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Foto: Reprodução
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 27 de outubro de 2024

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
27/10/2024 em Florações

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Cinco poemas de Marly de Oliveira

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

1

Como qualquer animal,

olha as grades flutuantes.

Eis que as grades são fixas:

ela, sim, é andante.

Sob a pele, contida

– em silêncio e lisura –

a força do seu mal,

e a doçura, a doçura,

que escorre pelas pernas

e as pernas habitua

a esse modo de andar,

de ser sua, ser sua,

no perfeito equilíbrio

de sua vida aberta:

una e atenta a si mesma,

suavíssima pantera.

A suave pantera (1962)

• • •



[2]

VIII

O ar que respiro

é tão tranquilo

aqui nestes campos de esmeralda,

nesta velha fazenda,


onde nem casa

mais existe,

e livre anda o gado pela terra,

e as novilhas se espalham


quentes ao sol,

virgens ainda.

Alto capim medra em toda parte.

Não há cheiro de estábulo


nem de alecrim.

O ar nem tem cheiro

por estas paragens silenciosas:

o ar se respira apenas.


Nestes gerais

vive-se mais,

eu penso comigo olhando o campo,

toalha desdobrada.

A vida natural (1967)

• • •


[3]

XXXII

O amor não se desnuda ou se desvenda

com a luminosidade de um diásporo,

a fria fonte, o claro

mover-se de ondas para dentro e longe;

o inatingido, súplice oferenda

de quem precisa e quer desse imediato

viver como nos altos

feéricos cimos de distantes montes;

o solitário, esse andrajoso, o monge

do incognoscível, servo do absoluto,

que flui perenemente num obscuro

tempo fora do tempo e todavia

à nossa mão, por ser presente, e via.


O amor não se descobre, o imanifesto,

a cor além da cor, o cinabrino,

o sangue, a seiva, o vivo

zarcão, irredutível ao começo,

ao nunca ousado, ao antes de um deserto;

o não pensado, o talo fino e frio

da planta, o sem declínio

do perecível, chama, fonte, avesso

da calma luz que emana do arvoredo

ou de mim quando penso deleitada

nas coisas que estão vivas, templos, arcas,

onde a imaginação dá com o invisível

que anima a pedra e a flor e não divide;

o fogo do diamante, a força, o brilho

subaquático, crivo do que vive

em angustiosa espera,

imóvel tecelão do que se tece

com fios não de seda, de infinito,

maleáveis fios do que é incompreensível,

no barro cabe, na erva,

amor, que todo o múltiplo convertes

ao indiviso, ao alto, puro cerne,

espelho que se vai esmerilhando

à proporção que se elimina o quando

das geadas, anêmonas submersas,

e as florações do efêmero dispersas.

A vida natural (1967)

• • •


[4]

I

A carne é boa, é preciso louvá-la.

A carne é boa, não é triste ou fraca.

O que a atinge é a fraqueza que há num homem,

a tristeza, maior que um homem, mata-a.

A carne nada tem, salvo o seu sono,

barro tranquilo de harmoniosa forma,

corpo que distraídos animamos,

fonte real de toda a nossa glória.

A carne é o instrumento do princípio,

é por ela que eu vivo, que vivemos,

e se revela o amor como é preciso:

o que está fora se une ao que está dentro,

alma e corpo no corpo confundidos,

e a sensação completa de estar vendo.

O sangue na veia (1967)

• • •


[5]

IV

Uma gema que fosse toda fria,

mas na aparência, e toda quente dentro,

e que tivesse a lisa superfície

do que se usa com grande atrevimento,

mas no íntimo; uma gema toda calma,

quase uma água esse fogo nos doendo,

um silêncio que fosse uma cascata,

mas de que o próprio fogo fosse o centro

e de que o próprio fogo fosse a água.

Assim o amor, assim o que se espalha

e não entorna, e vive do que vive,

e é móvel e capaz de ter limite;

assim o que se adentra e se dilata

como o sangue na veia, e é todo livre.

O sangue na veia (1967)

Marly de Oliveira nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (ES) em 11 de março de 1935 e morreu no Rio de Janeiro em 1º de junho de 2007. Formou-se em Letras Neo-Latinas na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ). Contemplada com bolsa de estudos, cursou História da Língua Italiana e Filologia Românica na Universidade de Roma, onde conheceu Giuseppe Ungaretti, que deu acolhida aos seus poemas escritos em italiano. No período de 1962 a 1967, tornou-se professora de Língua, Literatura Italiana e Literatura Hispano-Americana. Viveu alguns anos em Buenos Aires, Genebra e Brasília. Foi casada com o diplomata Lauro Moreira, com quem teve duas filhas, e mais tarde com o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem organizou a obra completa, publicada em 1994 pela Nova Aguilar. Publicou os seguintes livros de poemas: Cerco da primavera (1957, Prêmio Alphonsus de Guimaraens-INL), Explicação de Narciso (1960), A suave pantera (1962, Prêmio Olavo Bilac-ABL), A vida natural e O sangue na veia (1967), Contato (1975), Invocação de Orpheu (1978), Aliança (1980), O banquete (1988), O deserto jardim (1990), O mar de permeio (1997, Prêmio Jabuti), Uma vez, sempre (1999), Um feixe de rúculas (2023, póstumo).  Antônio Houaiss expressou-se assim na publicação de A vida natural e O sangue na veia (Editora Leitura): “A aventura poética, aqui, atinge um estado único no Brasil e quiçá na língua portuguesa: um fluir sonoro de completo mas imanifesto domínio dos apoios fonéticos; um artesanato de formas fixas que se embebe no mais acurado conhecimento do passado; uma temática que leva, ao mesmo passo, ao quinhentismo e antes, e aos amanhãs e depois, pertemporizando-se.”

 

Tag's: literatura, literatura brasileira, Marly de Oliveira, poesia, poesia brasileira

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