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Imagem: Reprodução
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 15 de janeiro de 2023

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
15/01/2023 em Florações

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Cinco poemas de Joaquim Cardozo

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Tarde no Recife

Tarde no Recife.

Da ponte Maurício o céu e a cidade.

Fachada verde do Café Maxime,

Cais do Abacaxi. Gameleiras.


Da torre do Telégrafo Ótico

A voz colorida das bandeiras anuncia

Que vapores entraram no horizonte.


Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;

A tagarelice dos bondes e dos automóveis.

Um camelô gritando: – alerta!

Algazarra. Seis horas. Os sinos.


Recife romântico dos crepúsculos das pontes,

Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos

                                                                                  [holandeses,

Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,

Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas

                                                                         [do Pacífico;

Recife romântico dos crepúsculos das pontes

E da beleza católica do rio.

Poemas (1947)

• • •


[2]

O relógio

Quem é que sobe as escadas

Batendo o liso degrau?

Marcando o surdo compasso

Com uma perna de pau?


Quem é que tosse baixinho

Na penumbra da antessala?

Por que resmunga sozinho?

Por que não cospe e não fala?


Por que dois vermes sombrios

Passando na face morta?

E o mesmo sopro contínuo

Na frincha daquela porta?


Da velha parede triste

No musgo roçar macio:

São horas leves e tenras

Nascendo do solo frio.


Um punhal feriu o espaço…

E o alvo sangue a gotejar,

Deste sangue os meus cabelos

Pela vida hão de sangrar.


Todos os grilos calaram

Só o silêncio assobia;

Parece que o tempo passa

Com sua capa vazia.


O tempo enfim cristaliza

Em dimensão natural;

Mas há demônios que arpejam

Na aresta do seu cristal.


No tempo pulverizado

Há cinza também da morte:

Estão serrando no escuro

As tábuas da minha sorte.

Poemas (1947)

• • •


[3]

O salto tripartido

Havia um arco projetado no solo

Para ser recomposto em três curvas aéreas,

Havia um voo abandonado no chão

À espera das asas de um pássaro;


Havia três pontos incertos na pista

Que seriam contatos de pés instantâneos.

Três jatos de fonte, contudo, ainda secos,

Três impulsos plantados querendo nascer.


Era tudo assim expectativo e plano

Tudo além somente perspectivo e inerte;

Quando Ademar Ferreira, com perfeição olímpica,

Executou, em relevo, o mais alto

– Em notas de arpejo

– Em ritmo iâmbico

O tripartido salto.

Signo estrelado (1960)

• • •


[4]

Filho pródigo

Minha mãe!    Aqui estou.

Velho, doente, já bem próximo da morte.

À espera de um trapo de terra, de um molambo de lama

Para cobrir o meu corpo contra o frio do vento,

Que, feito em chuva, penetrar na terra de minha última carne.

E tu, Minha Mãe! se estiveres n’algum lugar

De tua grande ilusão, não chores.


Cada vivo morre uma parte da morte de cada próximo.

E o seu fim total terá quando morrerem todos os seus mortos;

E o morto? Morre também em cada um dos vivos que morre.


Minha Mãe, aqui não estou para te chamar

Mamãe, e para te pedir que venhas me perdoar;

Estou aqui para te dizer que sempre estive em ti

E que fui uma parte das muitas que tiveste:

A parte mais humilde, mais simples, mais amarga… mais triste

E, ao mesmo tempo, a mais severa, mais dura, mais firme e resoluta.


Minha mãe, dentro de mim, comigo, morrerás de novo.

Mundos paralelos (1970)

• • •


[5]

Soneto somente

Nasci na várzea do Capibaribe

De terra escura, de macio turvo,

De luz dourada  no horizonte curvo

E onde, a água doce, o massapê proíbe.


Sua presença para mim se exibe

No seu ar sereno que inda hoje absorvo,

E nas noites, com negridão de corvo,

Antes que ao porto do seu céu arribe


A lua. Assim só tenho essa planície…

Pois tudo quanto fiz foi superfície

De inúteis coisas vãs, humanamente.


De glórias e de alturas e universos

Não tenho o que dizer nestes meus versos:

– Nessa várzea nasci, nasci somente.

Mundos paralelos (1970)

Perfil

Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu em Recife no dia 26 de agosto de 1897 e morreu em Olinda em 4 de novembro de 1978. Engenheiro estrutural, integrou a equipe de Oscar Niemeyer na construção de Brasília e no conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte. Foi ainda poeta, contista, dramaturgo, professor universitário, tradutor, desenhista, caricaturista e editor de revistas de arte e arquitetura. Seus primeiros poemas datam de 1924, mas sua produção poética começa a aparecer em livro em 1947.  Escreveu 11 livros, entre os quais se destacam: Poemas (1947), Signo estrelado (1960), O coronel de Macambira: bumba meu boi, em dois quadros (1963), Trivium (1952-1970), Mundos paralelos (1970), Poesias completas (1971), Os anjos e os demônios de Deus (1973), O interior da matéria e o capataz de Salema (1975). Em 2009, a Editora Aguilar publicou Poesia completa e prosa. Desfrutou de longa convivência com os modernistas e com os intelectuais de seu tempo. Às vezes de caráter melancólico e experimentalista, a sua poesia tem a cidade de Recife e o Nordeste como referência temática.

Tag's: Joaquim Cardozo, modernismo nordestino, poesia, poesia brasileira

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