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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 16 de fevereiro de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
16/02/2025 em Florações

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Cinco poemas inéditos de Heleno Godoy

[1]

16. comemorar a páscoa

como se o pão comprado desse para todos

como se o vinho da garrafa fosse suficiente

como se o peixe na grelha satisfizesse a todos


como se o clichê resolvesse os problemas

como se a abstenção induzisse ao prazer

como se a fome não tivesse de ser saciada


pois pães se multiplicam se mais produzidos

vinhos mais engarrafados se a vindima for boa

pescaria maior propicia ainda mais peixes


que a safra então seja bem farta e abundante

que a uva espremida renda muito mais mosto

que o trigo plantado proporcione mais farinha


que a vida não se resuma a uma refeição

ou a um copo de vinho e peixe pensado

como um sacrifício por abstinências inúteis

coisas possíveis (inédito)

***


[2]

17. pescar

um engodo na ponta de um anzol

e se fisga o que se busca na água e

dela se tira, lugar do logro/da luta,

como quem tira da água o seu sus-

tento e tanto a mais que a vida dá


um engano na ponta de um terço e

se lança uma rede em busca fina de

fiéis que na água se jogam e se creem

assim ungidos para a longa busca do

que se crê a mais que a vida possa dar


um conchavo na ponta de um lápis

e se inscreve, além de datas e leis, a

desesperança de quem, em busca de

alívio, descobre que fica caro pagar

pelo que a vida deveria proporcionar

coisas possíveis (inédito)

***


[3]

18. celebrar corpus christi

se seria este o corpo ungido, quem sabe

untado (é sempre possível a diferença)

por óleos nem tão santos ou nem santos

mesmo, como se essa passagem por aqui

do corpo alheio


não ficasse aquém do que dele esperassem:

a menina sai para a escola e não retorna,

só quando seu corpo é encontrado dentro

de uma caçamba, disposto como se lixo,

um corpo alheio


ou quando um mecânico mata o pai e, em

seguida, a namorada, por causa de uma

oposição e um desejo rejeitado, um rasgo

inútil de ódio cego e impotência frente

ao corpo alheio


por isso o desfile desse corpo ungido, regado

a óleo santo ou untado por graxa impura,

a semeadura do desentendimento, as feridas

do cotidiano e as agruras do mês, a repulsa

pelo corpo alheio


por essa terra que a água molhaencharca

correm corpos untados e também ungidos;

pela terra que voltará a secamolhar, corre

agorasempre sombra assustada de mais

um corpo alheio


adolescente mata primeiro o pai, depois

a irmã, por fim a mãe, proibido que fora

de usar o celular, esse corpo untado,

ungido e então lubrificado para o extravio

de corpo alheio


é assim, por um rastilho súbito, golpe

punhal no ar elevado, por um dê cá essa

palha qualquer esparramada por seco

redemoinho, comemos e bebemos

do corpo alheio

coisas possíveis (inédito)

***


[4]

20. rezar

como se a esperança (ou fé, pensam

alguns), acontecesse por encomenda,

ou se a garantia viesse pela repetição,

um martelar de mesmos pedidos que,

enfileirados e classificados, gerassem

uma certeza estabelecida


acreditar que nem inteiro nem meio

pedidos são suficientes, por sagacidade

repetindo-se ambos e outros, como se

doses a mais de uma vacina propiciassem

imunidades transcendentes, garantissem

uma certeza estabelecida


pensar que os olhos do dia são também

os que vigiam na noite e asseguram uma

complexa rede de soluções negociadas

para as pequenas verdades a serem apa-

gadas, as confidências que propiciassem

uma certeza estabelecida


é assim que se implora por um súbito

milagre, uma gota de tal relíquia e se

obtém uma graça pedida, imerecida

talvez, merecida por outros que não

a pediram mas a alcançaram, longe de

uma certeza estabelecida

coisas possíveis (inédito)

***


[5]

22. esperar pelo ano novo

sobretudo, por um ano melhor,

essa crença de que, com doze

uvas e uma colher de lentilha,

pavimentam-se estradas adiante


pular sete ondas também, arruda

atrás da orelha; plantar dinheiro

em penca, alecrim ou manjericão

– se por nada, como condimentos


que temperam a vida e lhe trazem

essa sempre passageira ilusão de

que podemos alterar rumos, ramos

de plantas novas, doces e amargas


se há romã, coma-se alguns grãos e

embrulhe-se outros tantos em papel,

carregando-os na carteira o ano inteiro,

há quem confie que trazem dinheiro


pode ser que tudo dê sorte, se a sorte

dependesse de nós e se todos cressem

em poderes daqui ou d’além, até onde

nossa credulidade nos leva e mantém


bom se talvez acreditássemos em nós

mesmos, no próximo, sem dissidências,

ódios, fake news, ilusões – melhor é sermos

o que somos, sem magias, esperanças vãs

coisas possíveis (inédito)

Heleno Godoy (Godói de Sousa, na identidade), nascido em Goiatuba, Goiás, em 1946, é hoje professor titular aposentado de Literatura Inglesa da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (1991-2016). Mudou-se para Goiânia em 1957, de onde nunca mais saiu. Foi também professor da PUC-GO, quando essa universidade se chamava, mais humildemente, Universidade Católica de Goiás (1974-2008). Depois dos cursos primário e ginasial, entrou para a Faculdade de Artes da UFG, de onde foi expulso em 1968 por “subversão”. Fez novo vestibular, para a então UCG, onde se tornou monitor e depois professor. O ano de sua expulsão da UFG foi também aquele de sua estreia literária, com a publicação de seu primeiro livro de poesia, Os veículos, integrado à Instauração Praxis, proposta por Mario Chamie. Seu último livro publicado, uma antologia celebrativa dos 60 anos de existência do GEN-Grupo de Escritores Novos, é uma obra coletiva que organizou: Poemas do GEN – 60 Anos (Anápolis: Editora Chafariz, 2024). Escritor, em primeiro lugar, mas professor durante 52 anos de sua vida, Heleno Godoy tem licenciatura plena em português-inglês e literaturas correspondentes, fez o mestrado em “Modern Letters” no Graduate Institute of Modern Letter da University of Tulsa (Tulsa, Oklahoma, USA) e o Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre aqueles dois livros mencionados, publicou, entre outros, As lesmas (romance, 1969), Relações (narrativas, 1981), fábula fingida (poesia, 1985), A casa (poesia, 1992), A ordem da inscrição (poesia, 2004), Lugar comum e outros poemas (2005), Sob a pele (poesia, 2007). Também publicou dois livros de contos: O amante de Londres (1996) e A feia da tarde e outros contos (1999). Como foi professor universitário (graduação e pós-graduação), por exigências acadêmicas publicou dois  livros de ensaios: Leituras de ficção e outras leituras (2011) e Leituras de poesia e outras leituras (2012), além de ter organizado quatro livros de ensaios sobre teatro e literaturas de língua portuguesa e inglesa. Em 2015, a martelo casa editorial publicou Inventário: poesia reunida, inéditos e dispersos (1963-2015), com organização da Dra. Solange Fiuza Cardoso Yokosawa. O último livro de poesia de Heleno Godoy foi publicado em 2019: Nossos lugares e o que neles somos.

Tag's: Heleno Godoy, literatura, literatura brasileira, poesia, poesia brasileira, poesia goiana

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