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Foto: Instituto Moreira Salles/Acervo
Foto: Instituto Moreira Salles/Acervo
Foto: Instituto Moreira Salles/Acervo

Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 21 de maio de 2023

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
21/05/2023 em Florações

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Cinco poemas de Paulo Mendes Campos

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Em noite tropical

A noite se perfumava

Da brisa do roseiral.

Respirei o ar de Deus

No sono do vegetal,

Mas não gostava da lua

Com seu brilho mineral

Porque sem dizer a ela

Me fazia muito mal

Temer a todo momento

A voz de um policial.

Inês despida na relva

Era uma Inês irreal.

O claro-escuro do ventre

Luzia na noite nua

Como as luzes de um punhal.

Quando depois se vestia

A aurora amadurecia

As copas do pinheiral.

A palavra escrita (1951)

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[2]

Poema de Paris

Sopravam ventos largos sobre a rua

Que vai de meu hotel até meu bar.

Mais longe, além do bar, surgiu a lua

Vulgar e triste sobre o bulevar.

Vous êtes triste? – perguntou-me nua

Uma sueca com que fui amar.

Triste de uma tristeza como a tua,

Como a lua no céu, triste e vulgar.

Sobre os Campos Elísios, cor de vinho

Chegava a madrugada… e seu carinho

Fez do luar, luar de Apollinaire –

Além do bar, da lua, da mulher.

A palavra escrita (1951)

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[3]

Litogravura

Eu voltava cansado como um rio.

No Sumaré altíssimo pulsava

a torre de tevê, tristonha, flava.

Não: voltava humilhado como um tio

bêbado chega à casa de um sobrinho.

Pela ravina, lento, lentamente,

feria-se o luar, num desalinho

de prata sobre a Gávea de meus dias.

Os cães quedaram quietos bruscamente.

Foi no tempo dos bondes: vi um deles

raiar pelo Bar Vinte, borboleta

flamante, touro rútilo, cometa

que se atrasa no cosmo e desespera:

negra, na jaula em fuga, uma pantera.


Passei a mão nos olhos: suntuosa,

negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.

Testamento do Brasil (1966)

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[4]

O morto

Por que celeste transtorno

tarda-me o cosmo do sangue

o óleo grosso do morto?


Por que ver pelo meu olho?

Por que usar o meu corpo?

Se eu sou vivo e ele é morto?


Por que pacto inconsentido

(ou miserável acordo)

aninhou-se em mim o morto?


Que prazer mais decomposto

faz do meu peito intermédio

do peito ausente do morto?


Porque a tara do morto

é inserir sua pele

entre o meu e o outro corpo.


Se for do gosto do morto

o que como com desgosto

come o morto em minha boca.


Que secreto desacordo!

Ser apenas o entreposto

de um corpo vivo e outro morto!


Ele é que é cheio, eu sou oco.

Testamento do Brasil (1966)

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[5]

Copacabana 1945

I

As fichas finais do jogo

foram recolhidas; fecha-se

o cassino; abre-se em fogo


o coração que devora.

Vejo em vez de eternidade

no relógio minha hora.


E ser quiser vejo a tua.

Às cinco tinhas encontro

num cotovelo de rua.


As cigarras do verão

tiniam quando sugavas

teu uísque com sifão.


Às onze no Wunder Bar

por meio acaso encontravas

a mulher que anda no ar.


Às três no Copabacana

uma torpeza uterina

pestana contra pestana.


Às quatro e pouco saías,

comias um boi às cinco,

às seis e meia morrias.


Às duas ressuscitavas,

às cinco tinhas encontro

às sete continuavas.


II

A mensagem abortada

de Copacabana perde-se

na viração: não é nada.


Morre um homem na polícia.

Tantos casos. Não é nada:

os jornais dão a notícia.


Uma criança que come

restos na lata de lixo

não é nada: mata a fome.


Não é nada. A favela

pega fogo. Não é nada:

faz-se um samba para ela.


Um moço mata a família

e se mata. Não é nada:

poupa o drama à tua filha.


Uma menina estuprada.

Uma virgem cai do céu.

Nada. Copacabanada.


III

Dava um doce calafrio

no esmalte azul recortado

súbito à tarde um navio.


O mistério transparente

do navio que passava

é ter tornado presente:


por fantasia do fado

naquele tempo ao passar

já parecia passado.


Quando ela achava o caminho

na ponta do Arpoador

eu ficava mais sozinho.


Pois um homem-gaivota

segue um barco, mesmo quando

não lhe conhece a derrota.


Latitude, longitude,

compasso de meu exílio…

Um homem sempre se ilude.


E quando o mar sem navio

ficava, eu olhava para trás

e me embrulhava no Rio.


IV

Anoitecia em cristais,

em paz de pluma tornando

à dor de Minas Gerais.


A dor que dá mas devora

como um blues comercial

no carro, quando é a hora.


E quando à janela o cone

de sombra me abismava

eu ligava o telefone.


Esse aparelho surdia

da ramagem de meus brônquios,

negra liana, e subia


em tropismos machucados,

pelas calhas do silêncio,

pelos terraços pasmados,


pela traqueia das áreas,

como tromba de elefante

ou aranhas solitárias


articuladas ao fio

como língua de serpente

a vasculhar o vazio,


a buscar qualquer canal

de amor (ou fosse miragem!)

no deserto vertical.


V

Às vezes chegava a lua

no despudor deslumbrante

da mulher que chega nua.


A mulher transverberada

entornando-se amorosa

nas vagas da madrugada.


Algumas foram no peito

do casto lençol do céu

para o cosmo do teu leito.


VI

Copacabana, golfão

sexual: soma dois corpos

mas divide solidão.


VII

Pelas piscinas suspensas,

pelas gargantas dos galos,

pelas navalhas intensas,


pelas tardes comovidas,

pelos tamborins noturnos,

pelas pensões abatidas,


eu vou por onde vou; vou

pelas esquinas da treva:

Copacabana acabou.

Testamento do Brasil (1966)

Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte (MG)  em 28 de fevereiro de 1922 e morreu no Rio de Janeiro no dia 1º de julho de 1991. Foi jornalista, tradutor, cronista e poeta. Cursou sucessivamente odontologia, direito e veterinária, mas não chegou a concluir nenhum deles. Em 1945, vai ao Rio de Janeiro conhecer o poeta Pablo Neruda e decide mudar para a cidade. Ingressa na imprensa local, escrevendo crônicas, poemas e artigos sobre literatura para o Correio da Manhã, O Jornal e Diário Carioca. Publicou os seguintes livros de poemas: A palavra escrita (1951), O domingo azul do mar (1958), Testamento do Brasil (1966), Transumanas (1977), Balada de amor perfeito (1979), Arquitetura (1979), Diário da tarde (1981), Trinca de copas (1984) e Poemas (antologia, 1984). Em 2022, com seleção e posfácio de Luciano Rosa, a Companhia das Letras publicou Poesia, que reúne sua obra poética, além de poemas esparsos e traduzidos. O pesquisador afirma que, “Criada sob o signo da pluralidade, a lírica de PMC revela-se refratária a categorizações simplistas quando submetida ao olhar atento.” Como cronista, publicou mais de uma dezena de livros, entre os quais O cego de Ipanema (1960), O colunista do morro (1965), Hora do recreio (1967), O amor acaba – Crônicas líricas e existenciais (1999), Alhos e bugalhos (2000), O gol é necessário – Crônicas esportivas (2000). É autor ainda da antologia Forma de expressão do soneto (1952).

Tag's: literatura, literatura brasileira, Paulo Mendes Campos, poesia, poesia brasileira

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