: Adérito Schneider
Editora: Madame Psicose
Páginas: 80
Preço: 45 reais
Mais informações: https://madamepsicose.com/ols/products/xn--fronteyra





