No que posso comentar em uma crônica sobre os gêneros gráfico-narrativos que povoaram a minha infância e adolescência, gostaria de destacar ao menos três, os mais regulares e fascinantes e também os mais atraentes, se resumo bem o seu sentido múltiplo – gêneros que me ajudaram a suportar momentos de tédio e reclusão, quando chovia intensamente no bairro, ou quando, em certas ocasiões, diante do espelho, examinava um corpo magro: o que eu me significava ali em face de mim mesmo – eu que gostaria de ser outra pessoa? O herói de uma HQ, cujo roteiro pensei um dia em escrever?
Sob muitos aspectos, elas ampliaram a minha imaginação e asseguraram-me de vez o hábito e o prazer da leitura: os gibis são uma porta de entrada tão boa quanto um livro de Jules Verne ou um conto de Perrault.
Nas emocionantes aventuras que transbordam das páginas dos gibis, o herói é aquele que não comete erros e defende os fracos – o deus eternamente jovem (porque não envelhece nunca) –, ao passo que eu só parecia, diante de mim mesmo, no espelho, a habitual criança que tinha de vender jornais todos os dias, a partir das madrugadas, para que o bairro acordasse com notícias frescas e as pessoas se informassem sobre o movimento do mundo.
Esses gêneros são aqueles aos quais os meninos sempre devotaram interesse, paixão e disputa. Como o número dos mosqueteiros, eles são três, escolhidos a dedo: o dos caubóis, o da ficção científica e o da fantasia, dos quais Tenente Blueberry, Flash Gordon e o Incal são alguns exemplos.
Hoje, reconheço que eles me ajudaram naquele tempo de descobertas e pobreza a modificar o meu modo de ver as superfícies, as texturas, as profundidades e, em outra dimensão, a imaginar o trino das esporas nos saloons, ao mesmo tempo em que me faziam deslumbrar com formas grotescas que habitavam outros planetas criadas com potência criativa pelo desenhista.
Se me entendo bem, a criança que ainda sobrevive até hoje em mim alimentava-se das peripécias e ousadias de seus heróis nos quadros da narrativa. A fantasia de acompanhar em Tombstone a cavalgada dos homens do xerife atrás dos assaltantes de banco; de, no duelo com o bandido, torcer pelo estranho que chegava à cidade para limpá-la dos malfeitores – tudo isso, em muitos quadrinhos, deu-me senso de justiça e respeito por mulheres que desciam sozinhas da diligência num povoado hostil. Apesar dessas imagens desafiadoras e contundentes, o ambiente dos caubóis nunca reservou um lugar decente para os imigrantes e forasteiros, sempre alvo de desconfiança.
Entre os três, o dos faroestes continua sendo o gênero que aprecio até hoje, sobretudo na telona. O meu interesse foi despertado desde cedo quando passei a ler títulos como Roy Rogers, Tom Mix, Durango Kid, Paladino do Oeste, Hopalong Cassidy, Aí, Mocinho (A nostalgia do faroeste), Gunsmoke (O xerife Matt Dillon), Almanaque de férias de Reis do Faroeste, Cheyenne, Davy Crockett e Zorro, em publicações regulares da Ebal, a grande editora brasileira de gibis, que funcionou de 1945 a 1995, ou seja, durante longos 50 anos de revólveres fumegantes, duelos e socos.
Esses heróis, estampados com donaire nas capas das revistas, eram objeto de troca e venda, dispostos em fileiras sobre a calçada da rua 24, no Centro de Goiânia, onde antigamente, aos domingos, frequentava a matinê do Cine Santa Maria, um cinema que, a despeito do nome, expunha maus costumes e profanidades, seja nos desenhos, seja nos planos da tela.
Depois de ter percorrido, ao longo dos anos, milhares de páginas, aprendi como a povoação dos Estados Unidos foi difundida. A conquista do Oeste, por exemplo, deu-se de modo singular, tornando-se um mito americano que depois foi transformado em uma expressão artística, tantas vezes atualizado, nos convencendo de que o passado pode ser indefinidamente reinventado.
Por tudo que já lemos e assistimos nos filmes e séries televisivas, essa conquista não foi consolidada por uma só caravana e muito menos por um herói civilizador.
Os apaches, navajos, comanches e sioux, o colono, o pistoleiro, a fortificação como lar, os ranchos, a cavalaria, os conflitos entre criadores de gado e de ovelhas, o mineiro, o xerife, o vaqueiro errante, o caçador solitário, o contrabandista – todos eles, cada um utilizando os recursos de que dispunha, mais minguados do que abundantes, são personagens que formam uma saga repleta de proezas, cujos dramas continuam sendo narrados com entusiasmo, exuberância e fúria até hoje.
Distintamente, todos eles são indivíduos desconhecidos que começam, preenchem e terminam um mundo com a sua breve e iluminada presença.
Essa conquista tem esplendor épico, integra o enredo dos gibis, dos filmes e, com uma imaginação que beira à genialidade, da literatura de Cormac McCarthy, que recriou o Oeste com tintas de nostalgia e violência poética.




