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Foto: Divulgação
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 24 de novembro de 2024

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
24/11/2024 em Florações

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Cinco poemas de José Paulo Paes

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

Um retrato

Eu mal o conheci

quando era vivo.

Mas o que sabe

um homem de outro homem?


Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo

até esse retrato na parede

de onde ele me olha o tempo todo. Para quê?


Não são muitas as lembranças

que dele guardo: a aspereza

da barba no seu rosto quando eu o beijava

ao chegar para as férias;

o cheiro de tabaco em suas roupas;

o perfil mais duro do queixo

quando estava preocupado;

o riso reprimido

até soltar-se (alívio!)

na risada.


Falava pouco comigo.

Estava sempre

noutra parte: ou trabalhando

ou lendo ou conversando

com alguém ou então saindo

(tantas vezes!) de viagem.


Só quando adoeceu e o fui buscar

em casa alheia

e o trouxe para a minha casa (que infinitos

os cuidados de Dora com ele!)

estivemos juntos por mais tempo.

Mesmo então dele eu só conheci

a luta pertinaz

contra a dor, o desconforto,

a inutilidade forçada, os negaceios

da morte já bem próxima.


Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso

imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me.


Ergo os olhos para ele na parede.

Sei agora, pai,

o que é estar vivo.

Prosas seguidas de odes mínimas (1992)

• • •


[2]

À televisão

Teu boletim meteorológico

me diz aqui e agora

se chove ou se faz sol.

Para que ir lá fora?


A comida suculenta

que pões à minha frente

como-a toda com os olhos.

Aposentei os dentes.


Nos dramalhões que encenas

há tamanho poder

de vida que eu próprio

nem me canso em viver.


Guerra, sexo, esporte

– me dás tudo, tudo.

Vou pregar minha porta:

já não preciso do mundo.

Prosas seguidas de odes mínimas (1992)

• • •


[3]

Momento

Visto assim do alto

no cair da tarde

o automóvel imóvel

sob os galhos da árvore

parece estar rumo

a algum outro lugar

onde abolida a própria

ideia de viagem

as coisas pudessem

livremente se entregar

ao gosto inato

da dissolução – e é noite.

Socráticas (2001)

• • •


[4]

Glauco

Nas duas vezes que voltei a Curitiba

não o encontrei.

Numa tinha viajado para o Rio

na outra tinha viajado para a morte.


E nem havia mais onde encontrá-lo:

o Belas Artes fechara

a redação de O Dia sumira-se no ar

as pensões eram terrenos baldios.


Desarvorado me sentei à mesa

de uma confeitaria na esperança – vã –

de que algum sobrevivente de outros tempos

viesse dar notícias dele.


Só a caminho do aeroporto tive

um relance dos seus óculos kavafianos

mas sem os olhos risonhos

por detrás das lentes:


livres embora da miopia do corpo

seus olhos continuavam no encalço

da eterna

               fugaz

                        inatingível

                                         Beleza Adolescente.

Socráticas (2001)

• • •


[5]

Still life

Paisagem de fundo

geometricamente ordenada

pelas barras da porta.


As folhas novas

do arbusto,

a coluna impositiva

do relógio de sol,

a touceira (via láctea

doméstica) dos copos-de-leite.


E, encostadas ao muro,

as folhas do antúrio

feito máscaras de deuses

implacáveis,

felizmente ainda

(ganhaste mais um dia!)

benignos.

Socráticas (2001)

José Paulo Paes nasceu em 22 de julho de 1926 na cidade de Taquaritinga (SP) e morreu no dia 9 de outubro de 1998 na capital paulista. Em 1944, mudou-se para Curitiba, onde graduou-se em química industrial, sem deixar de dedicar-se à literatura, escrevendo para a revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. Em 1949, retorna a São Paulo e passa a colaborar com os suplementos literários da Folha de S. Paulo e do O Estado de S. Paulo.  Convive com Graciliano Ramos, Jorge Amado, Oswald de Andrade e Alfredo Bosi. Na década de 1960, abandona as suas atividades de químico para se ocupar exclusivamente de literatura, assumindo também compromissos editoriais com a Cultrix. Nessa editora, com Massaud Moisés, organiza o Pequeno dicionário de literatura brasileira, publicado em 1967. Autodidata em várias línguas, dá início com grande produtividade à atividade de tradução, tendo vertido para o português autores como Charles Dickens, Joseph Conrad, Konstantinos Kaváfis, W. H. Auden, Rilke, Lewis Carrol, Paul Éluard, Lawrence Sterne e muitos outros. Pelo seu relevante trabalho na área, foi nomeado diretor da oficina de tradução de poesia no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Publicou, entre outros, os seguintes livros: O aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas cartas chilenas (1954), Resíduo (1973), É isso ali (1984), A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988), Prosas seguidas de odes mínimas (1992). Postumamente, foram lançados Ri melhor quem ri primeiro (1999), O lugar do outro (1999) e Socráticas (2001). Pavão, parlenda, paraíso (1977) reúne os seus ensaios. Na apresentação ao livro Socráticas, Alfredo Bosi considera que “Desta cidade poenta e ruidosa José Paulo Paes quis e soube ser uma espécie de Sócrates em tom menor: a consciência vigilante que interroga e incomoda, ao encalço de uma verdade tão ácida e aguda que não poupa nada nem ninguém, nem mesmo o próprio eu que a busca como um Pascal sem esperança, en gémissant.”

 

Tag's: José Paulo Paes, literatura, literatura brasileira, poesia, poesia brasileira

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