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Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal
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Luís Araujo Pereira em Florações Professor e escritor | Publicado em 20 de julho de 2025

Luís Araujo Pereira
Professor e escritor
20/07/2025 em Florações

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Cinco poemas de Maria Emanuelle Cardoso

[Curadoria de Luís Araujo Pereira]

[1]

da possibilidade de encontrar  um psitacídeo intergaláctico

 os grandes mamíferos das águas que são pescetarianos

 não tomam coca, querem mergulhar

 reduzir o consumo de coca ainda é produzir coca

 tomar coca light ainda é produzir coca

 reutilizar o vidro de coca ainda é produzir coca

 reciclar o vidro de coca ainda é produzir coca

 a pele do capitalismo adora esse tipo de cócegas

 tomar nenhuma coca ainda é produzir coca

 queimar queimar

 a fábrica de cocas

***


[2]

namazu

os peixes-remo medem aproximadamente seis

metros. quando aparecem, dizem aos japoneses

que é tempo de terremotos. a gramática diz:

sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto

causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo

sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis.

as relações da causa e consequência do influxo

e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não

são totalmente conhecidas. há quem diga

que todo humano é prelúdio de incêndio.

há quem acredite que toda carbonização

é prelúdio de humano. não se sabe se houve

guerra porque existem humanos ou existem

humanos porque houve guerra.

aos humanos quando os vemos

resta contar a lenda de um primata que corre como

planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi

e sabe como provocar terremotos.

***


[3]

Felis catus não fênix cactos

 escrever um poema é como

 acariciar um gato arredio

 se à sua porta

 ele decide:

 penetrar em silêncio

 com sede

 ou a contínuo

 e primitivo uivo

 importante é que veja-me:

 isso não é

 defaunação intratorácica

 é melhor que queira

 subirei a sua janela

 com unhas anciãs recém-paridas

 destruirei suas redes de proteção

 passarei horas em sua barriga

 fazem-me cócegas suas cãibras

 lombrigas/gases/preocupações

 fique completamente quieta

 tudo que peço é acaricie minha testa

 novamente

 novamente


ficarei de canto,

 esqueça-me

 vou miar com fome:

 me olhe.

 se fico de canto

 um susto

 batidas em sua porta

 bato a sua porta

 lembre-se:

 eu preciso entrar

 vou te deixar

 com marcas

 dos meus dentes

 em sua canela

 toda vez que passar por mim

 arquearei as costas

 para que dê um pulo

 humana minha

 tenho todas as vidas

 mas rápido posso morrer

 se você não souber

 onde colocar o raticida

***


[4]

nenhuma gentileza nas mãos

acabei de descobrir tenho

um corpo nele tem: palavras

cômodos, lâmpadas uma casa

inteligente orgânica toda

dinâmica se batem palma é para

que algo se acenda. meu antigo

problema de esquecimento foi

solucionado. um corpo nunca

esquece onde estão as chaves

descobri que tenho um corpo

há sinais: desastres hídricos

geológicos incêndios emanações

vulcânicas menstruações inundações

descobri que todo corpo é horta-praga

assim se faz uma vizinhança. confusão

entre vizinhos: o seu telhado sobre o meu

***


[5]

ladainha

 a costureira uma vez me disse:

 sem fitas métricas em mãos usa-se

 os dedos próprios, é necessário espalhar

 intriga: olhe anelar como netuno tem anéis!

 olhe mindinho brotará qual etnobotânica

 para restaurar suas margens assoreadas?

 do meio há tempos não te vejo coberto, nem ereto.

 indicador essa estrada do autoafago é em vórtex

 e no fim você indica uma dúvida,

o dedo das provocações.

 polegar isso não é um ângulo de 90°!

 repita o processo com as outras mãos

envolvidas na contagem

 se duas mãos, é metade de um metro

 assim se mede: se entre

 eu e você as mãos ainda não se

 abocanham, é dia. se ambas as mãos constroem

silêncios: é noite.

se da última seringa até a próxima

em seu bicho de estimação

 houve uma mão: defaunação. duas

 ou mais: regurgitação.

 para verificar a

 saudabilidade da fauna:

se no espaço entre um passo e outro

a distância é

 igual ou menor que uma mão

é rugido de bicho forte,

 mais que uma: escapulário.

 se na plantação, as mãos são todas da mesma cor

agronegócio, pluridiversas:

 agroecologia.

se entre dois bichos que brigam

 há duas patas levantadas: território

 duas patas levantadas que tremem:

 continuação da espécie.

 da última vez que te vi: se há uma mão

fabulação de indicadores

 duas ou mais: é geriátrico

 o nosso amor.

Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 15 de novembro de 2000. Graduada em Ciências Biológicas Bacharelado na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) em 2023, atualmente cursa o mestrado em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na mesma instituição. Além de bióloga, é poeta e educadora popular. Realiza pesquisas na área de etnoecologia, com ênfase no campo de redes de troca de sementes e mudanças climáticas. Seu livro de estreia amarelo mostarda, do qual foram extraídos os poemas que ilustram esta coluna, foi publicado em 2024 pela editora Nauta. Também tem poemas publicados em antologias e revistas (Há quarenta e seis pés, Totem&Pagu, Cassandra, Aboio, Ruído Manifesto, Casa Inventada, Oficina Literária da Revista Cult, Jornal Rascunho e Relevo). Ganhou o segundo lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 (Trevo) e participou do Clipe Poesia 2023 na Casa das Rosas.

Tag's: Maria Emanuelle Cardoso, poesia, poesia brasileira

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