Há poucos dias conversávamos, eu e um amigo, sobre o falecimento de alguém por quem ele demonstrava tanto apreço. Na oportunidade, esse amigo trouxe o tema da brevidade da vida e, por isso, a urgência de sabermos aproveitá-la, embora quase sempre predomine a incerteza de como realizarmos esse feito. A profundidade do assunto me levou à reflexão sobre o que alguns filósofos definem como os passos basilares da experiência filosófica, também chamados de “estranhamento”, “questionamento” e “reflexão filosófica”.
Quando digo “estranhamento”, essa alusão significa experimentar alguma espécie de quebra ou de interrupção no fluir normal da própria vida. Convenhamos ser bem comum acordar de manhã e começar a realizar as diversas atividades corriqueiras, comumente encerradas no fim do dia. Tarefas, diversas vezes, tão irrefletidas a ponto de adormecer a consciência, levando-nos a ignorar a beleza e o horror possivelmente existentes à nossa volta. Logo, a rara sorte de estranharmos pode surgir no instante da boa conversa, na notícia da morte repentina, nas desilusões amorosas ou na impropriedade de qualquer cena capaz de atingir o nosso espírito.
Reconhecendo estarmos presos nos moldes daquela caverna pensada por Platão, a ideia de escapar de dentro dela para tirar proveito dos bons momentos da vida soa ainda demasiado clichê. De toda forma, as dificuldades de achar os meios de atingir esse interminável carpe diem insistem em atiçar a minha curiosidade. A estranheza surgida ao ouvir as palavras do meu amigo convertera-se no próximo passo do questionamento. Afinal, é realmente possível aproveitarmos o máximo da vida?
Caso consultemos os tradicionais volumes da história da filosofia, desde os pensadores antigos até os contemporâneos, encontraremos fartas considerações acerca do bem-viver – me permitindo começar pelo conceito de eudaimonia de Aristóteles, desembarcando na escola epicurista e sua defesa do prazer como fim último, sem desconsiderar, obviamente, uma rápida visita ao estoicismo de Sêneca e chegar à patrística de Santo Agostinho e às lições do Mestre Eckhart. Contudo, caso a inquietude permaneça, ao passar mais alguns séculos, haverá os aforismos provocantes de Nietzsche antes de alcançarmos de vez os pensadores mais recentes.
É inegável a variedade do cardápio, mas, diante de tantas opções, resolvi escolher aquela que parece responder às incertezas atuais. Desse modo usarei, para solucionar o terceiro e último passo da experiência filosófica as contribuições do alemão Martin Heidegger (1889-1976) voltadas para a ideia de autenticidade da vida humana.
O primeiro ponto a sabermos começa na distinção daquilo que comparamos às demais especificidades pertencentes aos outros animais. Ora, vejamos os gatos e cachorros, invariavelmente desapegados da consciência da morte e dos títulos de cobrança a pagar. A particularidade concernente ao modo de existir é denominada por Heidegger como Dasein, uma palavra de origem alemã que, numa tradução simples, quer dizer “ser aí”. Isso leva a crer o quanto somos seres aqui e agora indissociáveis do mundo e, dessa forma, podendo asseverar a existência de duas maneiras: diante da “facticidade” do nascer, de termos corpo físico, do pertencimento a algum grupo social e do surgimento de problemas acima das nossas escolhas. Já a outra maneira é chamada de “transcendência”, considerando o direito natural de agirmos mediante o enorme esforço de virmos a superar as determinações naturalmente impostas pela nossa própria condição humana.
E quanto ao sentido da vida? Para o filósofo, essa resposta reside na maneira como atribuímos sentido às nossas ações. Podemos viver, segundo ele, de maneira autêntica ou inautêntica e isso depende daquilo que é “certo” ou “errado” realizado por nós. A inautenticidade está fatalmente ligada à banalidade do quotidiano – da preocupação exacerbada em atender aos apelos da moral vigente, diferentemente daquela obediência do passado, quando costumávamos vê-la mais perto da disciplinaridade social do Vigiar e Punir, de Foucault. Hoje, entretanto, o estilo inautêntico dá lugar à caracterização do homem positivo, liberto dos domínios externos, tornando-se agora submisso a si mesmo, conforme Byung-Chul Han demonstra na sua Sociedade do Cansaço. O “empreendedor de si mesmo” está na moda, trazendo doenças neurais, a exemplo da depressão, do estresse e da ansiedade, precisando serem remediadas quer seja sob o recurso da indústria farmacêutica, das drogas ilícitas, das bebidas alcóolicas, quer seja da conversão a uma seita neopentecostal.
Além da ideia do Ser, explorado em o Ser e Tempo, Heidegger fala a respeito da importância da “angústia” em O que é metafísica?. Experimentamos desse sentimento nos momentos de maior impessoalidade e alienação, reconhecendo-nos mais identificados com as imposições sociais ao invés da atenção do Ser, diametralmente alinhado ao verdadeiro propósito de existir. Há um filme curioso, produzido na linha do entretenimento, chamado Unbreakable ou Corpo Fechado (2000), do diretor M. Night Shyamalan, cuja abordagem traz a história de David Dunn (Bruce Willys), acometido da mais incômoda melancolia, o que sugere exatamente o efeito angustiante conforme tratado na tese heideggeriana. A despeito do apelo hollywoodiano, é interessante notar que a crise conjugal e profissional do protagonista encontrará remédio quando descobrir o seu verdadeiro propósito de existir. Tendo a ajuda paradoxal do arqui-inimigo Elijah Price (Samuel L. Jackson), Dunn precisará reconhecer os seus superpoderes, na esperança de conseguir aventurar-se nas noites da cidade à procura dos criminosos mais perversos.
Não arriscaria acreditar que haja diversos heróis prontos para desabrochar no mundo, porém gostaria de somente concluir sobre a importância do sentimento da angústia heideggeriana, da teimosa tristeza, mesmo a de quem resida no melhor dos lares ou trabalhe no tão cobiçado dos empregos.
A vida inautêntica constitui-se na impessoalidade da ação, pois se orienta sempre por desejos e determinações mundanas, a exemplo do dinheiro, do utensílio da moda, do casamento, dos filhos, do trabalho e da religião. Ao contrário disso, a autenticidade é o poder de contraposição, de projetar-se no tempo, assumindo os riscos e as consequências das escolhas e daí lançando-se às várias alternativas interminavelmente renovadoras. Ser autêntico não remete à garantia da felicidade, não obstante garante o poder de encarar de frente as tantas desilusões. E qual é a vantagem disso? A novidade é reconhecer a ausência das fórmulas metafísicas ou dos enganos fartamente vistos através das pregações religiosas, dos livros de autoajuda ou dos influenciadores da internet. É preciso esclarecer que, diante da realidade imperfeita e incompleta, a vida jamais pode ser uma história escrita em linha reta, encaminhada ao êxito e ao progresso. Não podemos esperar nenhuma segurança; pelo contrário, nossa existência está marcada por sofrimentos, explorações e injustiças. Se aprendermos a enfrentar isso, desconstruindo os delírios da pós-modernidade, começaremos a trilhar perigosamente na direção da vida autêntica.
Bibliografia
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2000.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2019.
HEIDEGGER, Martin. O que é metafísica? São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Coleção Os Pensadores).
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2015.
SHYAMALAN, M. Night. Unbreakable (Corpo fechado). EUA, 2000.




