Há pouco me deparei, com poucos dias de diferença entre uma e outra, com duas frases que podem ser lidas como duas formas antagônicas de ver a filosofia. A primeira é do historiador Paul Veyne e diz assim: “apesar da clareza de seu texto, Sêneca deve ser levado a sério como filósofo”. A segunda, do filósofo Henri Bergson, diz: “Há problemas gerais que interessam a todos. O filósofo deve ser capaz de tratá-los na linguagem de todos”. Numa delas, detectamos aquela doença endógena da linguagem filosófica universitária, idioma adequado apenas para iniciados, não ligado necessariamente ao rigor, e que quase sempre serve apenas para satisfazer o ego de alguns, assim chamados, profissionais do setor.
A frase de Veyne, que não é uma piada embora o pareça, é por si só tão definidora do narcisismo de alguns personagens acadêmicos que dispensa qualquer sarcasmo que possa ser lançado sobre ela. Em contrapartida, a sentença de Bergson dialoga bem com a simpatia, a disposição e o interesse geral que as questões filosóficas despertam nos seres humanos simplesmente pelo fato de serem humanos. A de Veyne oferece argumentos para o preconceito contra a filosofia com algo fútil, e nos aparta dela. A de Bergson atua fazendo exatamente o oposto, tornando-a útil e próxima. A postura de Henri Bergson combina bem com a de Pierre Hadot, outro pensador francês do século passado que, numa passagem memorável, esclarece: “é precisamente o papel da filosofia revelar aos homens a utilidade do inútil ou, caso se prefira, de lhes ensinar a distinguir entre dois sentidos da palavra útil. Há o que é útil para um fim particular: a calefação, a iluminação ou os transportes, e há o que é útil ao homem enquanto homem, enquanto ser pensante. O discurso da filosofia é ‘útil’ nesse último sentido, mas é um luxo, caso se considere como útil apenas o que serve a fins particulares e materiais”.
Immanuel Kant, no século XVIII, afirmou nas primeiras páginas da Crítica da razão pura que a metafísica é uma disposição natural do espírito. Em outras palavras, é próprio do ser humano questionar-se com perguntas do tipo: o que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? Deus existe? O que é justiça? E a morte, tem alguma coisa a nos contar sobre o significado da vida em geral e da nossa em particular? Fazemos essas perguntas com mais ou menos frequência, elas nos pertencem, nos afetam, embora, certamente, não se possa dizer que o façam com indiferença do nosso gênero, da nossa cor ou da nossa classe social. E isto, seja dito de passagem, não nos torna a todos filósofos, do mesmo modo que o interesse comum pelo clima não faz de ninguém um meteorologista.
Em sua versão de luxe, a filosofia pode se transformar num artigo retórico e formal em busca de novidades e neologismos a qualquer custo. Para quem a entende dessa forma, a criação mais ou menos bem-sucedida de um tecido conceitual pode se tornar o fim mesmo da filosofia. Nesse caso, trata-se para o filósofo de ser o mais hábil possível na produção de um discurso que, procurando a originalidade e almejando a profundidade, acaba facilmente sendo rebuscado e distante. Impossível não lembrar de Nietzsche… “turvam suas águas, para que pareçam profundas”.
A filosofia não é um sistema de autoajuda porque não tem respostas prontas para os problemas de cada um e tampouco é uma religião porque não chegou para espalhar uma verdade revelada ao mundo através de uma doutrinação concreta. A filosofia é a vida consciente de si mesma em toda a sua complexidade. Requer tempo e perguntas, distância e reflexão. Mas isso não significa de forma alguma que o pensamento filosófico deva ou possa separar-se do nosso dia a dia. De fato, como já dissera Simone Weil, “no fundo, não há nada mais imbricado na vida humana comum e cotidiana do que a filosofia”.
A filosofia não está reservada a um contemplativo trancado no seu quarto, ou ao trabalho do professor, que o finaliza no momento em que se despede dos alunos até a próxima aula, mas faz parte, mesmo que inconscientemente, da nossa atividade diária. Unir harmoniosamente a vida cotidiana e a consciência filosófica será sempre uma conquista frágil e ameaçada – “difícil e rara, como todas as coisas belas”, como diria Spinoza – , mas num tempo em que ficou de bom tom presumir a própria ignorância e o imperativo do dia é trabalhar, consumir e obedecer, num círculo vicioso tão seguro de si que não se deixa interpelar, a filosofia – que coloca em dúvida aquilo que ordinariamente é dado como certo – torna-se mais necessária do que nunca e continua tão vigente como, sem percebê-la, sempre foi.




